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Correio da Manhã

Portugal
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O GRAFFITI É MESMO UMA ARTE

A distância não impediu Mariana Vaz de ir ao Seixal neste fim-de-semana. Apesar de morar no Porto, esta ‘painter’ de 18 anos não quis deixar de marcar presença na segunda edição do 'Seixal Graffiti'. É que apesar de ter começado nesta arte há cerca de ano e meio, “por gostar de hip-hop”, hoje já pinta paredes “pelo gosto”.
20 de Outubro de 2002 às 00:02
E nem mesmo o facto de ser uma das poucas mulheres presentes, num ambiente claramente dominado por homens, impediu esta futura designer de passar para a parede o projecto que teve de apresentar para poder entrar na iniciativa.

“É a primeira vez que aqui venho, mas já estive noutras iniciativas. E para poder entrar neste festival tive de apresentar um projecto à câmara do Seixal”, contou a jovem, ao mesmo tempo que se mantinha concentrada a colorir um estranho entrelaçado de formas.

A forte adesão a esta iniciativa foi, de facto, um dos pontos referidos por elementos ligados à organização. ‘Painter’ há cerca de seis anos, Sérgio Branco, um dos responsáveis pelo evento, disse ao nosso jornal que a explicação para esta realidade poderá residir no facto de “o graffiti estar na moda há cerca de dois anos”. “Esta iniciativa superou todas as expectativas e para além de terem sido admitidos quarenta ‘painters’, tivemos de estender a área ‘pintável’ do muro, que este ano é de quase um quilómetro”, salientou.

Para a divulgação do evento foram utilizados, segundo o nosso jornal apurou no local, todos os meios possíveis. “A comunidade do ‘graffiti’ é fechada, normalmente desloca- -se aos mesmos locais e lê a mesma literatura. Por isso, a iniciativa foi anunciada em revistas da especialidade”, revelou um dos participantes.

E a ausência de custos na aquisição do material ajudou a atrair ainda mais apaixonados. “Apesar de terem estabilizado, os custos desta actividade ainda são elevados”, referiu Luís Paulino, ‘painter’ da Arrentela.

No entanto, não obstante a forte adesão ao projecto, a actividade dos ‘graffiters’ continua a ser dominada pelo “ambiente de clandestinidade normalmente associado a esta arte”. A opinião é de um dos muitos ‘painters’ que se deslocou ao Seixal para expressar a sua arte, para quem o ‘bombing’, – acto de pintar todo o tipo de património público, à noite, longe dos olhares das autoridades policiais –, “é mesmo para manter por muito tempo”.

TRADIÇÃO QUE REMONTA À ROMA ANTIGA

Plural de ‘graffito’, que em latim significa “escritas feitas com carvão”, a palavra ‘grafitti’ encontra as suas origens na Roma Antiga.

Praticada actualmente em ambientes maioritariamente urbanos, esta arte provém das manifestações de protesto que os antigos romanos tinham o hábito de escrever nas paredes das suas próprias casas, e que ainda hoje podem ser vistas nas catacumbas de Roma e noutros sítios arqueológicos espalhados pela Itália.

Milhares de anos depois, em meados do século XX, esta tradição foi retomada pelos jovens do bairro nova-iorquino do Bronx, que em vez de usarem pedaços de carvão começaram a recorrer a 'sprays' de tinta, criando um conteúdo visual mais rico e complexo. Com o aproximar do final do século XX, o 'graffiti' começou a associar o seu conteúdo ao movimento hip-hop.

Esta cultura de periferia, originária dos guetos americanos, expressava pela música as revoltas e anseios de comunidades, em especial a afro-americana, que se diziam discriminadas. E o 'graffiti' passou a constituir outra das ‘armas’ desta luta.
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