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Correio da Manhã

Portugal
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Namorados em fuga

Na casa de Vanessa Coelho, em Paderne, mora a tristeza. A adolescente, de 15 anos de idade, fugiu com o namorado, de 16 anos, para parte incerta. “Eu volto um dia destes, não te preocupes”, foram as palavras de despedida deixadas num bilhete enfiado numa gaveta da cómoda do quarto.
5 de Janeiro de 2008 às 00:00
Vanessa foi vista e reconhecida pela última vez no café da estação de comboios de Ferreiras, anteontem à tarde. Comprou duas bifanas e disse que estava com muita pressa. A mãe e o padrasto apuraram junto da bilheteira da estação que ninguém nesse dia comprou dois bilhetes com destino a Espanha. “Não sabemos se foi para Lisboa ou para o Porto”, especula o padrasto, Luís Silva. Vanessa não tem família em Lisboa, mas o namorado tem no Alentejo.
Nessa manhã, numa grande superfície em Ferreiras, Vanessa levantou 400 euros de uma máquina ATM com o cartão multibanco que costuma estar na posse da mãe. A adolescente levou consigo mais 200 euros em dinheiro e um computador portátil. O namorado, Francisco Barão, terá fugido com 400 euros, segundo terá dito o pai dele no posto da GNR de Paderne.
Vanessa não deixou pistas, apenas um bilhete. Ao jantar de quarta-feira até se ofereceu para fazer os cafés para a mãe e para o padrasto. A mãe, Sílvia Silva, recorda agora que durante a noite Vanessa estava sempre acordada. Sílvia levantou-se diversas vezes para dar assistência à filha mais nova, Sofia, de 5 anos, que estava mal-disposta. “Ela (Vanessa) estava sempre acordada e até vomitou”, recorda a mãe.
No dia seguinte, quinta-feira, Vanessa saiu para a escola mais cedo do que a hora habitual (08h00). “Disse que tinha de fazer um trabalho. Deu um beijinho à irmã e saiu”. As palavras de Sílvia saem espaçadas pelo choro. Não vê a filha desde essa altura e esbarra sempre num telemóvel desligado, onde toda a família já deixou mensagens. “Só quero o teu bem. Perdoamos mas volta, que eu tento fazer tudo diferente”, desabafou a mãe.
Sílvia e Luís e os pais de Francisco reportaram o desaparecimento à GNR, que ontem emitiu um alerta nacional e também para o sistema do espaço comunitário Schengen.
"NÃO SIRVO PARA NADA"
A mãe e o padrasto de Vanessa garantem que nunca lhe bateram e que apenas havia “zangas normais domésticas”. Mas à avó Isaura, Vanessa já tinha dito que se queria ir embora aos 18 anos e no bilhete de despedida, dirigido à mãe, queixa-se de falta de afecto. “Nunca te vi dar-me um carinho de livre e espontânea vontade (...) Gostava que em vez de me teres castigado tantas vezes pensasses no porquê de eu fazer o que fazia”. E lamenta: “Para ti eu não sirvo para nada, não sei fazer nada bem, só sirvo para chatear”. Reconhece que a mãe lhe dava “tudo o que é material”, mas sublinha a falta de “um simples carinho”. Vanessa diz que pensou muito bem na sua decisão e pede que não a procurem. “Eu vou voltar”, promete. Conclui: “Vou ter muitas saudades”.
PORMENORES
ROUPAS
Vanessa vestia calças de ganga, uma blusa azul e um casaco cor-de rosa. Levou mais roupa das gavetas. A mãe quis ir buscá-la à escola ao final da tarde, mas o telemóvel já estava desligado.
ORFÃ DE PAI
Vanessa perdeu o pai aos quatro anos, num acidente de moto. Familiares temem que a jovem esconda revolta, mas não se reflecte na escola, onde é boa aluna.
NAMORO
Vanessa e Francisco namoram há dois anos. Ele abandonou a escola mas vai lá todos os dias para ver a namorada. Francisco não é visita da casa de Vanessa.
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