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Correio da Manhã

Portugal
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O SISMO QUE VEIO DE GIBRALTAR

Sábado, um de Novembro de 1755. Um pouco antes das dez da manhã, Lisboa tremeu, naquele que foi, durante muito tempo, considerado o mais violento sismo de sempre. Com uma magnitude de quase nove valores na escala de Richter, arrasou com a capital, transformou-a em ruínas e foi responsável por 60 mil vítimas.
28 de Agosto de 2004 às 00:00
Foi assim há quase 250 anos, mas apesar de ter passado cerca de um quarto de milénio, os cientistas não são unânimes quanto à sua origem e ainda procuram razões para justificar tamanha destruição. André Gutsher, sismólogo francês do Instituto Europeu do Mar, avança com uma explicação na edição de ontem da revista ‘Science’.
De acordo com o cientista, a chave do enigma pode ser encontrada perto de Gibraltar, numa zona de subducção – o processo através do qual as rochas de uma placa tectónica descem e vão para baixo de blocos de outra placa, libertando uma quantidade de energia capaz de dar origem a um sismo com grande magnitude.
Para Miguel Miranda, do Instituto Geofísico Infante D. Luís, trata-se de mais uma explicação, mas este especialista acredita que ainda tem de se percorrer um longo caminho para descobrir o que realmente aconteceu. No entanto, se restam dúvidas sobre o que aconteceu há cerca de 250 anos, há pelo menos uma certeza: Portugal corre o risco de vir a sofrer um sismo da mesma magnitude que o de 1755 e com idênticos índices de destruição. “O raciocínio mais básico é dizer que se já aconteceu um, existem todas as condições para outro. O que não sabemos é quando. Para termos essa informação é determinante saber qual a identidade geológica que criou o sismo. Daí a importância de descobrir como foi”, explica.
Existem então razões suficientes para que os portugueses se preocupem, sobretudo nas regiões mais a Sul. É que, no País, são duas as zonas de grande destruição: o Algarve e Lisboa. E não existe qualquer método de prever os tremores de terra antes de acontecerem, por forma a alertar a população. O que existe, espalhadas um pouco por todo o País, são estações sismográficas, destinadas a medir a forma como o solo se desloca, o que acontece com muita regularidade. “E isto faz-se porque existe a certeza que as estruturas que provocam sismos pequenos podem ser também responsáveis por originar grandes”, refere.
CONSTRUCÇÃO CERTA PODE EVITAR O PIOR
Ainda que não existam recursos disponíveis para a previsão sísmica, as consequências catastróficas que podem resultar dos tremores de terra levam os especialistas em engenharia a ter outras preocupações: saber construir.
Rogério Bairrão, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES), explica de que forma o pior pode ser evitado. “Primeiro, há que construir de acordo com as regras e este é um problema mais legislativo do que científico, uma vez que nós sabemos como deve ser feita a construção”, refere. No entanto, para além dos edifícios mais recentes, há ainda o parque edificado há dezenas de anos. “Aqui, só temos duas hipóteses: ou destruir totalmente os edifícios ou melhorar a capacidade das suas estruturas”, afirma. Soluções que exigem trabalho e que têm levado a SPES a alertar para o que considera ser um problema muito grave. “Quando vemos edifícios a ruir só pelo seu peso próprio, não é preciso ser grande especialista para imaginar o que pode acontecer com um abalo. Isso significa que há muito ainda para fazer”.
ORIGEM NO MAR
Não restam dúvidas que o sismo que destruiu Lisboa em 1755 teve origem no mar. Isto porque, para além da devastação em terra, a libertação de energia deu ainda origem a várias ondas gigantes que varreram a costa.~
LISBOA EM RISCO
Os danos nas construções dependem da intensidade do tremor e da resistência e qualidade das edificações. Com tantas casas antigas em Lisboa, a capital corre o risco de vir a sofrer consequências devastadoras em caso de abalo.
SUL MAIS FRÁGIL
O Algarve é uma zona com grande actividade sísmica. Dizem os especialistas que no sul do País a terra treme quase todos os dias. No entanto, alertam também para aquilo que consideram ser a falta de recursos para a monotorização de sismos.
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