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Correio da Manhã

Portugal
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Nascida na auto-estrada

Uma menina nasceu numa ambulância estacionada na A14, quando a mãe era transportada da Figueira da Foz para uma maternidade de Coimbra. É o quinto caso de um bebé nascido num contexto extra-hospitalar desde que encerrou o bloco de partos figueirense, há menos de sete meses.
23 de Maio de 2007 às 00:00
Aldina Figueiredo deu à luz na auto-estrada e mostra-se indignada com o encerramento do bloco de partos da Figueira da Foz
Aldina Figueiredo deu à luz na auto-estrada e mostra-se indignada com o encerramento do bloco de partos da Figueira da Foz FOTO: Raul Cardoso
Aldina Figueiredo, de 27 anos, grávida pela segunda vez, acordou a pensar que ia ter um dia normal e nada faria prever que o bebé se aprestava para nascer. Mas, depois do almoço, começou a sentir pontadas que, com o passar das horas, começaram a ser mais frequentes.
“Às 14h00 de quarta-feira (dia 16) não aguentei mais e estive para chamar um táxi”, contou ontem Aldina Figueiredo, adiantando que as dores apertaram e, pouco depois, telefonou para o 112, que a remeteu para o núcleo de Maiorca da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP).
Ao seu encontro, na povoação de Queridas, freguesia de Ferreira-a-Nova, deslocaram-se elementos da CVP e do INEM. Entretanto, rebentaram as águas à parturiente, que começou a ter mais dores, razão pela qual a médica de serviço decidiu transportá-la para uma maternidade de Coimbra. “Parámos umas duas ou três vezes pelo caminho. As dores eram tantas e estávamos a ver que a criança queria mesmo nascer que foi decidido encostar a ambulância... e tudo aconteceu ali mesmo na auto-estrada”, explica a mãe.
O parto foi feito ao quilómetro 33 da A14, numa ambulância da Cruz Vermelha, próximo dos locais onde aconteceram outros dois, em Março último. No exterior da viatura, assistia o pai, Vítor, de 40 anos, “com muito nervosismo”, segundo contou ao CM.
A menina – Micaela –, que tem um irmão de oito anos, nasceu às 15h15 sem complicações, com 4,05 quilos. De seguida, o pai, a mãe e a bebé foram encaminhados para a maternidade Daniel de Matos, em Coimbra.
Aldina Figueiredo já está em casa, em recuperação do parto, e indignada com o encerramento da maternidade da Figueira da Foz: “O meu filho Nuno nasceu aqui, na Figueira. Fui muito bem tratada, as pessoas são mais simpáticas do que em Coimbra, talvez por nos conhecerem”.
“Não percebo o que esta gente tem na cabeça. Se fossem eles, os que decidem, a ter filhos, se calhar pensavam duas vezes. Não fazem a mínima ideia do medo que nos toma de que algo corra mal”, refere a mãe, adiantando: “Por acaso, até correu bem, foi um parto normal. Mas e se não tivesse sido, se houvesse problemas?”. Para Aldina Figueiredo, as provas são bem evidentes. “Precisamos da maternidade aberta. O Governo tem de mudar de opinião”.
O Movimento Cívico Nascer na Figueira é da mesma opinião e ontem voltou a reafirmar a sua posição contra o encerramento do bloco de partos. “Vamos continuar a lutar pelo futuro das crianças e da mulher grávida. Acreditamos no bom senso e na Justiça”, afirma Silvina Queiroz, porta-voz do movimento, que se reuniu com o presidente da Câmara, Duarte Silva (PSD, e a vereadora, Teresa Machado.
Para 1 de Junho, Dia da Criança, está prevista uma vigília à porta do Hospital Distrital da Figueira da Foz, pelas 20h00, com a realização de várias actividades de entretenimento e depoimentos de mulheres que tiveram os seus filhos fora das unidades de Saúde.
SÓ UM NASCIA NO BLOCO
A Inspecção-Geral de Saúde concluiu, num processo de averiguações aos três anteriores nascimentos em ambiente extra-hospitalar no concelho da Figueira da Foz, que apenas um deles poderia ter ocorrido no bloco de partos figueirense, se não tivesse sido encerrado em Novembro de 2006. Trata-se do segundo nascimento, registado a 21 de Março, porque a mãe demoraria apenas 15 minutos a chegar. No entanto, segundo os inspectores, o seu excesso de confiança fez com que não fosse mais cedo para a Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra, e levou a que o parto ocorresse na A17. Nos outros dois casos, conclui a Inspecção, a responsabilidade pelo sucedido é atribuível às mães, por falta de acompanhamento das gravidezes, ou mesmo de vigilância pré-natal, no caso do bebé que nasceu numa garagem de um prédio.
SAIBA MAIS
109 457 crianças nasceram no nosso país em 2005. Ou seja, mais 101 bebés do que em 2004, mas longe dos 116 383 nascidos em 1990, segundo dados do INE.
47 000 nascimentos por ano é o défice que Portugal regista para uma normal renovação de gerações. Houve menos 900 mil partos nos últimos 20 anos.
GARAGEM
Um menino nasceu no dia 29 de Março na garagem de um prédio, em Buarcos. A mãe, de 26 anos, estava a fazer limpezas.
AMBULÊNCIA
A 21 de Março, ao km 23,8 da A14, numa ambulância dos Bombeiros Voluntários da Figueira, nasceu um menino.
NO CAMINHO
Uma menina nasceu ao km 17 da A14, a 8 de Março. Pouco depois de ter encerrado o bloco de partos figueirense, outro bebé nasceu já nas instalações da Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra.
PARTO EM AMBULÂNCIA
A bebé Micaela nasceu no km 33 da A14 – que liga Figueira da Foz a Coimbra – dentro de uma ambulância do núcleo de Maiorca da Cruz Vermelha Portuguesa.
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