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Correio da Manhã

Portugal
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Pai conta sexualidade de deficiente

Mário Durval, médico e delegado de Saúde do Barreiro, tem 57 anos, é casado, pai de quatro filhos (um dos quais adoptado) e avô de um bebé de colo. Há mais de 30 anos que convive diariamente com a deficiência: Ana, a sua segunda filha, de 32 anos, é autista e doente bipolar. Partilhou a sua experiência no Encontro sobre Sexualidade na Deficiência, esta semana, no Seixal.
8 de Dezembro de 2006 às 00:00
Pai conta sexualidade de deficiente
Pai conta sexualidade de deficiente FOTO: Sérgio Lemos
“Quando a Ana tinha uns oito, nove meses percebi que ela era diferente: há 30 anos, não se falava de autismo. Andou de especialista em especialista, fez vários exames e ninguém sabia dizer o que ela tinha”, recorda o pai. O diagnóstico de uma deficiência sem cura, veio mais tarde: autismo.
“Como pai foi complicado gerir a situação porque nenhuma família está preparada para lidar com a diferença e a Ana tinha depressões e crises maníacas complexas, mas há muito tempo que não tem”, conta.
Sobre o crescimento de Ana é peremptório: “A minha filha mais velha tem 13 meses de diferença da Ana e sempre a ajudou e protegeu muito, sobretudo na puberdade”.
Ana, actualmente com 32 anos, tem desejos e anseios sexuais iguais aos das outras mulheres. Mário Durval compreende que assim seja: “Quando era mais nova ela tinha manifestações sexuais, olhava para os rapazes e masturbava-se, mas, como ela tem uma doença severa e é incapaz de manter uma conversa, nunca teve relações sexuais.”
A família de Ana – a qual frequenta a Instituição Nós, no Lavradio, Barreiro, desde os onze anos – não tem dúvidas sobre a capacidade afectiva desta rapariga: “Percebíamos que ela gostava deste ou daquele rapaz e encarávamos com naturalidade. Ela é uma rapariga extremamente afectuosa e é muito fácil as pessoas gostarem ou aproximarem-se dela.”
Como pai, o delegado de Saúde do Barreiro, manifesta o desejo das diversas instituições promoverem grupos de auto-ajuda entre as famílias dos deficientes: “Infelizmente não há muita comunicação, mas sinto que fazem falta grupos de apoio porque nenhuma família sabe lidar pacificamente com a deficiência”, diz. E acrescenta: “A minha filha tem uma deficiência severa, não pode estar cinco minutos sozinha e era bom trocar experiências com outros pais que sintam o mesmo do que eu”.
'PELE É O NOSSO MAIOR ÓRGÃO SEXUAL'
No âmbito do Encontro sobre a Sexualidade na Deficiência que ocorreu esta semana, no Seixal, Luísa de Portugal, secretária Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência, lembrou a função da pele na sexualidade: “A pele é o nosso maior órgão sexual e todas as pessoas podem comunicar sexualmente através dela.”
Luísa de Portugal explicou ainda que a pessoa com deficiência pode ter prazer sexual e que existem vários graus de deficiência: “Os deficientes apercebem-se das suas limitações e sentem-se ansiosos, mas podem viver a sexualidade. As mulheres conseguem inclusivamente conceber filhos e tê-los através de parto normal, desde que sejam muito bem acompanhadas”.
PERFIL
Mário Durval nasceu no dia 3 de Março de 1949, em Avis, Alentejo. Licenciou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa e escolheu Saúde Pública como especialidade. É delegado de Saúde Pública no Barreiro, mas já desempenhou o mesmo cargo em terras alentejanas; é também presidente da Associação para a Progressão da Saúde Mental (Persona); membro da Instituição Nós, frequentada pela filha, e é activista do Bloco de Esquerda. Foi candidato à presidência da Câmara Municipal do Barreiro nas últimas autárquicas. Tem quatro filhos.
A DEFICIÊNCIA EM PORTUGAL
- 650 mil portugueses são portadores de deficiência, segundo o último censo, de 2001, do Instituto Nacional de Estatística (INE).
- 10 por cento da população é portadora de deficiência, estima o Secretariado Nacional para a Reabilitação, apesar do número do INE.
- 82 por cento dos portadores de deficiência vive no limiar da pobreza ou em condições de vida muito precárias.
- 54 por cento dos deficientes portugueses é do sexo feminino. Esta tendência de afectar mais as mulheres do que os homens mantém-se há vários anos.
- 80 por cento das mulheres deficientes é inactiva e, por isso, muitas vezes ‘invisível’ para a sociedade.
- 20 por cento das pessoas mais pobres possui algum tipo de deficiência congénita e/ou motora.
ESCLARECIMENTO
Na sequência da notícia ‘Pai conta sexualidade de deficiente’, publicada dia 8, recebemos o seguinte esclarecimento de Mário Durval sobre a afirmação “quando era mais nova, ela olhava para os rapazes e masturbava-se”. “Esta afirmação nunca foi por mim proferida, pois, como essa é uma situação que nunca vi, não podia, logicamente, referi-la. Falei nas duas questões mas separadas uma da outra. Falei nos rapazes e do interesse que a minha filha demonstrava por eles, o que é natural numa adolescente, e falei em separado das práticas masturbatórias, mas que não eram em público. Naturalmente, é desagradável ver esta misturada de momentos diferentes da minha exposição que, relembro, teve lugar num encontro, sobretudo de técnicos, subordinado ao tema ‘Sexualidade na deficiência’.
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