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Correio da Manhã

Portugal
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OITENTA ANOS A MALHAR FERRO

À entrada da pequena oficina de Francisco Calé, nas Brancas, Batalha, está um catavento artesanal que ilustra bem a capacidade criativa deste ferreiro de 89 anos.
23 de Março de 2003 às 00:58
Francisco Calé , 89 anos
Francisco Calé , 89 anos FOTO: Cláudio Garcia
Quando tocado a vento, o aparelho acciona um pequeno fole semelhante aos usados nas forjas e duas figuras, que martelam numa bigorna a ritmo cadenciado. Tecnicamente, o mecanismo não tem nada de complexo, mas no plano afectivo simboliza bem o apego de Francisco Calé à profissão e a vontade que sempre teve para inventar novos equipamentos.

“Nunca houve peça que me pedissem e eu não conseguisse fazer”, afirma orgulhoso o ferreiro. A dois meses de completar 90 anos, ‘Chico Calé’, como é conhecido pelos clientes, continua a deslocar-se todos os dias, religiosamente, para a sua oficina. Agora, ocupa as horas a preparar ponteiros destinados à construção civil, a criar pequenos candeeiros em ferro ou a construir réplicas de noras, encomendadas por empresas e particulares. Mas durante anos, exerceu a actividade de forma intensa, chegando a ter 11 trabalhadores por sua conta.
Francisco Calé nasceu nas Brancas em 1913. E, tal como três dos seus seis irmãos, seguiu a profissão do pai. Frequentou a escola primária até à quarta classe e logo aí começou a revelar a tendência para moldar o ferro, ao construir arcos em arame, que serviam de brinquedos para os colegas. “Eram os automóveis daquele tempo”, recorda.

Concluídos os estudos, passou a ajudar o pai na forja, numa altura em que começou a usar-se um rasto de ferro nas rodas dos carros de bois.

Aos 15 anos, decidiu experimentar novas actividades e foi aprender o ofício de armeiro, onde se manteve até ser chamado a cumprir o serviço militar, em Lisboa. Quando passou à disponibilidade, resolveu voltar à oficina do pai e aprofundar os conhecimentos como ferreiro.

Em 1941, “no dia do ciclone” que assolou a vila da Batalha, casou e estabeleceu-se por conta própria. Nesta nova fase, um dos primeiros trabalhos que fez “foi engrossar os sinos da Igreja da Misericórdia da Batalha”. Depois, fez candeeiros em ferro para o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e inventou uma tesoura para facilitar o trabalho da poda nas vinhas.

O sucesso do invento chegou ao conhecimento das fábricas de cutelaria e a tesoura acabou por ser produzida em série. Como recompensa, Francisco Calé recebeu “um faqueiro”.

“Tenho pena é de não ter ficado com a primeira tesoura, que dei para amostra”, lamenta hoje o ferreiro.

Entusiasmado com o êxito do invento, começou a ocupar muitas das suas noites a sonhar com novos equipamentos para a agricultura, uma actividade a que se manteve sempre ligado.

“A maior parte das invenções eram pensadas à noite”, diz Francisco Calé, revelando nunca ter feito desenhos ou projectos para sustentar as suas criações. Apesar disso, nas imediações da sua oficina, repousam ainda alguns destes equipamentos, como um capinador, uma fresa com o diferencial de um Mercedes antigo, um racha cavacas, um moinho para triturar o pasto ou um semeador de milho.

Com quase 80 anos de trabalho árduo, o ferreiro das Brancas sofreu há pouco tempo o primeiro acidente de trabalho. O sinistro custou-lhe a amputação parcial de dois dedos, mas no dia a seguir já estava de novo na oficina, a trabalhar, de braço ao peito. “Não consigo estar parado”, justifica Francisco Calé, para quem o ferro nunca teve segredos.

PRIMEIRO RÁDIO NAS BRANCAS

Quando iniciou actividade por conta própria, Francisco Calé não teve a vida facilitada, pois decorria a II Guerra Mundial. “A guerra do Hitler”, como ele gosta de a classificar. O ferro era pouco e tinha que ser comprado em Lisboa. Este contratempo, porém, não retirou a determinação ao ferreiro, que mesmo em tempo de recessão, conseguiu ser o único das Brancas a ter um rádio. Para alimentar o transistor, criou uma nora “com três metros de diâmetro”, que passava a energia para um dínamo. Quando a água escasseava, mandava um empregado mover a nora. Quem beneficiava com isto era a população da aldeia, que se concentrava na casa do ferreiro, nos dias 13 de Maio, para ouvir a transmissão das celebrações religiosas, em Fátima.

JORNADA DE TRABALHO

10H00: ACENDER A FORJA

A primeira tarefa do dia é acender a forja, onde é colocada uma mistura de carvão de pedra, com carvão de madeira. Quando começou na actividade, recorria a um fole manual para atiçar e manter a temperatura. Agora, utiliza um motor.

10H30: CRIAR PONTEIROS

Com a forja à temperatura ideal, o ferro é mergulhado no carvão até ficar em condições de ser martelado e transformado num ponteiro para a construção civil. O processo para as enxadas ou podões é semelhante.

12H00: CORTAR

Antes do almoço, ainda há tempo para cortar alguns tubos, que mais tarde irão ser usados para a criação de candeeiros eléctricos em ferro.

14H30: MOLDAR

Depois de cortadas as barras de ferro para os pés dos candeeiros é preciso dobrá-las, com o recurso a um molde. O processo é manual.

17H30: REBOQUE

Depois de soldadas as várias peças do candeeiro, é preciso preparar o tubo de rosca para encaixar o casquilho da lâmpada e aplicar o fio.

B.I. DA PROFISSÃO

A profissão de ferreiro está em fase de extinção. A decadência da actividade, em Portugal, terá começado na última metade do século XX. Até aí, eram eles os responsáveis pelo fabrico de grande parte das alfaias agrícolas, que depois começaram a ser produzidas em série.
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