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Correio da Manhã

Portugal
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NÃO HAVIA CONTABILIDADE ANTERIOR A 1994

João Casimiro, ex-presidente dos bombeiros de Salvaterra de Magos, denunciou irregularidades na gestão da corporação. Resultou no caso ‘Sirene Oculta’
27 de Maio de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Foi eleito em 2002 concorrendo contra os, agora, detidos no âmbito da operação ‘sirene oculta’. Ganha as eleições por um voto. A sua vitória não é bem aceite...
João Casimiro – Sim, interpuseram uma providência cautelar no tribunal de Benavente alegando irregularidades num acto que eles próprios tinham organizado.
– Ganha essa providência e, já na direcção, nota que algo não está bem.
– Nós estranhámos a providência cautelar por parte do Comandante Carlos Leonel [um dos detidos], que nem teve a dignidade de aparecer no tribunal aquando o julgamento, e detectámos irregularidades com o decorrer da nossa direcção.
– Que irregularidades?
– Tinha desaparecido toda a contabilidade anterior a 1994 [Gameiro dos Santos, outro dos detidos, foi presidente da associação de 1980 até esse ano]. A direcção de 1995 [em que Carlos Leonel era também tesoureiro] nada tinha feito em relação a isso. Detectámos junto do SNB que há dez anos que não eram passados mapas de combustíveis.
– O que decidiu fazer?
– Fiz um relato de tudo e, com os restantes corpos sociais, decidimos que deveríamos comunicar às autoridades aquilo que encontrámos. Depois apresentámos junto ao Ministério Público as ilegalidades detectadas.
– Já as tinha comunicado a Carlos Leonel, comandante há 22 anos?
– O comandante foi confrontado com algumas dessas situações e, através dos meios de comunicação social locais, empenhou-se sempre em nos desmentir e arranjar desculpas esfarrapadas. Depois, refugiou-se em baixa médica até à realização de novas eleições, as quais perdemos.
– Quando Carlos Marques ganhou as eleições, pô-lo a par da situação?
– Ele convidou-me para jantar e dei-lhe a conhecer o que tinha encontrado e relatado às autoridades. O senhor Carlos Marques decidiu ignorar e tornou-se conivente com a situação.
– Paralelamente a este processo, há uma inspecção a decorrer por parte do SNBPC. Os problemas de operacionalidade foram detectados por si?
– A inspecção do SNBPC é recente e tem origem em relatos que chegaram à presidente de câmara através de bombeiros. Estranho o facto do senhor comandante ter aparecido na imprensa local a dizer que estava na posse das cartas que a presidente tinha enviado para o coordenador distrital, presidente do SNB e sub-governador civil. Como é possível?
– Há uma tentativa de misturar os dois processos?
– Exactamente. A câmara não tem nada a ver com o processo judicial. As declarações de Joaquim Antão [ex-presidente dos bombeiros e outro dos detidos], à saída do tribunal, dizendo que existem ligações perigosas entre o coordenador da investigação e a câmara apenas pretendem intimidar as autoridades. Há quem não perceba que há uma nova geração de magistrados e de investigadores que não cedem a pressões, venham de onde vierem.
PERFIL
João Casimiro, 55 anos, empresário, sublinha não ter filação partidária. Foi presidente da Associação dos Bombeiros de Salvaterra de Magos em 2002. Cinco anos antes tentou concorrer, mas em vão. Foi motivado pelo facto de “serem sempre os mesmos nos mesmos lugares”. Esteve na génese da investigação que, domingo, levou à detenção de Carlos Leonel (comandante), Gameiro dos Santos e Joaquim Antão (ambos ex-presidentes) por suspeita de desvio de verbas da corporação.
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