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Correio da Manhã

Portugal
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Morreu depois de alta

Um homem de 50 anos, que sofria de uma hérnia nos testículos, morreu no Hospital de Castelo Branco quatro dias depois de ter sido atendido na unidade de Saúde e mandado para casa. A família está revoltada com a forma como foi tratada, sobretudo porque quando quis levantar o cadáver a sua identidade tinha sido trocada pela de outro doente, que está vivo.
28 de Agosto de 2007 às 00:00
Benvinda Duarte e a mãe lamentam as circunstâncias que rodearam a morte de António Duarte no Hospital de Castelo Branco.
Benvinda Duarte e a mãe lamentam as circunstâncias que rodearam a morte de António Duarte no Hospital de Castelo Branco. FOTO: Lídia Barata
António Manuel Duarte, solteiro, residente em Tinalhas, entrou quinta-feira (dia 23) no Serviço de Urgências do Hospital Amato Lusitano porque “estava cheio de dores e a hérnia que tinha nos testículos estava transformada numa bola enorme, muito inchada, que já se notava bem”, explicou ontem Benvinda Duarte, irmã do falecido, adiantando que os dois médicos que o consultaram o mandaram para casa, dizendo que “com a hérnia estava tudo bem”.
O homem foi medicado apenas por causa do álcool, porque costumava beber muito, mas como tinha parado há quatro dias apresentava sintomas de abstinência. “Os suores, tremores e a temperatura alta foram atribuídos a essa situação pelos médicos”, refere Benvinda Duarte. O irmão foi para casa e deveria apresentar-se numa consulta no Serviço de Cirurgia no dia 24 de Setembro.
Mas, como piorou, foi transportado ao hospital pelo INEM, sexta-feira, “já sem poder andar, a delirar e com muita febre. Foi visto por outro médico e, como o seu estado de Saúde era muito grave, foi-lhe feita uma cirurgia de emergência”.
A família apenas soube do resultado da operação na altura das visitas, pelas 19h00, quando a irmã esteve “um bocadinho” com o doente e o médico explicou que “não estava muito bem, mas tudo podia ainda acontecer”. No entanto, segundo Benvinda Duarte, “a hérnia estrangulou e ele já tinha uma perfuração no intestino”.
Após a cirurgia, António Duarte ficou internado na Unidade de Cuidados Intensivos em estado de coma. O falecimento foi comunicado à família por telefone, pelas 07h30 de domingo.
FORAM EXPULSOS DA MORGUE
Quando Benvinda Duarte e outros familiares estavam para levantar o corpo, verificaram que tinha entrado na morgue do Hospital Amato Lusitano com a identidade de A.V., de 63 anos, casado, residente em Idanha-a-Nova. Os dados da ficha colocada sobre o cadáver pertenciam a um homem que está vivo e partilhou com o falecido a enfermaria na Unidade de Cuidados Intensivos. “Foi só uma troca de etiquetas”, foi esta a informação dada a Benvinda Duarte, quando pediu explicações sobre o sucedido, antes de “ser expulsa da morgue”, tal como os seus familiares, no domingo de manhã. “O segurança abriu a porta e mandou-nos entrar para a morgue. Entrámos e ele chamou-me para assinar o livro, para levantar o corpo. Quando ia assinar, reparei que o nome do papel não era o mesmo e os outros dados também não eram do meu irmão”, diz Benvinda Duarte, adiantando que não percebe a reacção do segurança que “pôs toda a gente na rua, sem mais explicações”.
FAMÍLIA VAI APRESENTAR UMA QUEIXA
A família de António Duarte está revoltada com o atendimento que lhe foi dado no Hospital Amato Lusitano por três razões substanciais: primeiro, por os médicos terem mandado o doente para casa e ele acabar por falecer volvidos quatro dias; depois, pela pouca informação que diz ter recebido e, por último, por ter sido maltratada na morgue quando foi levantar o cadáver. Por isso, vai apresentar queixa no chamado ‘Livro Amarelo’ da unidade de saúde sobre “a série de situações incómodas” a que foi sujeita na última semana no hospital, “para que outras pessoas não passem pelo mesmo”. A administração do hospital escusou-se ontem a comentar as queixas da família, quer quanto à forma como foi atendida na morgue quer sobre as circunstâncias que levaram à morte de António Duarte.
DENÚNCIAS
PROCESSOS
Dos 1978 processos movimentados em 2006 pela Inspecção-Geral da Saúde, 304 reportavam-se a denúncias de negligência médica. Em 14 por cento (42 casos) provou-se a má prática clínica. Nas situações mais graves, os profis-sionais foram demitidos.
MENOS CASOS
Apesar do elevado número de casos considerados graves, parece haver uma ligeira diminuição de situações relatadas, uma vez que em 2005 foram denunciadas 329 negligências, 55 das quais resultaram em punição (17 por cento).
PUNIÇÕES
A Inspecção-Geral de Saúde aplicou, em 2006, um total de 50 penas disciplinares. Nos casos mais graves, os profissionais de saúde envolvidos foram demitidos (20 por cento das situações). Registaram-se ainda suspensões (10 por cento) e penas de inactividade (14 por cento).
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