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Correio da Manhã

Portugal

O HOMEM DOS MIL NOMES

Um ucraniano de 26 anos é o principal arguido no julgamento de uma rede de angariação de mão-de-obra ilegal que, a 10 de Março, terá início no Tribunal de São João da Madeira.
24 de Fevereiro de 2003 às 02:36
Os imigrantes desviados pela rede de Alexander M. chegavam a Portugal em grupos
Os imigrantes desviados pela rede de Alexander M. chegavam a Portugal em grupos FOTO: Arquivo CM
O indivíduo, líder de uma organização com ligações a redes internacionais, desmantelada no âmbito de uma operação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), era conhecido pela sua capacidade para inventar identidades, com o intuito de fugir às autoridades, segundo revela o despacho de acusação do processo a que o CM teve acesso.

Para além de Alexander M., actualmente em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Coimbra, outros oito arguidos vão sentar--se no banco dos réus do Tribunal de São João da Madeira, todos indiciados pela prática de crimes de associação criminosa e angariação de mão-de-obra ilegal, entre outros.

Na rede, na qual não há registo da presença de portugueses, marcavam presença outros ucranianos e russos, sendo ainda de realçar a acção de um guineense, conhecido pelos seus bons conhecimentos dentro do mundo da construção civil.

Os primeiros registos da acção deste grupo organizado surgem em meados de 2000. Submetido às ordens de organizações que operavam a partir dos países do Leste europeu, Alexander M., conhecido entre aqueles que lhe eram mais próximos por Sacha, acordou constituir, com o auxílio de outras sete pessoas, entre elas uma mulher, todos ucranianos e russos, uma rede de angariação e envio para Portugal de imigrantes em situação ilegal.

AGÊNCIA DE VIAGENS

Contando com a colaboração próxima de Volodymir M. e de Pavel, Alexander M. recorreu aos contactos privilegiados que mantinha com diversas agências de viagens russas e ucranianas para, a partir de meados de 2000, começar a encaminhar diversas ‘ondas’ de imigrantes para Portugal.

Munidos de vistos turísticos, de curta duração, os imigrantes chegavam aos terminais de transportes de Lisboa, onde eram esperados pelos ‘ajudantes’, elementos da rede incumbidos por Sacha de arranjarem alojamentos provisórios.

Logo aí, os cidadãos de Leste eram extorquidos, sendo-lhes pedidas quantias nunca inferiores a 250 dólares, com a justificação de que esta seria a única forma de arranjar emprego, sendo depois transportados para os locais de trabalho, em regra no Norte do País.

EXPERIÊNCIAS DE EXTORSÃO

Ao longo de cerca de um ano, a rede liderada por Alexander M. burlou e enganou uma quantidade de imigrantes não especificada no despacho de acusação. No entanto, ao longo de dezenas de páginas, o documento é fértil em descrições das experiências de diversos imigrantes dos países de Leste, que ao chegarem a Portugal se entregaram nas mãos dos ‘ajudantes’ de Alexander M., que acabou por ser detido a 29 de Junho de 2001.

Um dos casos relatados é o de Oleh D. Este cidadão ucraniano chegou a Portugal, na companhia de mais sete compatriotas, nos princípios de Fevereiro de 2001, tendo pago a uma agência de viagens do seu país uma quantia de 610 dólares, para despesas de visto e transporte. Recebido em Lisboa por elementos ligados ao grupo de Alexander M., Oleh foi levado para São João da Madeira, onde lhe arranjaram trabalho por apenas um dia.

LIGAÇÕES INCERTAS

TRANSPORTE

Assim que caíam nas mãos da rede de Alexander M., os imigrantes partiam numa viagem incerta. A tarefa de transporte dos grupos, dos terminais de transporte de Lisboa até aos locais de destino, pertencia aos arguidos Vladislav V. e a Viktor M., que, por sua vez, entregavam os lotes de trabalhadores a outros ‘ajudantes’, responsáveis pela colocação nas empresas e pelas respectivas acções de controlo nos locais de trabalho.

CONTACTOS

O despacho de acusação do processo que, a 10 de Março, começa a ser julgado no Tribunal de São João da Madeira, assegura que o grupo liderado pelo jovem ucraniano mantinha contactos com outras redes internacionais de angariação de mão-de-obre ilegal, com quem trocava imigrantes, consoante houvesse falta de locais de trabalho para colocar os recém-chegados, ou falta de mão-de-obra em determinadas empresas clientes.

GRUPOS AFRICANOS PREOCUPAM AUTORIDADES

Um dos nove arguidos que, a 10 de Março, se vão sentar no banco dos réus do Tribunal de São João da Madeira, desempenhava um papel importante na angariação de trabalhadores. O guineense Agostinho A., descrito no despacho de acusação do processo como uma pessoa com “fortes conhecimentos no mundo da construção civil”, enquadra-se no perfil de subempreiteiro ilegal traçado ao CM por fontes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Estes indivíduos, geralmente antigos operários deste ramo, vindos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), estabelecem-se como empresários, optando então por ir recrutar, de forma ilegal, aos países de origem, novos grupos de trabalhadores.

Apesar de esta ser já uma tendência notada em Portugal há cerca de dez anos, este fenómeno tem assumido especial preponderância nos últimos meses, e o SEF já o começa a equiparar à acção das designadas máfias de Leste. “Mesmo não recorrendo tanto à violência como os operacionais das redes mafiosas do Leste europeu, os chamados ‘encarregados’ a soldo dos subempreiteiros africanos usam da chantagem para manterem os trabalhadores africanos sob controlo”, referiu uma das fontes do SEF contactadas pelo nosso jornal.

Em concreto, “depois de se deslocarem directamente aos PALOP para recrutar novos trabalhadores”, os subempreiteiros em questão “fazem uso de um lote de empresas clientes para colocar esses mesmos trabalhadores, apresentando-lhes documentos de identificação, e números de registo na segurança social falsos”, acrescentou a mesma fonte.

Actualmente, dentro deste negócio, são os “guineenses e cabo-verdianos a assumir especial preponderância, através dos conhecimentos que acumulam por meio de deslocações aos próprios estaleiros de obras espalhados pelo País. O factor medo é também muito importante nestas autênticas acções de extorsão”, esclareceu.

“A dependência dos trabalhadores em relação à acção destes subempreiteiros é tanta, que eles são transportados para o emprego, e para casa, por carrinhas fretadas por estas empresas, que os controlam em vários aspectos da sua vida pessoal e profissional”, concluiu outro responsável contactado.
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