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Correio da Manhã

Portugal
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PAGA PARA FAZER NADA

O Ministério do Ambiente mantém há um ano e meio uma funcionária pública a trabalhar junto de uma casa de banho sem nada para fazer. "Na minha mesa de trabalho tenho apenas dois frascos de verniz para pintar as unhas, revistas e papéis onde aponto os meus pensamentos por me encontrar num trabalho em que não tenho qualquer ocupação", disse Ana Maria Gomes Vieira, com 44 anos, que exerce desde 1980 funções de auxiliar administrativa.
3 de Setembro de 2003 às 00:00
 Ana Maria Vieira diz que estão a destruí-la
Ana Maria Vieira diz que estão a destruí-la
A 15 de Abril de 2002, a funcionária começou a trabalhar no Instituto do Ambiente, para onde pediu transferência depois de ter trabalhado na Presidência de Conselho de Ministros. "Quinze dias depois de ter sido colocada no sector da presidência, o presidente do Instituto do Ambiente, João Gonçalves, chamou-me e disse que estava descontente com os meus serviços e iria, então, colocar-me numa outra área dentro de três semanas", recordou a funcionária pública que conta no seu currículo com classificação máxima.
"Fui então para uma mesa junto de uma casa de banho, com as costas expostas ao Sol", disse, sublinhando, logo de seguida: "E simplesmente não faço nada".~
Ana Maria Vieira, que conta com experiência de assistência a reuniões de secretarias de Estado e de Conselho de Ministros, entrou num processo que classifica de "depressão" recorrendo a apoio clínico de uma "psicóloga e de uma psiquiatra".
Pouco tempo depois, a sua situação profissional foi um pouco melhorada. "Colocaram-me a dois metros do local original para não sofrer a exposição directa ao Sol", contou.
NOTA DE CULPA
Descontente, Ana Maria recorreu então à Comunicação Social. "Após a minha situação ter sido noticiada num jornal fui chamada a uma junta médica a pedido do instituto e fiquei de baixa durante três meses. Tive alta e voltei ao trabalho, mas tudo continuava na mesma", disse.
Por se considerar vítima de uma situação laboral precária, participou em Janeiro último no programa de televisão "Bombástico" onde expôs a sua situação profissional. "Na semana seguinte foi-me finalmente entregue a tarefa de arrumar pastas no arquivo", precisou.
"Fiquei contente, contudo o trabalho durou apenas uma semana e de novo fui colocada na referida mesa sem nada para fazer", adiantou Ana Maria Vieira.
"Segunda-feira, recebi uma nota de culpa, na qual me é levantado um processo disciplinar por alegadamente ter violado o estatuto disciplinar dos funcionários e agentes do Estado ao ter participado no referido programa", adiantou a funcionária pública, a quem há ano e meio não é dada uma ordem de trabalho.
"NOITES EM QUE NÃO FECHO OS OLHOS"
Ana Maria Vieira considerou que na origem da nota de culpa está o facto de ter dito, no referido programa televisivo, que estão a destruí-la. "Todas as noites deito-me, coloco os olhos no tecto e penso na minha carreira profissional. Tenho noites em que não consigo fechar os olhos. Isto não é destruição?", interrogou a funcionária, que corre agora o risco de ser suspensa e perder o vencimento. O CM tentou obter esclarecimentos junto do Ministério do Ambiente, que remeteu para o Instituto do Ambiente, cujo presidente, João Gonçalves, não pôde prestá-los, por se encontrar de férias.
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