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Correio da Manhã

Portugal
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Pancadaria em rave na praia

A festa era em honra da Nossa Senhora da Soledade, mas de católica teve pouco. Muito álcool e drogas à mistura já seriam, por si só, motivo para uma madrugada de risco na praia do Porto Covo, em pleno Litoral Alentejano – a violência, numa ‘rave’ com mais de 15 mil pessoas, entre as 0h00 e as 07h00, encarregou-se ontem do resto.
29 de Agosto de 2005 às 13:00
Pancadaria em rave na praia
Pancadaria em rave na praia FOTO: José Carlos Campos
Convidados pela junta de freguesia – organizadora do evento – para garantir a segurança na praia, os nadadores-salvadores da associação Resgate não tiveram mãos a medir – e impediram o pior.
O objectivo inicial era “tentar dissuadir milhares de pessoas a entrarem dentro de água”, conforme contou ao CM o coordenador da Resgate, António Mestre.
Mas a tarefa revelou--se bem mais difícil. “Acabámos por prestar socorro a todo o tipo de ocorrências – comas alcoólicos, agressões físicas, entorses, canas de nariz e braços partidos”.
Violência que segundo a mesma fonte tem uma explicação: “Há grupos de jovens de terras rivais, essencialmente entre os 16 e os 20 anos, que se envolveram em agressões com pessoas que estavam lá só para se divertirem”. E o intuito, diz, “era provocar e roubar telemóveis, dinheiro e outros valores”.
Só que a noite não acabou por aqui. “Há muitas pessoas que depois de beberem e consumirem drogas em excesso querem ir para dentro de água, isso obrigou-nos a fazermos uma linha de segurança à beira-mar, com holofotes para visualizar e retirar as pessoas do mar”.
António Mestre conta que “uma miúda de 18 anos, por exemplo, estava a ser medicada e, segundo o namorado, ingeriu demasiado álcool – teve que ser evacuada para o Hospital do Litoral Alentejano”, em Santiago do Cacém.
Um caso que, de isolado não teve nada – “retirámos várias pessoas de dentro de água, entre elas uma jovem de 25 anos que estava deitada à beira-mar completamente inconsciente. Prestámos-lhe os primeiros socorros e foi levada em ombros para a ambulância”.
O coordenador da Resgate não tem dúvidas: “Para além das muitas que assistimos na praia, pelo menos oito ou nove pessoas foram levadas para o hospital”.
Confrontado com a situação, o capitão Matos e Sá, comandante da Polícia Marítima de Sines, afirmou que os dez elementos que patrulharam a festa – aos quais se juntaram cerca de 30 militares da GNR – “não registaram qualquer queixa por assalto ou agressão. Houve, de facto, uma ou outra queda acidental nas escadas, mas que apenas resultaram em escoriações na cabeça e membros”.
Mas António Mestre sabe do que fala. “A Polícia Marítima estava lá e viu a azáfama em que as ambulâncias andaram toda a noite – vamos fazer um apanhado do que aconteceu na festa para entregar na junta de freguesia, com o conhecimento da capitania”.
Quanto a Cândido Rodan, sócio da empresa de audiovisuais Alfasom, responsável por toda a luz e som que deram cor à ‘rave’, considera que “é difícil de controlar uma festa de entrada livre, em que vem gente de todo o lado”.
De manhã, um sentimento sobrepôs-se ao cansaço dos nadadores-salvadores – o de dever cumprido. “A nossa acção conseguiu evitar várias situações de afogamento iminente”.
TESTEMUNHOS
"GEROU-SE A CONFUSÃO" (Filipe Leal, Estudante)
"Estive na festa com amigos e constatei que houve alarido por volta das 04h00 ou 05h00. Algumas pessoas queriam ir tomar banho e os nadadores-salvadores tentaram impedir. A partir daí gerou-se a confusão. Quem estava mais longe não se deve ter apercebido."
"HAVIA GRUPOS NO AREAL" (Pedro Morgado, Estudante)
"Quando cheguei, já a ‘rave’ estava no fim. Eram 07h00 da manhã. Nem sequer havia música. Verifiquei que havia muitos grupos espalhados pelo areal. Deve ter estado aqui imensa gente. Nessa altura estava tudo calmo e pacífico. O normal em fim de festa."
"EXCESSO DE BEBIDA" (José Vidal, Empregado do bar)
"Era notório que muitos jovens aparentavam excesso de bebida. Mas isso, acho eu, é normal numa festa deste tipo. Fechámos o bar pelas quatro e pouco e, junto ao estabelecimento, o ambiente era normal. Depois, estive mais um pouco na praia e fui-me embora."
"PROTESTOS PELA DEMORA" (Nuno Espada, Estudante)
"Havia muita gente! A praia estava cheia. Muito mais pessoas que no ano passado. Cheguei por volta das três e fui-me embora às 05h00. Durante esse período ouvi muitas pessoas queixarem-se por terem de esperar uma eternidade pela comida e bebida."
"VÁRIOS INCIDENTES"
As tradicionais festas de Porto Covo – entre a passada sexta-feira e amanhã, em honra da Nossa Senhora da Soledade, não se deixam ensombrar pelos incidentes da madrugada de ontem. Essa, pelo menos, é uma certeza para o presidente da Junta de Freguesia, Luís Gil, que organizou a ‘rave’.
Afinal, “a maioria das pessoas de ontem à noite não são de Porto Covo, mas sim das redondezas – Sines, Santiago do Cacém, Grândola e Setúbal, por exemplo”. “Mas sabemos também que havia muita gente de Lisboa e de outras zonas do País”, disse ao CM.
Segundo a mesma fonte, “houve, de facto, vários incidentes entre as pessoas mas não se podiam controlar nem é da nossa responsabilidade, mas sim da Polícia Marítima – eles têm a função de patrulhar o domínio público marítimo”.
Luís Gil revela que “há sempre aqui uma série de incidentes durante as férias. Às vezes parece que as pessoas acham que este é o palco ideal para resolverem os seus problemas”, lamenta.
O comandante dos Bombeiros Voluntários de Sines, Vítor Gonçalves, confrontado com o trabalho redobrado a que foram sujeitos, entre as 00h00 e as 07h00 de ontem, confirma o transporte de algumas pessoas ao hospital, “por doenças súbitas, agressão e quedas”.
Mas apesar das evidentes marcas de violência, o pesadelo não se alastrou, naturalmente, a 15 mil pessoas. Houve também quem tivesse uma noite descansada.
AVANÇA PLANO CONTRA O CONSUMO
O Instituto da Droga e da Toxicodependência vai desenvolver campanhas de sensibilização em ‘raves’ e discotecas ‘after hours’ para travar o consumo de drogas, nomeadamente ecstasy, revelou ontem ao Correio da Manhã o presidente daquele organismo, João Goulão.
“Esta é, sem dúvida, uma das áreas onde planeamos actuar”, sublinhou aquele responsável, acrescentando que essa intervenção será levada a cabo “nos próprios locais de consumo” e numa perspectiva de minimização de “danos e riscos”. Segundo o presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência o plano estará pronto até ao final de Setembro, sendo as ‘raves’ e as discotecas uma das áreas a privilegiar.
João Goulão espera que, ainda este ano seja possível desenvolver algumas acções pontuais, embora que este trabalho seja ainda “pouco consistente”.
“É natural que ainda haja espaço para aplicar algumas das medidas traçadas no plano, mas a nossa aposta vai para 2006”, disse.
Além das ‘raves’ e discotecas, o Instituto da Droga e da Toxicodependência estará particularmente atento a outras iniciativas que movimentam grande número de jovens e onde o consumo de drogas ganha maior expressão.
“Estou a pensar, por exemplo, nos festivais de Verão. No próximo ano, estaremos presentes em todas as iniciativas do género, alertando os jovens para os perigos decorrentes do consumo de estupefacientes e os seus efeitos”, disse João Goulão.
A opção do Instituto passa, claramente, pelo contacto directo com os consumidores e potenciais consumidores, em detrimento de campanhas televisivas, na Imprensa e ‘out doors’. “O consumo nestes locais e ambientes é diferente, pelo que tem de ser tratado de maneira distinta”, concluiu.
OUTROS CASOS
19-02-2005
Numa operação stop em Penso (Sernancelhe), a GNR de Viseu deteve um indivíduo, de 20 anos, na posse de 500 doses (274 gramas) de haxixe. O homem seguia numa viatura a caminho de uma discoteca da Vila da Ponte, para onde estava marcada uma ‘rave’, suspeitando-se que a droga seria para comercializar na festa.
10-03-2005
A Polícia Judiciária do Funchal deteve quatro suspeitos de pertencerem a uma das “principais redes de introdução de estupefacientes” na Madeira, quando se preparavam para introduzir na região “três mil comprimidos de ecstasy e cerca de 100 mil doses de haxixe”. Os indivíduos também organizavam ‘raves’, onde o produto era transaccionado.
23-03-2005
Um autocarro de turismo, alugado para transportar um grupo da zona da Outorela a uma festa ‘rave’ em Albufeira, no Algarve, foi interceptado pela PSP, à saída de Carnaxide, em Oeiras. Foram efectuadas oito detenções – quatro homens e quatro mulheres, com idades compreendidas entre os 19 e os 28 anos - tendo sido apreendidos 94 comprimidos de ecstasy, 117,42 gramas de haxixe e 1,23 gramas de cocaína, além de spray neutralizante.
04-12-2004
A BT interceptou uma viatura, nos Cabos d’Ávila (Amadora), tendo encontrado drogas na posse dos quatro ocupantes. Suspeita-se que os estupefacientes se destinavam a uma ‘rave’ no sítio de Vale de Cavalos, entre Alcabideche e Malveira da Serra, no concelho de Cascais.
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