O meu avô Alberto Ralha

Meses depois de ter sofrido um AVC que teria significado o fim da vida digna de ser vivida a qualquer outro homem com mais de 80 anos, o meu avô dizia por vezes coisas que não conseguíamos entender.
09.01.10
O meu avô Alberto Ralha
Alberto Ralha Foto D.R.

Não conseguíamos entendê-las por um simples motivo: por vezes o meu avô só se lembrava de algumas palavras em alemão, língua em que infelizmente nenhum de nós era fluente.

Perante este problema bicudo o meu avô não ficou à espera de que nos inscrevêssemos num curso de línguas. Em vez disso continuou uma recuperação que só era assombrosa para quem não o conhecesse e em menos tempo do que seria natural reaprendeu todas as palavras em português, evitando a frustração de não se fazer entender.

Faltam-me conhecimentos científicos para entender a razão de algumas palavras alemãs terem reaparecido primeiro ao meu avô do que as congéneres portuguesas, mas arrisco uma hipótese: era assim que Alberto Ralha regressava aos anos 40, quando o jovem e brilhante professor de Química Orgânica trabalhou com os melhores em Basileia e em Zurique. A seu lado tinha a minha avó Isaura, a colega de curso com quem começou por partilhar salas de aula e dia de aniversário e depois partilhou décadas de vida excessivamente curtas, das quais resultaram projectos, sonhos, filhos, netos e agora bisnetos.

Ignoro se o meu avô e a minha avó se apaixonaram antes ou depois de saberem que tinham nascido no mesmo dia, com um ano de diferença. Nas muitas recordações que ele partilhou comigo nunca tal me disse e eu também nunca insisti, pois entendi que a morte prematura de Isaura era uma ferida que permanecia aberta. Mas também é natural que não saiba tudo de uma vida tão rica quanto aquela que ele viveu.

Depois do que aprendeu na Suíça dos cartões de racionamento a seguir ao fim da II Guerra Mundial, onde por vezes era mais fácil haver uma barra de chocolate do que alimentos mais básicos, o meu avô nunca mais parou de pôr em prática. Assim o fez na Universidade de Lisboa, no Laboratório Normal, no Laboratório de Polícia Científica – durante anos a fio dividia os seus dias de trabalho entre as duas entidades, tendo funções dirigentes em ambas -, no Gabinete de Reforma Educativa – mesmo que isso implicasse dormir pouco mais de um par de horas depois de jantar para de seguida trabalhar com o dr. Veiga Simão pela madrugada dentro - ou na Direcção-Geral do Ensino Superior, onde se encontrava a 25 de Abril de 1974.

Não foi essa a última ocasião que teve para pôr em prática o que pensava sobre as universidades. Fundador do CDS, o que o levou a ser um dos congressistas sitiados no Palácio de Cristal do Porto antes da consolidação da democracia, assumiu a Secretaria de Estado do Ensino Superior quando Pinto Balsemão era primeiro-ministro. Numa altura em que faltavam verbas e estabilidade fez o que estava ao seu alcance para qualificar o sector, mas felizmente teve a oportunidade de regressar às mesmas funções anos mais tarde, trabalhando ao longo de quatro anos com o ministro Roberto Carneiro em prol do futuro do seu país.

Antes, no início da década de 80, foi bastonário da Ordem dos Farmacêuticos. Nada mais apropriado em quem passava madrugadas de plantão na farmácia do meu bisavô à espera de quem aparecia com receitas que, em vez de se retirar a caixa do medicamento de uma gaveta, era preciso saber preparar. Do seu trabalho neste sector sempre ouvi o melhor, às vezes de dirigentes do sector, outras de farmacêuticos que ao ouvir o meu nome de família ao passarem uma factura de imediato perguntavam por ele.

Ao longo de quase nove décadas de vida o meu avô fez o que estava ao seu alcance por não ser conhecido e ainda mais por não ser reconhecido. Tinha alergia a homenagens e, mesmo que as sentisse merecidas, insistia que não eram necessárias. Assim foi em 2008, quando a Policia Judiciária o homenageou enquanto criador do Laboratório de Policia Científica, encarregando-me de o representar na cerimónia. Assim acontecera antes, na Ordem dos Farmacêuticos, quando o meu pai e muitos amigos tiveram que o ludibriar para assegurar a sua presença. De qualquer forma acredito que a melhor homenagem reside no impacto que ele teve na vida das muitas pessoas com quem trabalhou ao longo da vida.

O meu avô era um homem de missões e de deveres. Dedicou-se ao serviço público com a preocupação de servir o bem comum. O futuro de Portugal, que via com pessimismo, preocupava-o, bem como sempre se preocupou com o futuro daqueles que deixava. Nas suas últimas décadas de vida planeou a regra e esquadro o futuro do meu pai, com quem partilhava casa numa relação perfeita em que cada um deles sentia estar a cuidar do outro, pelo que é impossível calcular o desgosto que ele sentiu quando – em mais uma partida cruel do destino – há quase três anos o coração de José Manuel Ralha deixou de bater.

Nos últimos anos era a custo que mantinha o seu humor, mordaz, sarcástico, por vezes cáustico, quase anacrónico num homem que era um sinónimo de seriedade e rectidão. A passagem dos anos fez com que o corpo de quem noutras circunstâncias poderia ter sido um atleta em vez de um cientista ficasse cada vez mais frágil e cada vez menos capaz de acompanhar as suas superiores e intocáveis capacidades mentais. É com dor e saudade que vejo partir o homem que tinha paciência para me desenhar bandeiras de países que entretanto deixaram de existir quando eu era criança. Mas aquilo que fica, além das recordações de um homem notável, é a certeza de que todos temos a responsabilidade de honrar o seu nome e de tentarmos dar à nossa vida tanto conteúdo e tanto sentido quanto a dele teve.

O meu avô está agora em paz, novamente junto à minha avó, certamente a chamar “pázinho” ao meu pai. Ficará à nossa espera, mas sem pressa de nos ver, pois sempre foi um homem paciente.

Vai-nos fazer muita falta a todos.

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