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Correio da Manhã

Portugal
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PASSAGEM DO IC19 TINHA DEFEITOS

Afinal, a passagem aérea pedonal que ruiu domingo sobre o IC 19, causando três feridos, tinha defeito de fabrico, concluiu a comissão nomeada para realizar um inquérito às causas do desabamento da estrutura.
11 de Setembro de 2003 às 00:00
Há 23 pontes iguais à que caiu, anunciou o presidente do IEP
Há 23 pontes iguais à que caiu, anunciou o presidente do IEP FOTO: José Barradas
Segundo o vice-presidente do Instituto das Estradas de Portugal (IEP), Sousa Marques, passagens daquele tipo são fabricadas para durar 50 anos e aquela, ao fim de 14, já tinha as ligações corroídas. Fenómeno que só foi descoberto pelos investigadores do IEP depois do acidente. A construtora da ponte de Queluz de Baixo é a ‘Pavicentro’, que ao CM prometeu comentar as acusações em breve.
O alegado defeito só foi descoberto agora porque aquele tipo de estruturas, que já não se fabricam, tem as ligações (como parafusos) escondidas pela argamassa, indicou ao CM Sousa Marques, acrescentando que “só partindo-as” é que se pode descobrir o seu real estado de conservação.
Assim, as inspecções realizadas à passagem pedonal, instalada no local há 14 anos, nunca detectaram a corrosão, pois “ninguém a via”, reforçou Carlos Bicas, responsável do IEP para as Obras de Arte e Estruturas Especiais e presidente da comissão nomeada para o inquérito.
Além dos “defeitos conceptuais” da estrutura, “terão” contribuindo ainda para a queda da passagem pedonal “o repetido embate de veículos” e as obras realizadas pela Soproel na madrugada e manhã de domingo.
As obras, que seriam concluídas durante a madrugada de segunda-feira, foram realizadas sem projecto (desenho). Mas, segundo o presidente do IEP, Ribeiro dos Santos, “todos os trabalhos foram programados. E nada indiciava o que aconteceu”, acrescentou, reafirmando a confiança nos funcionários do IEP, inclusive no fiscal que acompanhou os trabalhos e reabriu o IC 19 ao trânsito.
Na conferência de imprensa realizada ontem para divulgar os resultados do inquérito foi ainda revelado que em Portugal há mais 23 pontes iguais à que ruiu. Estruturas que estão a ser inspeccionadas, num trabalho que terminará dentro de seis dias, garantiu Ribeiro dos Santos, referindo que as pontes que revelem fragilidades serão vistoriadas (com remoção da argamassa) e substituídas se estiverem em mau estado.
Ribeiro dos Santos anunciou ainda que a passagem que caiu será resposta no prazo de 40 dias.
RESPONSABILIDADES
O Instituto das Estradas de Portugal assumiu todas as responsabilidades do acidente, incluindo custos médicos e danos materiais, mas o PS, o PCP e BE exigiram a demissão do presidente do organismo. Ribeiro dos Santos respondeu que o seu lugar “está sempre à disposição”, uma vez que foi nomeado pelo Governo.
"TIVE SENSAÇÃO DE MORTE"
Fazia 45 anos do domingo. Estava feliz. Tinha passado a tarde num ginásio e regressava a casa, em Massamá, quando a passagem pedonal ruiu.
“Foi horrível! Tive uma sensação de morte e de impossibilidade de sair dela.” Maria de Lurdes Cipriano é agente principal de PSP no Comando de Lisboa. Sozinha, saiu do carro e deitou-se no chão à espera do socorro, que não tardou. Com dores e uma vértebra fracturada, está internada no serviço de Ortopedia no Hospital Amadora-Sintra e tem dificuldade em dormir. “Fecho os olhos e fico aflita.”
"ELAS SALVARAM-ME A VIDA"
Já tinha imaginado que poderia cair de uma ponte. Ou até ficar debaixo de um avião, uma vez que trabalha no Aeroposto de Lisboa. “Agora cair-me uma ponte em cima...”, Joaquim Carvalho emociona-se quando recorda aquele domingo. Saído do aeroporto, percorria o IC 19 para ir ter com a irmã a Queluz, quando ficou com as pernas presas pela estrutura de betão. E lacrimeja ao recordar as duas bombeiras que lhe tiraram o cinto. “É que eu estava sufocar e elas salvaram-me a vida”, conta, internado no Amadora-Sintra com as pernas e um braço fracturados.
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