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Correio da Manhã

Portugal
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Passaram um martírio

Cerca de duas mil pessoas participaram ontem no funeral da mãe e dos dois filhos encontrados mortos na terça- -feira na sua habitação em Santiago, Viseu. A cerimónia ficou marcada por muita emoção e por uma homilia concisa mas explicativa de um caso que chocou a população. Por vontade do marido e pai – o sargento da GNR Fernando Costa Gomes –, os três ficaram sepultados na mesma campa, situada a poucos metros da vivenda da família, onde a mãe matou os dois filhos e se suicidou.
14 de Setembro de 2007 às 00:00
Milhares de pessoas participaram ontem nos funerais de Filipe Costa, de 8 anos, Maria João Costa, de 11, e da Maria Helena Campos, encontrados mortos no interior da casa onde viviam
Milhares de pessoas participaram ontem nos funerais de Filipe Costa, de 8 anos, Maria João Costa, de 11, e da Maria Helena Campos, encontrados mortos no interior da casa onde viviam FOTO: Nuno A. Ferreira
O padre que realizou o funeral precisou apenas de cinco minutos para, aproveitando-se de uma passagem dos Evangelhos, se referir às circunstâncias em que se verificou a morte das duas crianças, Maria João e Filipe. “Jesus disse ‘Deixai vir a mim as criancinhas’. Ele queria as crianças perto de si, e estas que hoje acompanhamos já estão perto dele. Passaram um martírio violento para verem Jesus, para o conhecerem de uma maneira nova”, afirmou o sacerdote José Morujão, que também não se esqueceu de Maria Helena Campos, autora do duplo homicídio seguido de suicídio: “À misericórdia infinita de Deus recomendamos também esta mãe.”
Durante a manhã, foram milhares as pessoas que se deslocaram à Igreja de Nossa Senhora da Conceição para prestarem homenagem à mulher e aos dois filhos. Vindo de várias localidades, as pessoas não seguraram as lágrimas quando, no interior do templo religioso, se depararam com as três urnas – a mulher estava ao centro, ladeada pelas duas urnas brancas com os corpos dos filhos. O sargento da GNR Costa Gomes manteve-se sempre por perto e tocava-lhes de vez em quando.
As pessoas continuam “incrédulas” com as circunstâncias em que se verificaram as três mortes que dizimaram esta família. “Ela não podia fazer aquilo aos filhos, mas a gente não sabe aquilo que lhe ia na cabeça”, desabafou Maria Rodrigues, que ficou “chocada” sobretudo “com a morte dos meninos”.
A mulher, que sofria de um tumor na cabeça e de depressão, estrangulou o filho, degolou a filha com uma faca eléctrica e depois cortou a garganta.
AGARRADO A TRABALHO DO FILHO
Fernando Costa Gomes, marido e pai das vítimas e sargento da GNR de Viseu, foi confortado pelos irmãos e pelos amigos, que não o largaram por um minuto. Manteve-se sempre sereno, com os olhos fixados nas urnas onde estavam os familiares que acabara de perder de uma forma que nunca julgou ser possível acontecer. Sempre agarrado a uma pasta verde – que se supõe ser um trabalho escolar do filho –, Fernando Costa não arredou pé do local e recebeu muito apoio, sobretudo das dezenas de colegas da GNR presentes. Durante a missa, o sargento não se sentou por uma única vez e esteve sempre muito pensativo. Na hora em que as urnas saíram da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Fernando Costa Gomes acompanhou primeiro a do filho e depois foi buscar, a meio do caminho, a da filha. De seguida meteu- -se no carro funerário, enquanto atrás se preparava a outra viatura, que transportou a urna da mulher. O cortejo fúnebre seguiu depois de carro para o Cemitério de Santiago, atravessando ruas com centenas de pessoas que tão cedo não esquecerão a tragédia da família Campos Gomes.
PORMENORES
ESCUTAS E GNR
No meio da multidão que participou nos funerais distinguiram-se muitos elementos da GNR e alguns agentes da PSP e da Polícia Municipal. Elementos do Corpo Nacional de Escutas e da Associação Guias de Portugal – à qual as crianças pertenciam - também lá estiveram.
HOMENAGEM
Antes do início da missa de corpo presente, os escuteiros homenagearam as duas crianças, cantando o hino do grupo. No final, duas amigas da Maria João leram um texto que emocionou a assembleia.
AUTOCARROS
A empresa de camionagem Berrelhas, onde Maria Helena foi funcionária durante 15 anos, disponibilizou dois autocarros que transportaram as pessoas até ao cemitério.
INVESTIGAÇÃO
A PJ continua as investigações e aguarda pelos resultados das autópsias para apurar se a mulher ou as crianças estavam sedadas na hora do crime.
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