Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
2

Pai ameaçado de morte

Uma carta anónima enviada há alguns meses para a residência da família Carquejo em Varge, arredores de Vila Real, ameaçando de morte Américo Carquejo e o seu filho, poderá estar relacionada com o caso de ‘Iara’, menina de seis anos que o casal cria desde os 25 dias de idade e que será agora entregue à mãe biológica por decisão do Tribunal de Vila Real.
3 de Dezembro de 2007 às 00:00
Foi nesta casa, nos arredores de Vila Real, que a criança passou a maior parte dos seus seis anos de vida. Agora voltará à mãe biológica
Foi nesta casa, nos arredores de Vila Real, que a criança passou a maior parte dos seus seis anos de vida. Agora voltará à mãe biológica FOTO: Sérgio Freitas
Américo Carquejo exibiu o documento no Tribunal de Vila Real, que não o valorizou. No entanto, o empresário guarda-o religiosamente, mantendo fortes suspeitas quanto à sua origem.
Entretanto, surgiram ontem duas acções cívicas a favor da manutenção de ‘Iara’ junto da família afectiva. Um grupo de empresários de Vila Real vai colocar outdoors de apoio aos Carquejo. Ao mesmo tempo, está a ser distribuída uma petição nos estabelecimentos comerciais da cidade para ser enviada ao Presidente da República e, posteriormente, à Assembleia da República. “Já recolhemos centenas de assinaturas”, disse ao CM Francisco Bessa, irmão de Américo. Milhares de autocolantes estão a ser distribuídos para serem colocados nas viaturas e foi criado um blogue dedicado à causa.
Délio Carquejo, outro irmão do pai afectivo da criança, promete lançar um “movimento nacional” denominado ‘Juntos pela Iara – As Crianças têm Voz’. “Não é só este caso que nos leva a criar o movimento, mas sim a defesa de todas as crianças prejudicadas pela sua deslocalização de famílias afectivas para as famílias biológicas”, referiu.
PSICÓLOGA PREOCUPADA
A ida de ‘Iara’ a uma consulta de psicologia revelou o que os Carquejo temiam. Segundo a psicóloga Joana Carvalho, a “criança está em estado de choque e apresenta uma série de sintomas pós-traumáticos”. A menina tem “problemas psicossomáticos”, como “dores abdominais, bexiga hiperactiva, vários episódios de enurese [incontinência urinária] e choro fácil”. “Mas neste momento o que me preocupa mais é o facto de ela estar a entrar em estados dissociativos. Ou seja, revela uma disfunção ao nível do funcionamento da sua consciência, memória, identidade e percepção do meio ambiente. Tem o raciocínio desorganizado. Está muito lenta ao nível da linguagem e da articulação verbal. Cerra os dentes e tem esgares faciais, como se ficasse indiferente ao que a rodeia”, diz Joana Carvalho. “São sintomas de grande gravidade clínica e antecipam um claro stress pós-traumático. É grave e requer uma intervenção muito específica”, conclui.
A psicóloga disse ao CM “não concordar com a retirada abrupta, não invalidando a base legal e igualmente uma base clínica”. “O facto de esta decisão ter suporte jurídico não vai evitar nem reparar o dano que já está a causar. É sempre importante ouvir a criança nestes casos!”
Esta semana será de crucial importância e o cumprimento da decisão do tribunal é aguardado com muita ansiedade. A Segurança Social de Vila Real está a estudar e a analisar a instituição que irá acolher ‘Iara’ durante pelo menos um mês antes de ser entregue à mãe biológica. As duas opções mais prováveis são o ‘Lar das Florinhas da Neve’, em Vila Real, ou a unidade de acolhimento de crianças da Santa Casa da Misericórdia de Peso da Régua.
ALGUÉM ESTEVE NO QUARTO
O quarto ocupado por ‘Iara’ na residência do casal Carquejo foi alvo de uma “visita” enigmática há oito meses. A suspeita de rapto surgiu de imediato e não foi afastada pela família afectiva, que ainda hoje espera o resultado das investigações da Polícia Judiciária então levadas a cabo. Estes factos foram dados a conhecer ao Tribunal Judicial de Vila Real, mas foram arquivados. Diz Carlos Bessa, irmão de Américo Carquejo, “que o assalto verificou-se numa altura estranha”, enquanto o casal estava no Tribunal de Vila Real.
Do interior “nada desapareceu”, apesar de existir equipamento informático, aparelhos de som e imagem e peças em ouro. “Quem esteve no quarto entrou pela janela e era para sacar a menina depois!”, garante um familiar de Américo Carquejo. “Pela porta não podiam entrar, então foram pela janela.”
DETALHES
EX-TOXICODEPENDENTE
A mãe biológica de ‘Iara’, Brigite Salgueiro, vive agora em Vila Seca (Vila Real). Apesar de a ex-toxicodependente dizer que os seus tratamentos de desintoxicação foram pagos por uma tia, a família Carquejo diz ter “provas em recibos e facturas” dos “muitos milhares de euros” gastos na sua recuperação.
MARCA DE ‘IARA’
Tudo na casa dos Carquejo tem a marca de ‘Iara’. Até a escolha do nome pelo qual é tratada foi inspirado no dos filhos biológicos do casal, Imã e Ivan. No vidro traseiro do carro da família não falta um autocolante com os dizeres ‘Iara a bordo’.
SITUAÇÃO REPETE-SE
A decisão do Tribunal de Vila Real que obriga à entrega de ‘Iara’ a Brigite Salgueiro está longe de ser inédita. A menina chegou a viver com a mãe biológica e o seu companheiro quando tinha dois anos. No entanto, estes decidiram devolvê--la à família Carquejo.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)