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Correio da Manhã

Portugal
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O caminho para a cura

Uma equipa de cientistas espanhóis anunciou recentemente que um doente com cancro do fígado em fase terminal foi curado graças ao fortalecimento do seu sistema imunitário, resultado final de uma investigação de mais de dez anos. Um trabalho que causou grande polémica no seio da comunidade científica, mas que promete continuar a dar que falar.
24 de Julho de 2005 às 00:00
Instituto de Tecnologia Química, em Lisboa: cientistas procuram encontrar forma de travar o cancro
Instituto de Tecnologia Química, em Lisboa: cientistas procuram encontrar forma de travar o cancro FOTO: Pedro Catarino
Antonio Brú, físico da Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madrid, garante que um homem de 56 anos, a quem os médicos não davam mais de dois meses de vida, recuperou após um tratamento destinado a aumentar a produção de um tipo de células que defendem o sistema imunitário. Contactado pelo CM, Brú revelou que ainda não existe um protocolo de tratamento a aplicar aos doentes. No entanto, diz que vai continuar o trabalho e tentar confirmar “os bons resultados obtidos, para que possam ser aplicados a todas as pessoas que necessitam”.
Como Brú, milhares de cientistas em todo o Mundo desenvolvem diferentes frentes de batalha contra um agressor comum: o cancro. Multiplicam-se as possibilidades terapêuticas, que caminham cada vez mais para tratamentos feitos à medida, individualizados, dirigidos para as características específicas dos doentes e dos tumores, poupando as células saudáveis. “Estamos no bom caminho. Acredito que, na próxima década, vamos assistir ao surgimento de muitas terapias deste género”, afirma Sérgio Dias, coordenador do Centro de Investigação em Patologia Molecular do Instituto Português de Oncologia de Lisboa.
MEDICAMENTOS DO FUTURO
Perceber os mecanismos que permitem o crescimento dos tumores tem sido uma área importante na investigação em oncologia. E, de acordo com os especialistas, parece claro que é através da rede de vasos sanguíneos que o tumor obtém o oxigénio e os nutrientes para crescer e espalhar-se. Separar o cancro dos vasos que o ‘alimentam’ parece ser, pois, um caminho a seguir para o derrotar e a promessa de matar o tumor à fome adquiriu forma. Faltavam apenas os medicamentos capazes de o impedir. Hoje, eles estão aí.
Ao todo, cerca de mil laboratórios em todo o Mundo dedicam-se ao estudo do mecanismo que permite ao tumor criar os vasos sanguíneos – angiogénese – para o alimentar e mais de 300 empresas biofarmacêuticas estão a desenvolver drogas e tecnologias para controlar este processo. Um trabalho que promete continuar. E o objectivo último é, explica Sérgio Dias, “tornar o cancro uma doença crónica, um pouco como a diabetes ou a artrite. Se não deixarmos que os novos vasos sanguíneos se formem, vamos limitar o crescimento dos tumores, permitindo que as pessoas vivam controladas durante muitos anos”.
A estas ferramentas juntam-se outras, que usam o sistema imunológico para produzir anticorpos dirigidos contra proteínas que se encontram na superfície das células dos tumores. “E pela administração destes anticorpos conseguimos criar uma espécie de imunidade contra as células. É quase como uma vacina”, refere o especialista.
NOVA CLASSE
BEVACIZUMAB
Foi um dos últimos a chegar - está autorizado entre nós desde Janeiro – mas muitos dos doentes com cancro do cólon avançado podem beneficiar do uso deste anticorpo monoclonal que impede o crescimento dos vasos sanguíneos – impossibilitando os tumores de crescer. Os ensaios clínicos demonstraram que aumenta em 30 por cento a sobrevivência quando combinado com a quimioterapia e que os doentes ganham entre cinco meses a um ano e meio mais de vida.
CETUXIMAB
Está autorizado desde 2004 no mercado português para o tratamento de doentes com cancro do cólon metastizado que não responderam à quimioterapia. Estudos recentes revelam que, combinada com a quimioterapia, pode reduzir o tamanho do tumor em 21 por cento dos doentes, permitindo tentar uma cirurgia potencialmente curativa.
IMATINIB
Antes da sua introdução, em 2001, a esperança de vida das pessoas com leucemia mielóide crónica era pequena. Graças ao seu uso, aumentou em 18 meses para cerca de 90 por cento de todos os doentes afectados.
TRASTUZUMAB
É o membro mais antigo da nova família de fármacos antitumorais (chegou em 2000) que promete dar uma nova esperança aos doentes. Começou a aplicar-se em doentes com cancro da mama e o seu uso aumentou em 25 por cento a taxa de sobrevivênciamédia.
BORTEZOMIB
Destinado a tratar as recaídas do mieloma múltiplo, um tumor sanguíneo, este medicamento encontra-se disponível em Portugal desde 2004.
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