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Correio da Manhã

Portugal
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PASSA A VIDA A ‘DAR’ GRAXA

Sentado numa cadeira rente ao solo, empunhando uma escova, uma lata de graxa, um pincel ou um pano para polimento, e trocando dois dedos de conversa com os clientes. É assim o dia-a-dia de Albino de Oliveira, engraxador com 50 anos de idade e 15 de serviço.
18 de Maio de 2003 às 00:04
Albino Oliveira, 50 anos
Albino Oliveira, 50 anos FOTO: Carlos Figueiredo
Instalado na Praça da República, no coração de Viseu, este homem teve uma vida marcada pelo trabalho e pelo sacrifício. Ainda muito jovem, com apenas 14 anos, saiu da escola em Mões, aldeia onde nasceu, situada no concelho de Castro Daire, rumando com o seu pai para Lisboa, onde começou a trabalhar na construção civil.
"O meu pai tirou-me da escola e fui com ele para trabalhar. Estive em Lisboa durante mais de dois anos. Eram tempos muito difíceis" afirma. Acabaria por deixar a construção civil, depois de ficar ferido num acidente de viação. "Ia a conduzir a minha motorizada e um cão lançou-se para a minha frente. Tive que me desviar e acabei por bater numa carrinha que estava estacionada. Levei 76 pontos neste joelho", lembra o engraxador, apontando para a perna direita. A partir dessa data teve de se dedicar a uma profissão que fosse fisicamente menos exigente.
Fixou então residência em Viseu, onde mora há 28 anos com a sua mulher e cinco filhos. "Tenho duas filhas já casadas e três rapazes, um deles com quatro anitos" diz, orgulhoso.
Quase por acaso, tornou-se engraxador. "Não havia outros trabalhos e acabei por me dedicar a esta profissão.”
"Faço isto porque preciso do dinheiro" confessa, acrescentando que não tem "outro remédio senão gostar desta actividade". Contudo, acabou por desenvolver algum amor pelo que faz, confessando que, enquanto puder, vai ser engraxador.
Uma das coisas de que mais gosta na sua profissão é do contacto directo com as pessoas: "Ficamos a conhecer muita gente e criamos alguns clientes fiéis." Os fregueses aproveitam os "cinco minutos que demora a engraxar os sapatos" para "descansar e conversar", sendo que alguns ficam até seus amigos.
"Há um senhor brasileiro, que costuma aqui passar nos fins-de--semana, que fica aqui durante um bocado a contar anedotas. É uma pessoa muito divertida e um bom amigo", salientou.
Questionado sobre a rentabilidade desta profissão, Albino frisa que há dias que "dão algum dinheiro" e outros que "dão menos", já que os clientes aparecem de forma muito inconstante. "Há uns anos tinha muita clientela. Hoje, com o pouco que ganho, lá vou conseguindo viver, também graças à ajuda que os meus filhos, que estão a trabalhar, nos dão, a mim e à minha mulher", afirma.
Quanto ao futuro dos engraxadores, este homem não tem ilusões: "Somos cada vez menos e tenho quase a certeza que esta profissão vai desaparecer daqui a alguns anos”, apontando as razões para sustentar a sua opinião:
"Muitos não se dedicam a esta actividade por vergonha. O Governo também não tem ajudado muito, porque o rendimento mínimo leva a que as pessoas prefiram ficar em casa, a terem que trabalhar para ganhar dinheiro", disse.
Albino também não tem certezas quanto ao seu próprio futuro, já que o espaço que ocupa pertence à Câmara Municipal de Viseu. "Estou aqui a pagar uma renda, mas já ouvi dizer que a Câmara pode vir a tirar os engraxadores daqui. Eu espero poder ficar por muitos anos. Isto é a única coisa que sei fazer e, com a minha idade, ficar sem o meu cantinho para trabalhar é perder tudo", concluiu.
CLIENTE FUGIA SEM PAGAR
Entre as muitas situações que lhe sucederam nestes 15 anos de serviço, Albino de Oliveira destaca uma pelo seu lado cómico. “Há uns tempos, tive um cliente que, por duas vezes, veio aqui engraxar os sapatos e, com a desculpa de ir ao café trocar o dinheiro, fugiu sem pagar” lembra o engraxador. “O descarado teve a coragem de aparecer cá pela terceira vez e deu a mesma desculpa. Mas como eu já estava prevenido, não fui na conversa dele e, quando ele foi ao café, eu fiquei à espera junto à porta. Quando ia a sair surpreendi-o e obriguei-o ali na hora a pagar-me pelos três serviços que me devia” refere com um sorriso nos lábios. “Não estou aqui a trabalhar para aquecer. Se faço um serviço, acho por bem que mo paguem na hora”.
DOA TÍPICO
09h00 - CHEGADA
Albino de Oliveira chega ao local de trabalho, ao guiador de uma motorizada, a sua “companheira”. Abre a porta da “barraca” e começa a organizar o material, verificando se ainda tem latas de graxa. Com tudo preparado resta-lhe aguardar que surjam os clientes.
10h00 - LIMPAR OS SAPATOS
Com uma escova, Albino limpa os sapatos do cliente de modo a eliminar todo o tipo de sujidade. Esta é a primeira operação no processo de engraxar, essencial porque as partículas de poeira poderiam riscar ou danificar o calçado na altura do polimento.
11h30 - ENGRAXAR
A graxa é aplicada com um pincel, de modo a cobrir toda a superfície do calçado. Nos sapatos de cor clara usa-se uma pomada incolor específica.
15h00 - POLIR
Depois de aplicada a pomada é necessário o polimento. Albino usa um pano para dar brilho aos sapatos que ficam como novos.
19h00 - PARTIDA
Chegada a hora de regressar a casa, o engraxador conta o dinheiro que recebeu durante o dia, arruma o material e fecha a porta da “barraca”.
B.I.
Na actualidade, em Viseu, apenas dois engraxadores continuam em actividade. Há dez anos havia sete, espalhados pela cidade. Não existem dados precisos quanto ao seu número a nível nacional, mas o futuro desta actividade não se afigura nada animador face ao desinteresse dos jovens.
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