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Correio da Manhã

Portugal
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Os sem-abrigo filhos da crise

A perda do emprego e as rupturas familiares, às vezes associadas, estão a alterar o paradigma dos sem-abrigo. Há cada vez mais pessoas activas, com formação, sem relação anterior com a toxicodependência e doenças mentais, a viver nas ruas. O Instituto da Segurança Social (ISS) contabilizou, há quatro anos, 2133 sem-abrigo, mas hoje, segundo algumas associações que lhes prestam apoio, o número poderá rondar os três mil.
12 de Março de 2012 às 01:00
Os recantos dos prédios abrigam mais pobres
Os recantos dos prédios abrigam mais pobres FOTO: Ricardo Almeida

Maria João Castelo Branco, vereadora da Câmara de Coimbra – cidade que tem 200 sem--abrigo – confirma esta tendência: "A ‘tipologia’ das pessoas nesta situação está a mudar, não tendo como factores únicos a toxicodependência e/ou os problemas psiquiátricos, mas também o desemprego e/ou a separação conjugal." Acresce ainda a falta de pagamento de salários como factor de desorganização da vida pessoal e familiar.

Uma caracterização dos sem--abrigo, concluída pelo ISS em 2009, já indicava as rupturas familiares (33,1%) e o desemprego (22,3%) como as principais razões para a situação em que se encontravam. Com o arrastar da crise económica e social, todos os especialistas antevêem um aumento de pessoas a viver sob pontes e nos recantos dos prédios. "Isso já se verifica e tende claramente a acentuar-se, se não houver uma inversão da actual tendência", constata Jorge Correia, presidente do Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (CASA). "Nos últimos tempos, eventualmente um ou dois anos, tem sido muito evidente o fluxo de novas pessoas em situação de carência, como reflexo da actual conjuntura nacional e internacional", conclui Jorge Correia.


VIVE NA RUA APÓS 39 ANOS DE TRABALHO

Sérgio Coutinho tem 53 anos e é sem-abrigo. O desemprego é a causa da sua actual situação, após 34 anos como vidreiro na Marinha Grande e cinco na Suíça. Desde Maio de 2011 que a rua é a sua casa, em Coimbra – um concelho que, por ter uma série de instituições bem organizadas no apoio aos carenciados, atrai muitos sem-abrigo de outras regiões. "Quando regressei da Suíça, depois de ter sido despedido com mais uns 20, em 2004, acabei por regressar a Portugal. Trabalhei um ano na Câmara da Marinha Grande e ganhei o subsídio de desemprego. Depois fui para as Novas Oportunidades e fiz o 9º ano. Estagiei numa empresa, mas não me deram emprego e acabei por cair na rua."

COMPETÊNCIA E FORMAÇÃO

"A crise económica tem trazido para a rua pessoas que não são o típico sem-abrigo (alcoólico e toxicodependente), mas sim que ficaram sem emprego e que deixaram de poder pagar a renda do quarto ou da casa", diz Jorge Alves, presidente da Integrar. Hugo Vaz, técnico da associação em Coimbra, confirma: "Há mais pessoas com formação, competências profissionais e pré-profissionais."

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