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Correio da Manhã

Portugal
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“Morto é que paga”

Factura do tratamento do suspeito do homicídio enviada para casa dos familiares da vítima. Família de homem assassinado revoltada com hospital.
27 de Junho de 2010 às 00:30
Acácio Nunes alega que agiu em legítima defesa durante rixa com António Varela
Acácio Nunes alega que agiu em legítima defesa durante rixa com António Varela FOTO: Nuno André Ferreira

'Afinal, quem paga? Os que mataram ou o morto?' Esta é a pergunta que todos os dias vem à cabeça de Gorete Varela, neta do idoso assassinado em Outubro do ano passado, em Sátão, na sequência de uma rixa com vizinho.

A mulher já estava indignada por o caso ainda não ter sido julgado. Agora, ficou revoltada ao receber uma factura do Hospital de Viseu para pagar os curativos do homem suspeito de causar a morte ao seu avô. 'Como é possível uma coisa destas, quando o caso ainda nem sequer foi decidido em Tribunal?', diz Gorete Varela.

A discussão que acabou em tragédia ocorreu a 11 de Outubro de 2009, em Rãs. António Varela, 76 anos, e Acácio Nunes, 75, há muito que andavam desavindos. Nesse dia, discutiram por causa de um portão e António terá agredido Acácio com uma sachola. Este terá reagido, provocando a queda do seu opositor, com consequências fatais.

Acácio Nunes alega que agiu em legítima defesa e que António Varela se feriu ao cair 'desamparado e bater com a cabeça numa pedra'. Os familiares da vítima têm uma visão diferente dos acontecimentos. 'Fui das poucas pessoas que viram em que estado ficou o meu sogro. Tinha a cabeça toda rebentada, parecia um animal a sangrar por todo o lado. Ele foi violentamente espancado', assegurou ao CM Virgínia Mota, nora da vítima. Embora não tenham tido acesso ao relatório da autópsia, os familiares estão convencidos que a morte foi provocada e não acidental. Por isso, ficaram espantados quando receberam uma factura do Hospital de Viseu a cobrar 147 euros, referentes aos tratamentos feitos a Acácio Nunes.

Segundo o hospital, a despesa foi imputada à pessoa apontada como responsável pelas agressões, no Serviço de Urgências. Gorete Varela critica o método e ameaça: 'Nós não pagamos.'

PORMENORES

DECLARAÇÃO

O Hospital de Viseu refere que as despesas das Urgências são pagas por 'quem é declarado responsável pelas lesões apresentadas' em caso de agressão. Ou seja, a instituição acredita 'na bondade' das declarações prestadas pelas vítimas.

DEVOLUÇÃO

O hospital compromete-se a devolver o dinheiro, caso o tribunal venha a declarar outra pessoa como responsável pelas agressões. Até lá, limita-se a adoptar 'o procedimento padronizado e universalmente aceite' em casos semelhantes ao de António Varela.

LIBERDADE

Acácio Nunes, apontado como responsável pela morte do vizinho, aguarda julgamento em liberdade. A companheira, que estava com ele quando ocorreu a troca de agressões, é a única testemunha do crime. A rixa decorreu num terreno baldio. 

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