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Correio da Manhã

Portugal
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Mortos nas estradas lembrados em todo o País

Sete ontem. Dezasseis hoje. E amanhã, quantos morrerão? No Dia da Memória, assinalado hoje no País com diversas homenagens às vítimas dos acidentes rodoviários, os familiares continuam a interrogar-se com o porquê do elevado número de mortos nas estradas. Desde a Tolerância Zero, passando pelos anúncios televisivos, até ao aumento das coimas, de nada valeram as campanhas para acabar com o flagelo, que só nos primeiros 11 dias de Novembro fez 61 mortos e 107 feridos graves. No total do ano, são já contabilizados 756 mortos, mais 46 que em 2006.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
Nesta estrada perto de Montargil, um desastre fez sete mortos, em Agosto de 2004
Nesta estrada perto de Montargil, um desastre fez sete mortos, em Agosto de 2004 FOTO: Manuel Costelas
“É um problema social que pode ser minimizado se todos contribuírem para melhorar a segurança”, referiu ao CM Filomena Araújo, mãe de um dos sete jovens que morreram em Agosto de 2004 numa colisão em Montargil. António Maximino, perdeu neste acidente o seu único filho. “Pagava 11% de IRS, mas como o agregado familiar diminuiu, com a morte do meu filho, o Governo agravou o imposto para 24,5%”.
Nuno Lopes, que ficou sem pais e sogros numa colisão em Outubro de 2005, em Montemor-o-Novo, queixa-se da Justiça. “Se for apanhado ao telemóvel fico dois meses sem carta. O condutor que matou a minha família apanhou três anos de prisão suspensos e não ficou um dia sem conduzir”.
Na memória está também a colisão que vitimou, no IP4, em Fevereiro de 2005, cinco militares do Regimento de Infantaria de Vila Real, bem como o recente acidente na A23, no qual morreram 16 pessoas da Universidade Sénior de Castelo Branco. “Rebolamos pela encosta. Só pedi a Deus que o autocarro parasse”, recorda Felícia Leitão, 72 anos. Quem sobrevive raramente o consegue esquecer. Paulo Aires viu acabar os sonhos.
VÍTIMAS
1469 Neste novo milénio foi o número mais alto de mortes ocorridas num só ano. Foi em 2002. No ano anterior tinham sido registados menos três mortos, mas mais mil feridos graves.
850 As vítimas mortais em resultado dos acidentes de viação têm vindo a diminuir desde 2003. Nesse ano foram registados 1356 mortos e, nos seguintes, 1135 (2004), 1094 (2005) e 850 (2006).
548 De acordo com os dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, este ano, entre Janeiro e Agosto, morreram nas estradas 548 pessoas e ficaram feridas 2071.
874 Para 2009, o Plano Nacional de Prevenção Rodoviária prevê 874 mortos, a maioria dos quais dentro das localidades (287). Os feridos graves deverão ser cerca de 3800.
PROGRAMA
NORTE
Ateliês, acções de sensibilização, exposições de viaturas sinistradas e de fotografias são algumas das iniciativas que irão decorrer em Aveiro, Viana do Castelo, Porto, Vila Real, Bragança e Braga.
CENTRO
O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, vai estar às 10h30 em Santarém numa homenagem às vitimas das estradas. As iniciativas estendem-se a todas as capitais de distrito do Centro.
SUL
O ministro vai inaugurar às 16h30 a Escola de Trânsito de Lagoa, Faro. Em Beja, Portalegre, Setúbal e Lisboa vão decorrer fóruns e outras actividades. Em Évora, o futebol vai ter um minuto de silêncio.
"TODOS OS AMIGOS SE AFASTARAM" (Paulo Aires, 42 anos, ficou paraplégico há 12)
Correio da Manhã – Recorda-se do acidente?
Paulo Aires – Muito pouco. Foi num domingo, dia 5 de Março de 1995, na antiga N18, perto de Portel. Tinha estado de manhã a arbitrar um jogo de futebol em Faro e lembro-me de almoçar em Beja no restaurante O Árbitro com os auxiliares que acabaram por morrer: o meu irmão Carlos Aires e o meu amigo Carlos Ramalho. Deu-se o despiste com colisão num pontão e estive sete meses em semicoma em Lisboa. Toda a gente pensava que ia morrer.
– Esse dia acabou com o fim do seu sonho?
– Trabalhava como guarda-nocturno da PSP e era árbitro. O acidente pôs fim ao sonho de ser árbitro internacional.
– O que mais o marcou depois do acidente?
– Além de ficar para sempre numa cadeira de rodas e de ficar dependente de outras pessoas, o que mais me entristeceu foi o afastamento de todos os meus amigos. Apenas a minha família [mulher e os dois filhos] e o ex-árbitro José Pratas me dão todo o apoio.
– Quais foram os apoios financeiros que recebeu depois do acidente?
– Ganho 200 euros da Segurança Social e mais 300 do Fundo de Auxílio à Arbitragem, na altura pedido pelo Jorge Coroado.
– Como vive o dia-a-dia?
– Passo o tempo entre casa e o café. Gostava de apitar um jogo de pessoas deficientes.
– Que mensagem deixa para o Dia da Memória?
– Os condutores têm de ter cuidado porque o carro é uma arma.
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