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Correio da Manhã

Portugal
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'MUNDO DO VINHO É COMO O DA MODA'

No primeiro aniversário do filho, António Ventura abriu uma garrafa de ‘Barca Velha’. O líquido caiu com elegância e ele olhou o copo sem pestanejar, agitando-o gentilmente em círculos para apreciar a sua estrutura única. A seguir testou-lhe o aroma. Complexo, uma mistura de madeiras ricas e frutos secos. Finalmente, saboreou o mais famoso tinto português como se cumprisse um ritual.
4 de Janeiro de 2004 às 00:00
“Devemos marcar os melhores momentos da nossa vida com um bom vinho”, sentencia o engenheiro, que há 22 anos se dedica com paixão à enologia.
Segundo António Ventura, há cinco características indispensáveis para exercer a profissão: intuição, ciência, criatividade, experiência e disponibilidade. “É um trabalho extremamente absorvente. Já me aconteceu estar na Austrália e ter de apanhar um avião para Moçambique porque tínhamos lá um projecto e as videiras estavam a dar problemas”, afirma, na Adega Cooperativa de Pombal, onde, em dia de férias, está a acompanhar um engarrafamento.
De todas as qualidades pedidas ao enólogo, há duas que marcam a diferença, acredita o engenheiro. “Sem intuição e espírito criativo nunca será um grande profissional”, explica. “Se tudo correr bem farei 50 vindimas na minha vida. O que procuro todos os anos é fazer várias experiências, que às vezes resultam e outras vezes não. Mas quando resultam é uma alegria”.
António Filipe Lucas Ventura nasceu há 45 anos em Painho, Cadaval, licenciando-se em ciências agrárias em Santarém. Descendente de uma família com tradições na produção de vinho ao longo de gerações, fez a especialização em enologia na Alemanha e uma pós-graduação em vitivinicultura e na Austrália. Hoje trabalha com 25 casas em cinco regiões portuguesas, chegando a envolver-se em três meses de vindima por ano.
A influência do enólogo é exaustiva e pede um estudo aprofundado. É ele que avalia o terreno para a vinha, decide movimentações de terras e drenagens, selecciona o porta-enxerto e as castas, indica o método de plantação e o grau de maturação das uvas, define a madeira e o tempo de estágio, elege o tipo de fermentação e determina o período de maceração, seguindo de perto todo o processo até ao engarrafamento.
A actividade assenta em técnicas aprofundadas, mas qualquer profissional tem consciência das limitações do conhecimento livresco.
“É um trabalho extremamente complexo. Nenhum de nós aprende tudo na universidade, só a experiência é que nos dá algum lastro”, reconhece António Ventura, citando um chavão do meio: “As castas e o ‘terroir’ (composição do terreno, clima e relevo) representam 75 por cento de um bom vinho, os restantes 25 por cento dependem da habilidade do enólogo”.
A evolução mundial do sector, com troca de informação, aperfeiçoamento das espécies e revisão das estratégias permite, todavia, que os ingredientes à disposição para atingir uma colheita de excelência sejam, actualmente, mais e melhores. “É perfeitamente possível plantar a casta ‘cabernet sauvignon’ em Portugal e ter melhor vinho do que em Bordéus (de onde é originária)”, exemplifica António Ventura.
Para o enólogo do Cadaval, a viver na Nazaré, a vocação despertou em 1981, no estágio com Octávio Pato na Cooperativa da Vermelha. Hoje, o prazer de comentar cada garrafa com amigos é superior a bebê-la sozinho. E a necessidade de estar actualizado cada vez maior. “O mundo do vinho é como o da moda, as tendências mudam todos os anos”.
MAIS QUALIDADE PORTUGUESA
“Conseguimos ser competitivos e estamos nos grandes mercados internacionais”, diz António Ventura sobre a criação vitivinícola portuguesa, sublinhando que têm aparecido “menções excelentes” provenientes de especialistas em todo o mundo. “A qualidade dos vinhos portugueses tem subido muito”, assegura o engenheiro, que tem a sua própria lista de preferências dentro de fronteiras. “O Douro e o Alentejo estão afirmados, a Estremadura tem um potencial enorme”, afirma. À maior parte das empresas nacionais falta dimensão e agressividade para expandir a presença no estrangeiro. Cá dentro, contudo, a evolução tem sido favorável. “Há hoje em Portugal uma cultura do vinho muito maior”, elogia António Ventura.
B.I.
A existência da Associação Portuguesa de Enologia, da Associação de Laboratórios de Enologia e da Socieda-de Portuguesa de Viticul-tura e Enologia prova que Portugal aprecia um bom vinho. Os enólogos já são largas dezenas e cada vez mais com estudos superio-res. O Dia Nacional do Enólogo é 11 de Novembro.
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