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Correio da Manhã

Portugal
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Pai evita tragédia maior

Foi por pouco que Afonso Martins, 42 anos, não perdeu no mesmo dia o filho e a mulher. No sábado, pelas 15h00, o pequeno Miguel André Martins, de oito anos, que todos supunham estar a brincar no quintal da casa, em Afonsos, Pegões, desapareceu. A mãe, preocupada, ligou ao marido, que estava a trabalhar. "Quando cheguei a casa a minha mulher estava com uma perna dentro do poço, quase a saltar lá para dentro. Só tive tempo de a puxar com uma corda", contou ontem ao CM o pai da criança.
31 de Março de 2008 às 00:30
Afonso Martins impediu a mulher de saltar para o poço onde o filho morreu afogado. A cobertura foi removida pelas autoridades
Afonso Martins impediu a mulher de saltar para o poço onde o filho morreu afogado. A cobertura foi removida pelas autoridades FOTO: Sérgio Lemos

Foi nessa altura que Afonso Martins se apercebeu da tragédia que tinha acontecido. O filho tinha morrido afogado no poço e a mulher queria descer para o salvar. 'Não sei como é que isto pode ter acontecido. Eu que tive a preocupação de cobrir o poço em Novembro, ainda antes de nos mudarmos para cá. Só tinha uma pequena abertura onde cabia apenas um balde de dez litros que usávamos para tirar água.'

De acordo com o relato de Afonso Martins, a criança estava a brincar enquanto a mãe limpava a casa. 'Era o normal. Com tanto espaço verde aqui à volta era um crime mantê-lo fechado em casa', diz o pai.

'O Miguel nunca se afastava de casa nem ia para perto do poço. A gata de estimação dele deve ter caído lá para dentro e quando espreitou deve ter-se desequilibrado.'

Um sapato da crianças junto ao poço alertou os pais, embora o corpo não estivesse visível. Afonso Martins ligou para a GNR de Pegões, que de imediato activou os Bombeiros Voluntários de Canha. Ainda assim foi preciso solicitar o auxílio dos Bombeiros do Montijo, que enviaram uma equipa de mergulhadores para o local.

Já eram 18h00 quando um dos mergulhadores que tinha descido ao poço encontrou o corpo da criança. 'Já não havia nada a fazer.'

O cadáver foi transportado para a morgue do Hospital do Montijo, onde deverá ser autopsiado hoje à tarde. O velório realizar-se-á amanhã e o funeral na quarta-feira, em Pegões.

SENTIMENTO DE CULPA ARRASA PAI

Afonso Martins sente-se culpado pela morte do filho. Tudo porque aceitou ir trabalhar num dia em que era suposto ficar em casa. 'Estava de folga mas um colega faltou e o patrão ligou-me de manhã a perguntar se eu queria ir trabalhar. Um dia de trabalho ainda vale dinheiro e eu aceitei. Agora arrependo-me.' Afonso Martins trabalha na construção civil e é pago ao dia. 'Sinto--me culpado porque quando fico por casa o Miguel nunca sai de ao pé de mim. Pode andar a brincar na rua, mas nunca perde o norte de onde estou. Se eu estivesse cá tenho a certeza de que isto não tinha acontecido.' O pai da criança pergunta-se ainda como pôde a tragédia acontecer: 'Em Novembro, ainda antes de nos mudarmos para cá, tive o cuidado de cobrir o poço de forma a que fosse impossível acontecer uma coisa destas. Na altura os vizinhos disseram-me que não era preciso, que todos têm poços descobertos nos terrenos e ninguém lá caía.'

ROUBARAM ORDENADO NO SOCORRO

Como se a tragédia não fosse suficiente, um grupo de ladrões, em número indeterminado, roubou o ordenado da semana de Afonso Martins enquanto as equipas da GNR e dos bombeiros procediam à operação de socorro. 'O meu patrão tinha vindo trazer-me a casa e ficou por cá para ajudar no que fosse preciso. Tinha levantado 300 euros para pagar os dias que eu e um colega trabalhámos esta semana mas deixou-os na carrinha, que ficou à beira da estrada. Quando voltou à carrinha alguém a tinha aberto e roubado o dinheiro', conta Afonso Martins. 'Parece que foi a gozar, pois ainda deixaram uma nota de vinte euros em cima do banco.' O local onde a carrinha esteve estacionada fica a cem metros do poço onde decorriam as operações de socorro.O patrão já garantiu o pagamento dos ordenados.

APONTAMENTOS

REGRESSO À ESCOLA

Miguel André Martins, de oito anos, frequentava o 2.º ano na Escola Primária de Afonsos. 'Há dias que lhe andava a dizer que a vida boa ia acabar porque as aulas começavam amanhã [hoje] e ele tinha de estudar. Agora já não volta lá', lamenta o pai.

CASA RECENTE

Afonso Martins e a mulher, de 30 anos, viviam na Covilhã, mas a dificuldade em encontrar emprego levou o casal a tentar a sorte na zona de Pegões. Tinham chegado a Afonsos em Dezembro do ano passado.

VESTÍGIOS NO LOCAL

Vinte e quatro horas depois do incidente que resultou na morte do pequeno Miguel Martins, ainda permaneciam um sapato e um boneco de peluche na área envolvente ao poço. A gata de estimação da criança – que terá contribuído para o menino cair no poço – continuava a boiar na água, dezmetros abaixo do nível do solo.

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