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Correio da Manhã

Portugal
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“Parecia um bicho quando disparou”

António Cunha, candidato do PS à Junta de Freguesia de Ermelo, em Mondim de Basto, sabia que ia perder mais uma vez as eleições para Glória Nunes. Completamente transtornado, o homem entrou ontem, pelas 07h30, na escola de Fervença, onde estava uma mesa de voto, e com um tiro na cabeça matou Maximino Clemente, de 58 anos, marido da candidata do PSD e antigo militar da GNR.
12 de Outubro de 2009 às 00:30
Glória ficou em choque quando soube que António tinha assassinado o seu marido
Glória ficou em choque quando soube que António tinha assassinado o seu marido FOTO: José Rebelo

“Estávamos à espera dos delegados do PS, que ainda não tinham chegado. De repente, vejo o Cunha à porta, tinha o cabelo para o lado e estava com os olhos arregalados. Parecia um bicho. Trazia uma caçadeira na mão, apontou-a ao Maximino, disparou e saiu sem dizer nada. O Maximino não viu nada.  Morreu sem saber quem o matou”, contou ao CM Armindo Marques, que também estava na mesa de voto.

Após matar Maximino, António pôs-se em fuga. Horas depois o seu carro foi encontrado na Régua, juntamente com a arma do crime. Ao final da manhã o homicida ligou para militantes do PS a quem contou ter levado um tiro no pé e estar numa clínica. António afirmou ainda que durante a noite foi alvo de uma emboscada por parte de membros do PSD, alegando ser essa a razão que o levou a matar Maximino.

De facto, a 150 metros do local do crime a PJ encontrou invólucros de uma pistola calibre 6,35 mm. No entanto, não existia qualquer rasto de sangue, nem há qualquer confirmação de que o candidato do PS tenha realmente sido alvejado.

Após saber que Maximino tinha morrido, a família correu para o local. Em choque, Glória Nunes, mulher do ex-GNR e candidata do PSD, não conseguia acreditar no que tinha acontecido. “Ele roubou a vila e agora roubou-me o meu marido, tudo o que tinha na vida. É um assassino”, gritou, entre lágrimas, no momento em que o corpo do marido era retirado do local.

A PJ contactou a família de António, que alegou não saber onde o homem se encontra. Tudo indica que durante o dia de hoje se irá entregar à polícia.

PORMENORES

DELEGADOS DO PS

Os delegados do PS que deveriam ontem estar presentes na mesa de voto de Fervença não chegaram a comparecer.

ELEIÇÕES REPETIDAS

As eleições em Ermelo vão ser repetidas no próximo domingo. Comissão Nacional de Eleitores justificou que o "tumulto" não permitiu o acto eleitoral.

PODE SER ELEITO

Mesmo sendo acusado de um homicídio, António Cunha pode ser eleito. E no domingo o seu nome constará dos boletins de voto.

"ELE PLANEOU MATÁ-LO HÁ VÁRIAS SEMANAS"

A família de Maximino está convicta de que António Cunha planeou o crime há várias semanas e que se dirigiu ontem de manhã à escola com intenção de matar. "Ele planeou mata-lo há várias semanas. Sabia perfeitamente que o meu sogro estava ali àquela hora. Ele foi ali para o matar, só isso explica por que ia de caçadeira na mão", contou ao Correio da Manhã Armindo Henrique, genro de Maximino.

De facto, existem vários indícios que levam os investigadores da Polícia Judiciária a acreditar que António premeditou o crime. A família do homicida desapareceu da aldeia há alguns dias, e este fez o mesmo logo após cometer o crime. Para além disso, das duas mesas de voto existentes em Ermelo, António Cunha escolheu precisamente aquela onde Maximino Clemente se encontrava.

"DISSE QUE ME MATAVA SE NÃO VOTASSE NELE"

Os habitantes de Ermelo há muito que se queixavam de António Cunha e das ameaças que este lhes fazia. Várias pessoas tinham inclusive apresentado queixas na GNR contra o candidato do PS. "Há 15 dias ele foi a minha casa e ameaçou-me. Disse-me que se não votasse nele me matava a mim, à minha família e à D. Glória. Não fomos nós, foi o Maximino. Ele tinha de matar alguém", contou ao CM Eduardo Gonçalves.

Segundo Eduardo, António tinha avisado que se não ganhasse as eleições ia haver mortes. "Disse que se não ganhasse entrava na sala e matava toda a gente", contou ainda Eduardo Gonçalves.

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