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Correio da Manhã

Portugal
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NUNCA MAIS À MARÉ NEGRA

Bomba-relógio. A expressão tem sido utilizada em referência às 37 mil toneladas de fuelóleo que repousam nos tanques do petroleiro ‘Prestige’, afundado a 160 quilómetros do Cabo Finisterra há pouco mais de cem dias. Sob o ‘slogan’ “Nunca Mais”, uma multidão saiu ontem às ruas de Madrid para reclamar o apuramento de responsabilidades em relação ao desastre.
24 de Fevereiro de 2003 às 01:57
Centenas de milhar de pessoas manifestaram-se em Madrid, para que o governo espanhol assuma a responsabilidade do desastre do Prestige
Centenas de milhar de pessoas manifestaram-se em Madrid, para que o governo espanhol assuma a responsabilidade do desastre do Prestige FOTO: Chema Moya (Epa)
As cidades de Paris, Bruxelas e Lisboa associaram-se à demonstração. Em Lisboa o momento serviu para lembrar que o perigo ainda não é passado. Segundo o Instituto de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, novas manchas de crude podem dar à costa em Março, devido à deslocação de ventos característica deste mês.

Com apenas um casco, logo mais vulnerável a intempéries e abalroamentos e especialmente desaconselhado ao transporte de fuel, o navio encontra-se, partido em dois, a 3500 metros de profundidade. Transportava 77 mil toneladas de fuel e derramou 40 mil ao largo da Galiza, causando a maior maré negra de que há memória na Espanha. Após ordem das autoridades espanholas para que se afastasse da costa, o ‘Prestige’ afundou-se com 37 mil toneladas a bordo.

DUAS TONELADAS POR DIA

Ao mesmo tempo que exige que o Governo espanhol assuma a responsabilidade pelo desastre, a plataforma “Nunca Mais”, organizadora da iniciativa, reclama “a apresentação de uma solução definitiva para os milhares de toneladas de fuel que continuam dentro dos tanques da embarcação” e se prevê serem libertados e poderem atingir ainda as zonas litorais de Portugal, França e Espanha. Esta hipótese já foi avançada por especialistas portugueses.

Os tanques do ‘Prestige’ sofreram uma vintena de fissuras, a maior parte das quais reparada pelo batíscafo francês Nautille. Dados oficiais indicam, contudo, que continuam a ser derramadas duas toneladas de fuelóleo por dia. Segundo alertou, em Janeiro, o Instituto de Oceanografia, parte pode chegar à costa portuguesa já no próximo mês de Março.

“Vai verificar-se, em princípio, uma mudança de regime dos ventos e das correntes por volta de Fevereiro/Março e prevê-se que, especialmente em Março, os ventos dominem de quadrante Norte, empurrando as águas para Sul”, explicou então a oceanógrafa física Isabel Ambar.

À ESPERA DE SOLUÇÕES

O Governo espanhol já aprovou um projecto – apresentado por uma Comissão Científica criada um mês depois do desastre – para extrair o fuel dos tanques, o qual consiste num sistema de bombagem. A proposta, de execução avaliada em 230 milhões de euros, está em estudo, mas como não existe tecnologia experimentada para um caso destes, admite-se que seja posta de parte.

Outra medida para inutilizar o que alguns especialistas consideram ser uma bomba-relógio no fundo do mar é a construção de uma espécie de sarcófago, de metal ou cimento, à volta do casco do petroleiro.

Ainda sem saber que destino dar ao fuel no fundo do mar, os chefes políticos tentam minorar os prejuízos dos que foram mais afectados pela catástrofe , cujo impacto ambiental é irremediável a curto prazo. O presidente francês, Jacques Chirac, prometeu ontem solicitar à Comissão Europeia que ajude os pescadores e marisqueiros prejudicados pela maré negra, comprometendo-se a “intervir firmemente” junto da Comissão Europeia.

Ontem, em Madrid, Paris, Bruxelas e Lisboa, os manifestantes exigiram ainda que petroleiros velhos como o ‘Prestige’ – ditos navios-sucata –, com bandeiras de conveniência, sejam erradicados dos mares.

BARQUINHOS DE PAPEL EM LISBOA

Os barquinhos de papel junto ao Consulado de Espanha, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, evocavam a fragilidade dos navios de casco simples que atravessam os mares carregados de fuelóleo, como o ‘Prestige’.

Os barquinhos tinham sido feitos por cerca de 80 manifestantes, que gritavam palavras de ordem, em português e em galego, contra o governo de José Maria Aznar, cuja figura surgiu em cartazes riscados a negro, como se atingidos por petróleo.

“Se querem petróleo, vão buscá-lo à Galiza.” A sugestão irónica podia ler-se numa das faixas erguida pelos manifestantes, entre os quais se contava Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda. Apesar dos “pequenos passos” já dados - nomeadamente o acordo sobre as regras de segurança marítima entre Portugal, Espanha e França -, Louçã apontou a necessidade de implementar outras medidas, referindo-se à interdição dos navios de casco simples, à criação de canais de navegação seguros e ao fim da “pirataria internacional das bandeiras de conveniência”. Em “t-shirts” e cartazes lia-se a espécie de juramento solene que dá nome a este movimento – “Nunca Mais”.

RISCO DOS MARES

6 MIL PETROLEIROS

Seis mil petroleiros sulcam os mares todos os dias, alguns em péssimas condições de navegação, e a costa ibérica está entre as principais rotas para o transporte de fuel, alerta o Fundo para a Protecção da Vida Selvagem (WWF)/Adena.

AVES DOENTES

Cerca de um milhar de aves marinhas foi recolhida no Litoral português desde o dia 19 de Novembro, data do afundamento do petroleiro ‘Prestige’. A pulmagem das aves apresentava, na maior parte dos casos, sinais de contaminação por hidrocarbonetos.
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