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Correio da Manhã

Portugal
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Museus sem professores

Os professores com horário zero não aceitaram a sugestão do Governo para mudarem das escolas para os museus e institutos do Ministério da Cultura. Dos cerca de três mil com condições para concorrer, foram muito poucos os que o fizeram.
31 de Dezembro de 2005 às 00:00
O prazo para a entrega de candidaturas para o preenchimento das 216 vagas terminou ontem e, segundo museus contactados pelo CM, das centenas de candidaturas recebidas, as válidas não deverão chegar para preencher os lugares.
É o caso do Museu dos Biscaínhos (Braga), que solicitou um professor. Das 20 candidaturas, só uma é válida. “A pessoa não tem o currículo necessário, formação em História da Arte e alguma experiência”, explica o director José Costa Reis. Por isso, o museu bracarense já arranjou solução. “Temos uma voluntária para o próximo ano lectivo.”
ERROS ORTOGRÁFICOS
A maior parte das candidaturas foi enviada por professores contratados ou não colocados – sem hipóteses de entrada, pois a afectação apenas poderia ser feita a professores dos quadros e sem componente lectiva atribuída. De tudo apareceu nos gabinetes dos directores: currículos mal elaborados, outros não assinados e muitos com erros ortográficos ou com auto-elogios. “Devia-se aprender a fazer currículos na escola e a saber interpretar as regras”, resume o director de um museu.
O Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa) pediu um professor. Recebeu 37 candidaturas. “Não basta habilitações profissionais, é preciso conhecer o meio, com experiência no teatro”, refere Fernanda Carvalho, secretária-geral. O projecto educativo, que está a arrancar, não ficará parado. “Mesmo que nenhum dos candidatos fique, recrutaremos alguém com preparação pedagógica.”
O perfil do concurso eliminou centenas de interessados. É o caso de Ana Isabel Falé, professora do 3.º Ciclo em Portalegre. “Gosto muito de ensinar, mas queria trabalhar em animação numa biblioteca ou num centro de recursos”, refere a professora de 48 anos. Natural de Sintra, mudar-se para os serviços do Ministério da Cultura (MC) seria uma forma de aproximação de casa e da família. “Mas, mesmo que pudesse concorrer, quem me diz que o Ministério não rescindiria os contratos ao fim de dois ou três anos?”
NÚMEROS FINAIS
No total, segundo os dados recolhidos pelo CM, terão dado entrada mais de mil candidaturas. A tutela agendou a revelação dos números definitivos daqui a alguns dias.
GOVERNO NÃO ASSUME FIASCO
Só durante a próxima semana é que o Ministério da Cultura fará a recolha e análise sistematizada da informação relativa às candidaturas apresentadas. Ainda não há dados definitivos, mas os números apurados pelo CM apontam para o falhanço da medida.
O Governo não encara a situação da mesma forma. “O nível de adesão, a confirmar-se, pode ser fruto de as pessoas estarem mais interessadas em ver como é que os mecanismos de mobilidade da Função Pública se desenvolvem, antes de actuarem”, refere fonte governamental.
O inistério da Educação está disponível para um alargamento dos prazos, “ajustando as condições da candidatura.” A mesma fonte ressalva que qualquer alteração será sempre numa óptica de “mobilidade dentro da Função Pública”, ou seja, mesmo que os perfis exigidos sejam alargados, não está prevista a criação de novos empregos. M tentou obter uma reacção do Ministério da Cultura, mas não foi possível o contacto durante o dia de ontem.
"HÁ O RECEIO DE PERDER CERTOS DIREITOS" (João Dias da Silva, secretário-geral da FNE e presidente da UGT)
Correio da Manhã – Por que é que os professores com horário zero não concorreram?
João Dias da Silva – Muitos não se sentiram atraídos pela medida. É uma primeira experiência e alguns potencialmente interessados vão esperar para ver como é que corre.
– Que receios têm os docentes?
– Há o receio de perder certos direitos, de perder o lugar na actividade docente, embora a legislação não o permita. Mas, diz a experiência, o que é lei hoje, amanhã pode ser alterado.
– Não há vontade de trocar um horário zero por actividades em museus?
– Os professores que não têm componente lectiva atribuída têm de desenvolver actividades de ordem educativa nas escolas, como as aulas de recuperação. Não ficam em casa a receber o ordenado.
– Considera que um perfil mais alargado, que permita a contratação de professores não colocados, seria o ideal?
– Neste momento, é mais forte a via da precariedade que a via do rejuvenescimento de quadros. As mudanças na Função Pública não o permitiriam.
NÚMEROSA
83 CANDIDATOS
O Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo foi a instituição que mais vagas abriu (36), tendo recebido 83 candidaturas. A Academia Nacional de Belas Artes teve 65 candidatos, o Panteão Nacional 32, o Museu dos Coches 39 e o Museu Grão Vasco (situado em Viseu) 35.
30 VÁLIDAS NO PORTO
A Fundação de Serralves (Porto), que pediu oito professores, tem cerca de 30 candidaturas consideradas válidas, de acordo com o assessor de comunicação da Fundação.
CINCO PARA TOMAR
O Convento de Cristo (Tomar) recebeu cerca de 25 currículos. No entanto, apenas estão marcadas cinco entrevistas. As quatro vagas por ocupar destinam-se ao apoio às escolas, realização de ateliês e visitas guiadas.
TELEFONE ENGANA
O edital com as vagas disponibilizadas pelas instituições continha erros ortográficos e um erro de facto: o telefone da Academia Nacional de Belas-Artes estava errado – do outro lado atendiam da Academia Portuguesa de História.
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