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Correio da Manhã

Portugal
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Morte volta à Figueira

O tempo passa demasiado devagar em Figueira. Há mais de um ano que na pequena aldeia de Portimão todos esperam uma explicação para o desaparecimento e presumível morte da pequena Joana.
11 de Outubro de 2005 às 00:00
Mas agora, a menos de um dia de Leonor e João Cipriano, mãe e tio da menina, se sentarem no banco dos réus – acusados de homicídio qualificado, ocultação e profanação de cadáver – os relógios parecem ter abrandado. E a memória do crime está outra vez nas ruas e nas conversas.
O burburinho começou a crescer há algumas semanas. O assunto, arrumado na zona mais negra da memória colectiva da aldeia, veio de novo à tona quando algumas testemunhas foram chamadas a depor para memória futura. “Fomos apanhados nisto”, conta José António, “não somos culpados de nada”. “Era bom que se resolvesse depressa.”
Acende um cigarro e acena a dois carros que passam. “Toda a gente se conhece por aqui. Aquela família estava cá há pouco, mas mexeu muito com a aldeia.” José António não é o único a lembrar-se. Primeiro o desaparecimento, depois as detenções da mãe e do tio, a seguir as visitas da Polícia Judiciária e os buracos à procura do corpo. Mais os curiosos.
Ninguém esquece o que sucedeu há um ano, mas nem todos estão dispostos a falar. Cansados de perguntas, muitos habitantes de Figueira aprenderam a evitar jornalistas.
Quem tem o nome na lista de testemunhas já faz contas à vida com a duração do julgamento e o número de vezes que terá de ir a tribunal. “É complicado por causa do trabalho”, alegam os que têm negócio próprio.
Se em Figueira os ponteiros rodam devagar, na Senhora do Verde, onde funciona a sucata da família de António Leandro, marido de Leonor Cipriano e padrasto de Joana, o tempo parou mesmo.
“Nunca mais é hora de acabar com isto”, lamenta Lurdes David, mãe de Leandro e, como ele, testemunha de acusação.
“Não sei se vou conseguir olhar para a cara da Leonor. Há meses que não vou vê-la à cadeia. Nem o Leandro”, conta Lurdes, que acredita que Joana pode estar viva. “Estou nervosa e estamos à espera de tudo.”
JULGAMENTO COMEÇA AMANHÃ
Amanhã, 12 de Outubro, exactamente um ano e um mês depois de Joana, a menina de 8 anos, ter sido vista pela última vez na Figueira, o 1.º Juízo Criminal do Tribunal de Portimão começa a julgar os dois arguidos acusados de homicídio qualificado, ocultação e profanação de cadáver.
Leonor Cipriano, 34 anos, mãe da menina, e João Cipriano, 32 anos, tio da criança, sentam-se no banco dos réus a partir das 09h15. Quatro jurados, três mulheres e um homem escolhidos dos cadernos eleitorais, terão a responsabilidade de decidir sobre a culpa ou inocência dos dois arguidos – Leonor defendida por um advogado, João por uma advogada.
A Acusação vai chamar 45 testemunhas no julgamento, que ninguém sabe quanto tempo pode durar.
À ESPERA DA DECISÃO
ESPERANÇA
Em Figueira ainda há quem acredite que Joana pode estar viva. “Só eles [Leonor e João Cirpriano] sabem. Venderam a menina? Deram-na? Foi morta?”, pergunta um morador.
SEM CORPO
A ausência do corpo da menina e de testemunhas são dois factos a marcar o julgamento de Leonor e João Cipriano, ambos acusados do homicídio da criança de oito anos.
PENA MÁXIMA
Se forem considerados culpados, Leonor e João, ela detida em Odemira e ele em Olhão, podem vir a ser condenados à pena máxima prevista na Lei portuguesa: 25 anos de cadeia.
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