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Correio da Manhã

Portugal

Padre recusa comunhão a quem usa contraceptivos

Nuno Serras Pereira, sacerdote católico, pagou ontem a publicação de um anúncio no jornal ‘Público’ no mínimo insólito. Informou o padre franciscano, com residência e prática religiosa em Lisboa, que está impedido de dar comunhão a todos os que usem métodos contraceptivos, que recorram à procriação medicamente assistida ou que, simplesmente, estejam de acordo com a despenalização do aborto.
3 de Março de 2005 às 01:05
Diz o documento, a que o padre chamou de “participação aos interessados”, que o cânone 915 do Código de Direito Canónico o impede de “dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes”.
O franciscano, que não tem paróquia fixa, explicou ao CM que esta foi a única forma encontrada para dar a conhecer o que, segundo ele, é uma imposição da igreja, que se aplica apenas aos que tornaram públicas as suas posições. “Não vou andar a meter-me na vida pessoal de cada um. No entanto, aqueles que divulgam publicamente as suas decisões e opiniões já sabem. Evita-se, desta forma, qualquer embaraço.”
Nuno Serras Pereira justifica a sua decisão com o que diz ser o direito à vida, que considera “o primeiro e fundamento de todos os outros”. Condena publicamente o aborto, posição assumida pela Igreja, e vai ainda mais longe. “Um dos dez mandamentos diz: ‘Não matarás’. Qualquer católico sabe que não tem o direito de matar e, se o quiser fazer, tem que aceitar as consequências dos seus actos. Não se pode ter com Deus uma relação que ele não aceita.”
POPULAÇÃO CONTRA SACERDOTE
O anúncio do padre não foi muito bem recebido nas paróquias onde tem celebrado missas. “É um bom padre, mas não se devia meter nessas coisas”, afirmou Maria Lina Carvalho, de 67 anos, que costuma ir todos os domingos à Igraja de N.ª Sr.ª do Carmo, no Alto do Lumiar. “Abortos já fiz muitos e só tenho de prestar contas a Deus”, revelou Maria do Céu Martins, de 82 anos, frequentadora da Igreja da Sagrada Família da Pontinha, onde algumas mulheres se mostraram revoltadas com a posição de Nuno Pereira. “Ele é contra o aborto, então que dê a missa aos homossexuais que esses não o fazem”, dizia Sónia Vicente, de 29 anos, valendo-se ainda de uma passagem da Bíblia: “Quando quiseram apedrejar a prostituta, Jesus não lhe voltou as costas e ela era prostituta. Este agora não nos quer dar a hóstia.”
OUTRAS OPINIÕES
TERESA GUILHERME, APRESENTADORA: “Espero que os padres ponham cada vez mais anúncios nos jornais, que os meios de comunicação agradecem o dinheiro. Quanto à Igreja Católica, numa época em que as pessoas precisam tanto de apoio espiritual, penso que se está a afastar cada vez mais da nossa realidade, que parece querer conhecer cada vez menos.”
ODETE SANTOS, DEPUTADA: “Trata-se de uma coacção que se exerce sobre os católicos, é uma chantagem e revela falta de humanidade. Ao mesmo tempo, é um atentado contra a vida humana, na medida em que ao defender que não se use o preservativo, com todas as doenças que existem, não se está a ter em conta o ser humano.”
PADRE MAIA: “A consciência de cada pessoa é um santuário e as questões de consciência não se tratam em colunas de publicidade, mas sim no foro da própria consciência. Depois, mesmo que o anúncio pareça estar de acordo com a doutrina da Igreja, entendo que a interpretação feita da mesma é um abuso.”
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