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Correio da Manhã

Portugal
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Mortes intrigam Judiciária

Não há testemunhas da tragédia que se abateu, anteontem à noite, sobre uma família da freguesia de Maceda, no concelho de Ovar. O cenário sangrento que as autoridades encontraram na moradia da família Rocha Rodrigues aponta, pelo menos para já, num único sentido: uma médica, de 49 anos, matou a tiro de revólver a filha, de 14 anos, e suicidou-se com a mesma arma.
20 de Janeiro de 2006 às 00:00
Mortes intrigam Judiciária
Mortes intrigam Judiciária FOTO: Ricardo Cabral
Foram disparados quatro tiros: a menina morreu com um único tiro no tórax; a mãe matou-se com três, dois no peito, outro na cabeça.
Ninguém na vizinhança ouviu os quatro disparos e a descoberta foi feita pelo marido da médica, Rui Rodrigues, quando chegou a casa, vindo de um jantar com amigos. Ligou para o 112 às 22h35.
O corpo da jovem Mariana Rodrigues foi encontrado debruçado sobre a cama do seu quarto. Quando os socorristas dos bombeiros de Esmoriz chegaram ao local, a adolescente ainda teria “um ligeiro sinal de pulso”, mas morreu daí a pouco. Quando a equipa médica do INEM chegou já estava morta.
A mãe, Maria Manuela Rocha, estava morta, deitada na cama do casal. O cadáver apresentava dois ferimentos de bala no peito. O disparo fatal desfigurou-lhe o rosto. O revólver estava ao lado do corpo.
Ao que o CM apurou, os inspectores da PJ não têm motivos para afastar a hipótese de homicídio e suicídio – mas estão “intrigados” sobre os motivos que levaram a mãe a matar a filha. Esperam que as autópsias possam “esclarecer muita coisa”. Ainda assim, as primeiras perícias indicam que foi a médica a autora dos disparos e que tinha intenção de pôr termo à vida, tendo até tomado herbicida.
“A senhora sofria, desde há dois anos, de uma depressão e automedicava-se. Não queria que soubessem desse problema e por isso ocultava-o”, disse ao CM fonte policial. Uma amiga de Maria Manuela, que quer manter o anonimato, confirma a depressão da médica e adianta que “o casal tinha problemas de relacionamento”: habitavam na mesma casa, mas tinham vidas separadas. Esta fonte não encontra explicação para o homicídio de Mariana: “Nunca me apercebi que a mãe tivesse qualquer problema com a miúda, para além daquelas coisas normais com adolescentes. Uma barbaridade destas só acontece quando alguém entra num estado de profundo desespero. Não sei como foi possível.”
DE BAIXA HÁ DOIS ANOS
O Centro de Saúde de Silvalde, em Espinho, onde Maria Manuela exercia medicina, confirmou ao Correio da Manhã que a clínica estava há dois anos de baixa, “por questões psiquiátricas”. Colegas e utentes docentro estão consternados com o sucedido e apontam a médica como “uma pessoa excelente, muito simpática e simples”.
Já para a vizinhança, o facto de Maria Manuela se encontrar em casa e não a trabalhar, nada tinha a ver com o seu estado depressivo, que a médica se esforçava por esconder. A explicação que dava era a de que se encontrava aposentada, depois de ter sido submetida a uma operação cirúrgica que lhe provocou uma deficiência incapacitante para o trabalho.
NINGUÉM SUSPEITOU DE NADA
À porta de casa, meio escondida entre as sebes do jardim, a vizinha Albertina não consegue segurar mais as lágrimas quando fala da menina Mariana. “Era amiga da minha filha. Iam à praia juntas e frequentavam a casa uma da outra. Era uma menina tão bonita e boa aluna”, diz lavada em lágrimas. A família, que há quatro anos habitava ao lado, no número 537 da Rua dos Lambos, nunca chamou a atenção. “São pessoas muito educadas. Ela médica, ele criador de aves. A senhora sempre foi muito prestável e era ela que todos os dias levava a menina à escola, em Espinho, e a ia buscar ao final da tarde”, relata Albertina. Foi esta vizinha que as viu com vida pela última vez, às 17h30 de quarta-feira, quando entravam para casa, vindas da escola: “Estavam à espera que o portão abrisse e disseram-me adeus, como era normal fazerem sempre que me viam. Só dei pela desgraça à noite, quando chegaram as ambulâncias.”
OUTROS CASOS
ALGARVE
Uma mulher, de 34 anos, tentou suicidar-se, na noite do dia 1 de Janeiro deste ano, numa linha férrea de Faro, com o filho de quatro meses ao colo. Foi impedida pela PSP e internada numa unidade psiquiátrica. O bebé, que apresentava sinais de má nutrição, foi-lhe retirado.
NAZARÉ
Uma empregada imobiliária de 43 anos, residente em Aveiro, acompanhada pela filha de dez anos, terá provocado o despiste da viatura que conduzia na falésia do Sítio da Nazaré. Inicialmente apontava-se para acidente, mas o Ministério Público resolveu abrir um inquérito para apurar a causa das mortes, que em Julho de 2003 chocaram o País.
IDANHA-A-NOVA
Uma mulher de 50 anos foi acusada, em 2002, de matar o filho, um deficiente mental de 24 anos, asfixiando-o com uma corda. O Tribunal de Idanha-a-Nova acabaria por a condenar a sete anos de cadeia, não por homicídio, mas por crime de maus tratos, agravado pelo resultado.
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