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Correio da Manhã

Portugal

Morto por causa de 12 euros

"Eu pago, eu pago! Tenho uma filha para criar”. O desespero de Rui Rocha, dono do Bar Paris, em Valongo, de nada lhe valeu. A sua recusa, pelas 00h00 de ontem, em dar 12 euros de troco a dois lituanos – porque eles já deviam dinheiro ao bar – custou-lhe a vida.
12 de Fevereiro de 2008 às 00:30
Os homens pagaram uma despesa de oito euros com uma nota de 20. Rui começou até por ser o primeiro a mostrar uma faca, como argumento para que os imigrantes lhe pagassem. Foi com essa arma que foi assassinado. Com 15 facadas. E o seu desespero final, garantindo que pagava o troco, não foi argumento suficiente para demover os homicidas.
As palavras ouvidas pelos vizinhos levam a suspeitas de ajuste de contas. “Isto aqui é o centro de tudo o que é marginal. Aliás, na causa deste crime devem estar negócios de droga”, afirmou uma vizinha de 56 anos, que prefere o anonimato.
O facto de Rui Rocha, conhecido como Rui ‘Bombas’ devido a um anterior emprego numa gasolineira, estar no seu bar apenas acompanhado por dois homens de nacionalidade lituana foi também considerado “estranho”, segundo a mesma moradora, já que o estabelecimento costuma ser “bastante concorrido durante a madrugada”.
Populares alertados pelo volume e conteúdo da discussão no bar Paris chamaram a PSP de Valongo. No local, os agentes encontraram a porta trancada, mas era visível o corpo de Rui no interior. “Esfaquearam-no, roubaram-lhe as chaves e deixaram-no a esvair-se em sangue em cima do balcão”, conta a vizinha, actualmente aposentada, que testemunhou a chegada das autoridades e dos meios de socorro.
Em cima da mesa estavam quatro garrafas de cerveja e duas de uísque. No chão, um longo rasto de sangue, prova de que o corpo de Rui ‘Bombas’ tinha sido arrastado após os golpes. A equipa do INEM já nada pôde fazer para evitar a morte do homem que completaria 35 anos no próximo dia 20.
Rui ‘Bombas’ era natural do concelho de Paredes e havia assentado arraiais em Valongo nos primeiros meses de idade, graças ao seu padrinho, Mário, e aos pais deste, que criaram Rui como um filho.
Mas a vítima revelou sempre uma tendência para a criminalidade, que levou a sua família mais próxima a cortar relações há cerca de três anos (ver caixa). Rui estaria agora no ramo dos cafés, mas eram-lhe reconhecidos, mesmo pelos mais próximos, envolvimentos em negócios menos claros. Face negra que, para os vizinhos, se revelou no episódio de ontem, que lhe tirou a vida.
Os presumíveis autores do crime foram detidos e ouvidos ontem pela Polícia Judiciária do Porto e devem ser presentes hoje ao Tribunal de Instrução Criminal para primeiro interrogatório. Só nessa altura serão conhecidas as medidas de coacção a que ficarão sujeitos.
VIOLÊNCIA E TIROS NO BAR PARIS
“O bar era para inglês ver porque aquilo servia para negócios de droga e mesmo de mulheres.” Segundo uma vizinha ouvida pelo CM, o bar Paris, onde teve lugar o homicídio de ontem, era muito mais do que um simples salão de bilhar. A clientela também não agradava aos vizinhos, principalmente pela frequência de desacatos. “O álcool e a hora avançada até que ficava aberto resultavam em comportamentos vergonhosos. Era muito comum começarem à pancada ou destruírem os jardins da proximidade. Olhe, no Réveillon, até festejaram o novo ano com tiros”, revelou a mesma moradora que, apesar de lamentar a morte de Rui ‘Bombas’, espera que agora tudo melhore: “Pelo menos, que signifique o fim dos problemas para podermos viver sossegados.”
"PENSAVA QUE DITAVA AS LEIS"
Rui Rocha era casado e tinha uma filha de seis anos, mas esse facto não lhe conferia responsabilidade. Segundo a família, bem pelo contrário. “Ele pensava que ditava as leis. Que tinha de ser ele a decidir como as coisas corriam. Em linguagem corrente, tinha a mania que era “gringo” e, no fundo, não o era. Arriscou-se a que isto acontecesse”, lamenta o tio e padrinho Mário, que ainda deu uma oportunidade para que ele trabalhasse nas suas bombas de gasolina. “Começou a ser frequentada por pessoas menos recomendáveis e até fomos assaltados há três anos. Na altura, o Rui foi atrás deles e andou aos tiros nos carros dos ladrões”, refere Mário, que aponta esse momento como o que definiu o corte de relações da família com o homem ontem morto à facada. Corte sublinhado pela PJ que há tempos deteve Rui ‘Bombas’, em cuja casa encontrou várias armas. Aliás, no seu registo criminal, a vítima de ontem já apresentava um ano em prisão efectiva e outro em domiciliária com recurso a pulseira electrónica.
PORMENORES
PRÉDIO DA DISCÓRDIA
Não era apenas o bar Paris que suscitava polémica em Valongo. O prédio onde se encontra o estabelecimento é também tema de discórdia na vizinhança, recebendo críticas de “parecer um hospital” e de “aceitar qualquer um como morador”. Emigrantes em França foram mesmo enganados ao adquirir garagens do mesmo edifício por cerca de quatro mil euros.
COMOÇÃO
Rui ‘Bombas’ não era um homem com muitos simpatizantes em Valongo. Ainda assim, uma vizinha não conseguiu esconder a comoção ao ter conhecimento da notícia. “Era alguém que via todos os dias”, desabafou.
SUSPRESA
Um amigo de Rui ‘Bombas’ aproximou-se do café e perguntou à equipa de reportagem do‘CM’o porquê de estar fechado. Face à resposta, o choque pela notícia foi indisfarçável.
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