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Correio da Manhã

Portugal
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Padres rendem 25 milhões

Por imposição da nova Concordata, os mais de quatro mil padres seculares da Igreja Católica Portuguesa vão passar a entregar aos cofres do Estado uma média de cinco milhões de euros por ano em IRS e cerca de 20 milhões para a Segurança Social.
17 de Abril de 2005 às 00:00
A questão mereceu no início do mês nota do Ministério das Finanças, a dizer que as regulamentações administrativas concluíram-se. No interior da Igreja, porém, está quase tudo por esclarecer, a começar nos ordenados a pagar aos párocos.
No entanto, numa atitude preventiva e porque 2005 é o primeiro ano de contribuição para os padres, os bispos das 20 dioceses do País notificaram os seus sacerdotes para começarem já a guardar todas as despesas pessoais passíveis de serem deduzidas no IRS – saúde, seguros ou donativos. De resto, os modelos a preencher serão os mesmos dos outros contribuintes, assim como as taxas de IRS e Segurança Social.
A questão mereceu especial atenção dos bispos na última reunião da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), em Fátima, tendo ficado alinhavado que o vencimento ilíquido dos párocos não deve andar longe dos 750 euros. Ora, cada um dos cerca de 2100 párocos portugueses pagará, por mês, 48,75 euros de IRS e 82,50 euros para a Segurança Social. Dessa forma, o vencimento líquido passa a 618,75 euros.
A acrescentar a isto, há ainda os 178,12 euros que a entidade patronal – neste caso o conselho económico paroquial – tem de pagar unitariamente à Segurança Social.
Feitas as contas, os párocos vão pagar anualmente 1,43 milhões de euros de IRS e 7,7 milhões euros à Segurança Social.
DÉFICE POR RESOLVER
Mas além dos 2100 párocos, há que ter em conta os 1900 padres que são professores (600 em exclusivo) e os 20 que são capelães do Exército, assim como os 300 cónegos e os 40 bispos.
No caso destes 2260, a média salarial deve, segundo fonte da CEP, rondar os 1150 euros. Aqui, estamos a falar, em termos individuais, de 132,25 euros para o IRS e 126,5 para a Segurança Social. A entidade patronal terá de pagar 273 euros.
No total, professores, capelães, cónegos e bispos, entregarão anualmente 3,2 milhões de euros em sede de IRS e 12,6 milhões de euros à Caixa de Previdência.
Tudo somado, verificamos que os padres portugueses vão depositar nos cofres do Estado perto de cinco milhões de euros. Uma verba que deve ainda diminuir devido à apresentação de despesas.
Considerando o pagamento de impostos justo, um sacerdote resumiu a situação ao CM: “enganou-se quem pensava que os padres iam resolver o problema do défice”.
"NÃO PODEMOS GANHAR MUITOS"
Sendo um padre no mínimo licenciado e, como tal, um quadro superior, um ordenado de 618 euros líquidos por mês não pode considerar-se ajustado.
D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal, diz que os ordenados dos padres têm de ter como referência as necessidades do dia-a-dia e não qualquer coisa supérflua. “Não podemos ganhar muito, porque a nossa missão é ajudar, trabalhar para a comunidade, claro que de forma digna mas sem intuitos de criação de património.”
Mas D. Jorge Ortiga diz que todos os casos merecem uma análise particular, admitindo que alguns sacerdotes recebem ajudas para colmatar despesas específicas, como deslocações e acções de formação.
ORDENADOS 900 PADRES NOS ÚLTIMOS 30 ANOS
Nos últimos 30 anos, entre 1974 e 2004, foram ordenados nas dioceses portuguesas cerca de 900 sacerdotes, numa média de 30 por ano. O pior registo é o de 1975, um ano depois do 25 de Abril, com 19 ordenações sacerdotais e a ‘melhor colheita’ foi a que se verificou 20 anos depois, em 1995, com 62 seminaristas a serem ordenados presbíteros. Os dados fazem parte de um estudo da Conferência Episcopal Portuguesa, que conclui que, após a década de 70, “o número de vocações tem-se pautado pela estabilidade”. A par do que acontece com a ordenação dos padres, também o número de alunos nos seminários de Teologia (agora faculdades) cresceu de 1975 até 1995, passando de 180 para 460, tendo nos últimos dez anos registado uma ligeira queda, até aos actuais 34 estudantes de Teologia. Quanto à distribuição geográfica, as dioceses do Norte do País, nomeadamente as de Braga e Porto, têm a fatia de leão, sendo que a Sul só Lisboa apresenta números semelhantes.
O maior problema está nas dioceses de Évora, Beja e Algarve, que chegam a estar dois ou três anos sem ordenar qualquer sacerdote. Outra das questões que preocupa a Igreja é que os que morrem são cerca do dobro dos que se ordenam. É que, havendo em Portugal cerca de 4000 padres, mais de 3000 foram ordenados antes de 1974, ou seja, têm mais de 55 anos. Apesar da referida estabilização, a crise de vocações continua a ser uma preocupação da Igreja.
DISTRIBUIÇÃO POR 4300 PARÓQUIAS
PÁROCOS
O número de párocos, em Portugal, ronda os 2100, menos de metade das paróquias. Mas não devem chegar a 800 os que exercem esta actividade em exclusivo, apesar de os bispos pretenderem que os padres esqueçam as escolas e sejam cada vez mais párocos a tempo inteiro.
BISPOS
Os titulares de dioceses, no continente e ilhas, são 20 – 17 bispos, dois arcebispos e um cardeal patriarca. Mas a juntar a estes há ainda 9 bispos auxiliares e uma dezena de eméritos, ou seja, bispos que atingiram os 75 anos de idade e que, por isso, deixaram a titularidade da sua diocese.
PROFESSORES
Já foram mais os padres professores de moral nas escolas. Hoje, por indicações das próprias dioceses, esses lugares estão a ser ocupados por leigos licenciados em Teologia. Mas há muitos padres com larga formação académica e que dão aulas nos seminários e na Universidade Católica.
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