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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

ORGANIZAÇÃO JUDICIÁRIA É DO TEMPO DE D. MARIA

Paula Teixeira da Cruz, candidata à distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, ficou conhecida do grande público pela participação no programa ‘Em Legítima Defesa’, onde fazia frente a Miguel Sousa Tavares, e pela sua acção enquanto vereadora do PSD na Câmara de Lisboa. Mas o que gosta mesmo é da advocacia.

03 de junho de 2004 às 00:00

Correio da Manhã – O que a leva a candidatar-se?

Paula Teixeira da Cruz – Várias razões. A primeira é que se avizinha um triénio muito complicado para o sector da Justiça. Estão em curso várias reformas em sectores extremamente importantes, caso da reforma da Acção Executiva ou do Contencioso Administrativo, que estão a colocar problemas muito complexos. Vem aí o novo Regime de Acesso ao Direito e é preciso aperfeiçoar uma cultura de cooperação entre todos os operadores judiciários.

Do ponto de vista da advocacia, que missão a espera?

Há uma questão preocupante, que é a da jovem advocacia. É preciso criar condições para reestruturar a profissão, sob pena de nos descaracterizarmos completamente. Os números são impressionantes: 49 por cento dos advogados estão em Lisboa. Até aos 30 anos, num total de 2415 advogados, 685 são homens e 1730 são mulheres; dos 30 aos 35 anos há 779 homens e 1389 mulheres. A tendência só se inverte a partir dos 40 anos. Estes números são claros e colocam novos problemas.

Que tipo de problemas?

Há aspectos que se prendem com o exercício profissional que são próprios e específicos, designadamente o problema da maternidade. Até agora, esta situação tem estado sustentada num exercício liberal puro e duro. Mas há aqui um conjunto de preocupações sociais que vamos ter de prever.

Num âmbito mais vasto, além das reformas em curso o que mais a preocupa?

Vivemos num País que tem ainda Uma organização judiciária que data do tempo de D. Maria, com meras alterações e remendos.

Mas a organização judiciária está a ser revista.

É verdade, mas há uma total desadequação de tudo. Temos, por exemplo, uma reforma ambiciosa e salutar como é a do Contencioso Administrativo, mas temos também uma organização judiciária antiga e desfasada. Depois, a própria organização dos tribunais administrativos, que supostamente ia na senda das especializações, foi de alguma forma pervertida em nome de um economicismo reinante na Justiça.

Que soluções podem encontrar-se?

Basicamente, é uma questão de organização e de afectação de meios.

Mas se não há dinheiro para investir...

Não é um problema que se resolva com dinheiro, mas com planeamento. É preciso conceber o sistema na sua integralidade, e não esquecer que a Justiça se auto--sustenta em mais de 50 por cento, através do cofre dos tribunais e do cofre dos conservadores e notários. A Justiça é a saúde do Estado, como dizia o Platão, e se há alguma coisa que não pode periclitar é justamente a saúde.

A sua carreira na advocacia vai ficar por aqui? Tem ambições de chegar a bastonária, por exemplo?

Não faz parte dos meus objectivos, que são extremamente simples. Continuar a ter o meu escritório, tal como até agora. A minha candidatura surge numa óptica de solidariedade e não de carreira. Mas pretendo marcar a diferença.

“SOU REPUBLICANA, O MEU MARIDO MONÁRQUICO”

Tem vontade de regressar à política?

Nenhuma. Não abdico da intervenção política, mas do que não abdico mesmo é da minha actividade profissional.

Como concilia a profissão com a família?

Com muito auxílio de todos. Eu e o meu marido temos um relacionamento com os nossos filhos de grande cumplicidade. Já tive dúvidas, mas hoje tenho a certeza de que o importante não é a quantidade de tempo – é a qualidade de tempo. Fomos construindo uma relação permanente e até diversificada.

Estão sempre de acordo?

Não é segredo para ninguém que eu e o meu marido temos perspectivas diferentes no que respeita a várias questões.

Pode dar um exemplo?

Quando os nossos filhos andavam na escola primária, uma da questões recorrentes que constava do programa era o 5 de Outubro de 1910. E o 5 de Outubro visto por uma republicana como eu é diferente do 5 de Outubro visto por um monárquico como o meu marido. Temos uma relação muito curiosa.

Paula Teixeira da Cruz nasceu em Angola há 44 anos. Casou-se com Paulo Teixeira Pinto, ex-secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e um dos principais conselheiros do Governo de Cavaco Silva. Tem dois filhos, a Catarina, de 20 anos, e o Paulo, de 18.

É sócia-advogada da Serra Lopes, Cortes Martins & Associados. Milita no PSD desde 1995 e foi vereadora da Câmara Municipal de Lisboa (onde ganhou fama pela oposição que fez a João Soares). É membro do Conselho Superior de Magistratura.

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