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Correio da Manhã

Portugal
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Pais irados fecham escola

Quando Filipe, de 10 anos, é convidado a entrar na sala para conversar com o CM, questiona: “O que foi? Não fiz nada de mal!”. O aluno do 3.º ano conta que já lhe colaram a boca com fita cola, “porque falava muito.” Diz que “as auxiliares não deixam ir para a biblioteca” e que “às vezes não há almoço.” Filipe conta que, sempre que quer, vai para casa. Ninguém o impede.
16 de Maio de 2005 às 00:00
“Há um clima de terror. As crianças chegam a casa a chorar, não querem vir para aqui”, garante Pedro Queiroga, presidente da Associação de Pais da EB1 Maria Luciana Seruca (n.º4 de Paço de Arcos), a escola que está localizada num bairro de realojamento e que conta com 140 alunos.
O ‘clima de terror’ deve-se a várias situações, como relatam os pais: atitudes de racismo para com alunos filhos de imigrantes dos PALOP, da parte de algumas auxiliares da acção educativa; agressões verbais por parte de professores e auxiliares; discussões permanentes entre docentes, que acabam por afectar os mais pequenos.
Uma das situações mais graves, afirma Pedro Queiroga, surgiu quando uma responsável do Centro de Tempos Livres (gerido pelos pais) descobriu haver uma aluna, de 8 anos, que era vítima de abusos sexuais. “Numa aula sobre o aparelho reprodutivo, apontou para o desenho de um pénis e disse que já tinha mexido naquilo”, revela. A criança era abusada pelo irmão do padrasto, de 15 anos. O caso foi denunciado ao Ministério Público, à PSP, PJ e Tribunal de Menores. A coordenadora da escola, afirma o dirigente, “nada fez”. Aliás, a situação da coordenadora “é ilegal, pois está no cargo sem ter sido eleita”.
A DREL já reuniu com pais, escola e agrupamento. “Confirmaram que a situação da coordenadora não era legal, mas ainda nada foi feito”, frisa Pedro Queiroga.
Segundo os pais, “a escola está permanentemente com os portões abertos”. Relatam o caso de uma criança “que só não foi raptada porque o pai ainda estava a entrar no carro e conseguiu evitar que um indivíduo a levasse”.
Em Janeiro, “um grupo de cinco crianças abandonou a escola. As auxiliares sabiam que não iam ter aulas, mas não fizeram nada para impedir a fuga”.
O copo de água transbordou quando o presidente da Comissão Provisória do Agrupamento de Escolas enviou uma nota para os pais dos alunos do 3.º B – cuja professora está de baixa – , a informar: “a partir de hoje os alunos não deverão vir à escola.”
PUXÃO DE ORELHAS DEPOIS DE PEDRADA
Diogo Silva está no 3.º ano e já sofreu na pele as acções das funcionárias da escola. Ou melhor, nas orelhas. Como conta a mãe Paula Silva, “um colega atirou-lhe com uma pedra à cabeça. Ele foi queixar-se e a auxiliar ainda lhe puxou as orelhas. Vim pedir explicações e a mulher assumiu que lhe bateu e que batia as vezes que quisesse”, relata. Já Mariana teve outros problemas. De acordo com Cândida Fernandes, a filha sempre foi saudável até entrar para a escola. No primeiro ano surgiram os problemas. “Como não a deixavam ir à casa de banho, começou a ter problemas de prisão de ventre, não conseguia fazer as necessidades”, recorda.
EM DEFESA DOS FILHOS
CONTRA O TERROR
Os professores discutem e insultam-se em frente aos alunos; há ameaças a alunos e agressões de auxiliares
de acção educativa.
RACISMO, NÃO
Os pais acusam algumas funcionárias da escola de atitudes racistas em relação a alunos filhos de imigrantes dos PALOP.
REPOR A LEGALIDADE
A coordenadora da escola não foi eleita para o cargo. A Associação de Pais diz que há usurpação de forma dolosa e quer que a DREL e o Agrupamento de Escolas de Paço de Arcos resolva a situação.
SEM REGULAMENTO
O Agrupamento não tem assembleia constituinte, pelo que não há regulamento interno. Os pais querem a demissão de Paulo Mota Liz, presidente da Comissão Provisória.
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