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Correio da Manhã

Portugal
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PAIS DENUNCIAM ABUSOS EM ESCOLA

“Fiquei muito admirado, mas ao mesmo tempo sinto-me aliviado, isto é um sinal de que não estamos a mentir”. O pai de uma jovem de 17 anos, com trissomia 21, que em Dezembro se queixou de abusos sexuais, reagiu assim ao aparecimento de mais duas denúncias relacionadas com alegadas violações na Associação Portuguesa de Pais e Amigos de Cidadãos Diminuídos Mentais (APPACDM) da Marinha Grande.
23 de Março de 2003 às 00:36
Se há um vigilante para cada dois alunos, onde é que eles estavam?, questiona o pai de uma das jovens
Se há um vigilante para cada dois alunos, onde é que eles estavam?, questiona o pai de uma das jovens FOTO: Direitos Reservados
“Apanhou-nos de surpresa. Espero que isto fique por aqui”, afirmou ontem ao Correio da Manhã, em sua casa, revelando que o dia-a-dia está a ser difícil desde a participação à Polícia Judiciária (PJ) porque “algumas pessoas” na instituição “não querem assumir as responsabilidades”.

A filha, de 17 anos, que frequentava a APPACDM, começou no final do ano passado a recusar ir à escola, acabando por afirmar aos pais que terá sido violada por um colega de 21 anos, na casa-de-banho dos rapazes e de forma violenta, conforme o nosso jornal relatou. A direcção da escola – o estabelecimento é frequentado por 58 pessoas, a maioria dos quais sofrem de mongolismo – negou na altura as suspeitas, assegurando ser “tudo mentira”, mas ontem não esteve disponível para prestar declarações.

O advogado da família é Adelino Granja, conhecido pelo escândalo da Casa Pia, que admitiu conhecer um segundo caso, com uma jovem de 16 anos. “Encaminhei-os para a PJ e disponibilizei-me para ajudar”, referiu. O pai da jovem que saiu da APPACDM em Dezembro faz votos para que tudo se resolva rapidamente. “Quando a escola reunir condições que me satisfaçam, ela volta para lá”.

Assegurando não ter nada “contra a Associação”, levanta dúvidas quanto à versão que a direcção apresenta. “Se há como eles dizem um vigilante para cada dois alunos, onde é que eles estavam?”, questionou. O pai da jovem da Marinha Grande, afirma que não anda “a perseguir” a APPACDM, nem “a incentivar” outras famílias a avançar com queixas e faz votos para que tudo se resolva rapidamente. De acordo com Adelino Granja, o processo “tem sido moroso” e continua “na fase de inquérito junto da Polícia Judiciária”.

PRIMEIRA FAMÍLIA A QUEIXAR-SE DIZ SOFRER AMEAÇAS E PRESSÕES

“Temos sido extremamente violentados com esta situação”, disse ao Correio da Manhã o pai da primeira utente da APPACDM a queixar-se de abusos sexuais no interior das instalações da instituição na Marinha Grande.

Falando de “terrorismo psicológico”, descreve ameaças anónimas feitas por telemóvel e pressões, cara-a-cara, que acontecem na rua, quando menos espera, desde que em Dezembro participou à Polícia Judiciária. Numa dessas ocasiões a insinuação terá subido de tom, embora mantendo-se encoberta no anonimato: “Disseram-me que por dez contos acabavam com isto. O que é que querem? Matar-me?”, pergunta o pai da jovem de 17 anos que diz ter sofrido abusos sexuais mais do que uma vez.

“A minha filha é a pessoa da família que mais precisa de mim. Entendi que não me podia calar”, continuou, assegurando que não o move nenhum desejo de vingança nem está em curso nenhuma perseguição contra a APPACDM. “Eu quero melhorar a Associação”, assegura.
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