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Correio da Manhã

Portugal
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Pai suspeito de matar bebé à pancada

David, de cinco meses, deu entrada no hospital já sem vida. Os médicos confirmaram as marcas de agressão em todo corpo e alertaram a Judiciária. Pai é o principal suspeito.
6 de Abril de 2010 às 00:30
Uma vasta equipa de investigadores da PJ de Leiria e de especialistas do Laboratório de Polícia científica, apoiados por agentes da PSP de Alcobaça, estiveram toda a tarde a fazer perícias no apartamento onde reside o casal
Uma vasta equipa de investigadores da PJ de Leiria e de especialistas do Laboratório de Polícia científica, apoiados por agentes da PSP de Alcobaça, estiveram toda a tarde a fazer perícias no apartamento onde reside o casal FOTO: Rui Miguel Pedrosa

Tinha apenas cinco meses de vida, mas no seu pequeno corpo já se acumulavam marcas de todo o tipo de agressões. David morava em Alcobaça e morreu ontem, às mãos do pai, que à hora de fecho desta edição estava a ser ouvido pela PJ de Leiria, sendo o principal suspeito do homicídio. A detenção ainda não tinha sido formalizada.

O alerta para os Bombeiros Voluntários de Alcobaça chegou ao meio-dia, mas as agressões terão ocorrido horas antes. Embora o quartel se situe a escassos cem metros da casa, o pedido de socorro foi feito via telefone para o 112, sendo os bombeiros mobilizados pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) de Coimbra.

Os socorristas encontraram o bebé inconsciente, sem pulso nem respiração e com escoriações e feridas que causavam hemorragias em várias partes do corpo, sobretudo na cabeça, na cara e na barriga. Apesar da ausência de sinais vitais, foram de imediato iniciadas manobras de reanimação, que só terminaram quando o bebé deu entrada no Hospital de Alcobaça, onde foi confirmada a morte. 'Assim que entrámos em casa e vimos o bebé agarrámos nele ao colo e seguimos o mais rápido possível para o hospital', contou ao CM Ricardo Santos, um dos bombeiros envolvidos no socorro, adiantando que durante a viagem foram tentando a reanimação.

O estado em que o bebé se encontrava chocou não só os bombeiros mas também os médicos de serviço na Urgência, que de imediato alertaram as autoridades policiais.

Segundo uma fonte policial, David, que estava ao cuidado dos pais, Alcindo e Carla, terá sido vítima de maus tratos continuados.

Ontem, a mãe saiu cedo de casa para ir trabalhar, deixando o filho entregue ao pai.

Ao final da manhã, Alcindo foi visto a sair de casa a correr, tendo ainda gritado para um vizinho com quem se cruzou nas escadas que o filho estava a sangrar. Pouco depois chegou Carla, 'com um ar muito aflito', envergando ainda a farda azul do serviço, como relatou uma das vizinhas.

A família reside há poucos meses naquela casa e os vizinhos pouco sabem sobre eles.

Nélia Coelho, uma das vizinhas, costuma ver Alcindo 'a sair de bicicleta para o trabalho', enquanto Carla 'fica em casa a tomar conta do bebé'.

Outra moradora no prédio adianta que 'o bebé chorava de noite', mas 'nunca' se apercebeu de que fosse maltratado pelos pais.

Na praça de táxis a que Alcindo recorre sempre que faz 'as compras do mês' também ninguém relatou qualquer situação de violência. 'Ainda no domingo os vi a passear o bebé no carrinho', contou o taxista Diamantino Peralta.

Os contornos do caso estão a ser apurados pela Polícia Judiciária de Leiria, em cujas instalações estavam ontem à noite a ser ouvidos os pais do bebé.

ALERTA PARA OS BOMBEIROS APONTAVA PARA UMA QUEDA

O pedido de socorro foi feito por telefone, via 112, sendo a chamada encaminhada para o Centro de Orientação de Doentes Urgentes de Coimbra. Quem fez o telefonema – o pai ou outro familiar do bebé – disse aos técnicos de emergência médica que se tratava de uma queda. 'Quando o alerta chegou ao quartel apenas havia indicação de que o bebé estaria inconsciente, em resultado da queda de um carro ou de uma cadeirinha', disse ao CM o comandante dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça, Mário Cerol, adiantando que a ambulância saiu de imediato com três tripulantes.A viagem foi curta, pois a casa fica situada a escassos cem metros do quartel. Quando os bombeiros entraram, estariam na casa 'duas ou três mulheres', e uma delas era a mãe do bebé, que ainda tentou acompanhar o filho na viagem para o Hospital de Alcobaça, o que não lhe foi permitido.

PORMENORES

HOMICÍDIO

Alcindo poderá ser acusado de homicídio qualificado, que prevê uma pena até 25 anos de prisão. O crime é agravado por o bebé ter poucos meses de vida e não ter qualquer hipótese de se defender.

MÃE DESCONHECIA

A mãe esteve todo o dia com as autoridades e garantiu desconhecer os maus tratos de que o filho era vítima. A situação está ainda a ser verificada, podendo aquela vir a responder por omissão de auxílio.

CASO CONHECIDO

Alguns vizinhos já teriam alertado para os maus tratos que o bebé seria alvo. Desconhece--se no entanto se a situação já estava sinalizada na CPCJ.

SOFRIMENTO

O sofrimento do bebé ao longo dos meses poderá ter sido profundo. As marcas no corpo indiciam agressões constantes.

CASAL RESIDIA HÁ POUCO TEMPO NO APARTAMENTO

O casal residia há poucos meses no apartamento arrendado, de tipo T1, num terceiro andar do Bloco 4 da rua Carlos Leão da Silva.

No prédio vivem várias famílias com filhos ainda crianças, mas não era costume Alcindo ou Carla conversarem com os vizinhos. Pedreiro de profissão, Alcindo queixou-se a um taxista que o transportou a casa de ter 'pouco trabalho', pelo que estaria a pensar emigrar para a Holanda, onde residem familiares. Carla trabalha numa empresa que faz limpezas em diversos estabelecimentos da zona, nomeadamente no supermercado Modelo.

SANGUE LAVADO NA CASA

Na casa onde o casal morava com o pequeno David foram feitas várias perícias e detectados vestígios de sangue lavado em algumas divisões do apartamento. Os mesmos vestígios poderão ser da criança, o que poderá confirmar agressões anteriores. Só os exames feitos no Laboratório de Polícia Científica poderão no entanto determinar se o ADN coincide com o do David ou se corresponde a qualquer outro familiar. O facto de terem sido lavados poderá sustentar a tese de que o pai tentara ocultar maus tratos anteriores ao bebé.

Ontem, a Polícia Judiciária de Leiria, apoiada por elementos da PSP, que se deslocaram ao local e por peritos laboratoriais, fizeram um exame exaustivo à casa e às imediações. Até os caixotes de lixo públicos foram revistados, na procura de objectos que pudessem ter sido usados na agressão.

As autoridades tentavam reunir todos os indícios que pudessem sustentar as suspeitas fortes que possuíam. Designadamente de que Alcindo matara o filho bebé, depois de mais um episódio de violentas agressões.

Segundo o CM apurou, não terá sido encontrado qualquer objecto com vestígio de sangue, o que leva as autoridades a acreditarem que David morreu espancado, tendo Alcindo apenas usado as mãos para lhe bater.

A autópsia ao corpo da criança, que deverá ser feita hoje, será também fundamental para perceber a extensão das lesões. Será também importante para verificar se o menino era agredido desde que nasceu ou se as marcas de espancamento são mais recentes.

LETÍCIA: ABUSADA PELO PAI

Com apenas 50 dias de vida, Letícia foi internada no Hospital Pediátrico de Coimbra em Dezembro de 2005, vítima de maus tratos e abusos sexuais praticados pelo pai. Sobreviveu por pouco

MARIA JOÃO: ASFIXIADA

Maria João foi asfixiada o ano passado em São Mamede de Infesta, Matosinhos, pelo pai. João Pinto foi recentemente condenado a 16 anos de cadeia, tendo morto a filha num acto de loucura

CATARINA: ESPANCADA EMCASA

Em Outubro de 2003, Catarina, de 30 meses, foi encontrada em casa do pai com sinais de violência extrema. O pai e a madrasta foram condenados pelo homicídio

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