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Correio da Manhã

Portugal

Não sou culpado, não vou sair condenado

Valentim Loureiro, ex-Presidente da Liga de Clubes, concedeu ontem a primeira grande entrevista depois de saber que vai a julgamento no processo de Gondomar, acusado de 27 crimes. “O juiz baseia-se em factos e depois também faz um bocadinho de literatura”, afirmou o Major, que não põe a hipótese de ser condenado.
23 de Março de 2007 às 00:00
Judite de Sousa – Confirma a notícia do ‘CM’ segundo a qual foi o senhor quem perseguiu o procurador Carlos Teixeira?
Valentim Loureiro – Eu já respondi que é mentira. Nunca persegui ninguém.
Carlos Teixeira não confirma nem desmente.
– O meu advogado está a apreciar esse assunto. Acho que não há ninguém que não ache isso esquisito. É uma coisa sem pés nem cabeça.
– Alguma vez imaginou ser o primeiro dirigente do futebol português a ser julgado?
– Infelizmente para outros e não para mim, acho que essa questão está desfasada do que se passa no futebol português e até mundial. Acho que há dirigentes que até já estiveram presos e outros que vão responder em tribunal.
– O tribunal considerou que tinha facilitado a integração de Pinto de Sousa na comitiva do primeiro-ministro.
– Pela primeira vez vi esse argumento quando recebi a acusação. Eu não cometi crimes nenhuns. Nessa viagem a Moçambique os convidados pessoais do senhor primeiro-ministro eram 17. A Judite acha que eu ia dizer ‘leve lá esse senhor que é porreiro’?
– O juiz considerou que a carta de Durão Barroso não era esclarecedora.
– O senhor juiz baseia-se em factos e depois também faz um bocadinho de literatura.
– O livro de Carolina Salgado fala de si.
– A D. Carolina Salgado, que eu conheci enquanto companheira do senhor Pinto da Costa, é uma pessoa simpática. Eram um casal amoroso. As minhas relações com esse casal foram sempre institucionais. Eu tinha uma excelente relação com a senhora. Ela pôs lá no livro que o senhor Pinto da Costa me pediu para intervir na Liga e que eu fiz isso para lhe agradecer o apoio que me deu nas eleições. Ele não me apoiou, começa logo aí a não ser verdade. Eu não percebo. Ela não tem razão nenhuma, nem é verdade o que ela disse ao senhor juiz que eu, o Pinto da Costa e o Pinto de Sousa nos encontrávamos.
– Como é que está a sua relação com Pinto da Costa?
– Normal. Nós sempre fomos amigos. Lamento tudo aquilo que lhe está a acontecer.
– Já disse que não está à espera de ser condenado. Está à espera de novas acusações?
– No fim deste processo, naturalmente que vou sair dele com normalidade. Não vou ser culpado, não vou sair condenado.
– Vai recandidatar-se à Câmara de Gondomar?
– Era capaz de lhe devolver a pergunta. Vai continuar como primeira-dama de Sintra? Acha que é altura de fazer essa pergunta? Não sei, neste momento, se me vou recandidatar.
"VÃO FICAR DE BOCA ABERTA"
O major Valentim Loureiro garantiu ontem ao ‘CM’, minutos antes do início da entrevista na RTP 1, que iria fazer revelações com as quais os portugueses ficariam de “boca aberta”. O Major entende que as pessoas possuem uma ideia pouco esclarecida sobre si e por isso aceitou ser entrevistado a fim de que as “pessoas possam fazer o seu julgamento”.
Valentim Loureiro chegou aos estúdios da RTP bem-disposto num Volvo S80 cinzento ao lado do motorista. À entrada do edifício, em Lisboa, após sair do carro e surpreendido com a presença de repórteres fotográficos, afirmou: “Olha tantos retratos.” Depois, bastante conversador, mas sempre recusando falar sobre o processo pelo qual vai a julgamento, aceitou beber um café e comentar a viagem de Gondomar a Lisboa: “Prefiro o carro ao avião e comboio, vamos lá ver com a alta velocidade”.
"SOU HOMEM DE PALAVRA"
“Estou aqui para cumprir uma promessa porque sou um homem de palavra”, disse o major Valentim Loureiro antes da entrevista com Judite de Sousa na RTP 1. O Major explicou ter garantido à jornalista que, caso fosse a julgamento, depois de levantado o segredo de justiça acederia a dar-lhe uma entrevista. Valentim defende que esta foi a primeira grande entrevista que concedeu depois de ser envolvido no escândalo do ‘Apito Dourado’.
O juiz Pedro Miguel Vieira decidiu que o Major será julgado por 27 crimes (26 de corrupção e um de prevaricação) no âmbito de um esquema de alegado favorecimento do Gondomar Sport Clube a que foram associados mais 23 arguidos. Enquanto permaneceu na RTP, Valentim Loureiro manteve sempre junto de si uma mala que confessou “possui documentos ligados ao processo”.
PERFIL
Valentim Loureiro nasceu a 24 de Dezembro de 1938, em Calde (Viseu). Estudou no curso Superior de Administração Militar. Em 1968 entrou para a direcção do Boavista, sendo presidente entre 1978 e 1980. Voltou a ser eleito em 1982 (saiu em 1997). Presidente da Liga de Futebol entre 1989 e 1994, foi de novo eleito em 1996. É presidente da Câmara de Gondomar desde 1993.
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