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Correio da Manhã

Portugal
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PASSOU A VIDA A CALÇAR ANIMAIS

Manuel Gonçalves Rebelo tem 79 anos e reside na Vela, Guarda, e passou a vida a ferrar animais, de terra em terra. Herdou a arte do pai tendo tido o primeiro contacto com a profissão aos 16 anos. Mesmo na tropa, foi ferrador de cavalos e mulas do Exército. Hoje queixa-se da falta de clientes pelo facto de os burros e de os cavalos já serem poucos e da maquinaria ter substituído os animais, nos trabalhos agrícolas.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Manuel Rebelo, 79  anos
Manuel Rebelo, 79 anos
Manuel Rebelo, conhecido na região por Manuel ‘Ferrador’, ainda ‘calça’ (ferra) os animais, mas assegura que “já não é como antigamente”.
Durante 35 anos trabalhou juntamente com um irmão também ferrador, mas a sociedade foi desfeita há 18 anos. De então para cá, Manuel tem trabalhado sozinho, notando que a procura tem diminuído de ano para ano.
“Praticamente já ninguém ferra os animais. Os burros e os cavalos também já são poucos, porque antigamente eram utilizados como meio de transporte e na lavoura, mas agora, com a maquinaria agrícola, já são poucas as pessoas que têm animais. A maquinaria acabou com tudo e substituiu os burricos e o cavalo”, diz com mágoa.
O último ferrador de animais da Vela – onde já chegaram a existir cinco – lembra também que quando começou a exercer a arte “era tudo muito diferente”.
“Eu e o meu irmão praticamente não tínhamos um minuto de descanso. Tínhamos sempre trabalho, de manhã à noite. Mesmo depois de termos deixado de trabalhar um com o outro, eu tinha dias de ferrar uns quinze animais. Chegava ao fim do dia rebentado de todo”, contou.
Agora, Manuel ‘Ferrador’, afiança que os tempos são outros. “Para trás ficaram deslocações a praticamente toda a região e até a localidades espanholas. Agora, passam-se meses que não tenho um serviço. Tudo isto tem tendência para acabar”.
O ferrador de animais não se mostra arrependido por ter escolhido a profissão que herdou do pai, mas lamenta que a mesma tenha os dias contados.
“Os ferradores que existem aqui na zona contam-se pelos dedos e alguns só fazem o serviço para eles. Como é uma profissão dura, os mais novos desinteressaram-se. Mais dia menos dia, os animais também acabam e já ninguém se interessa por isto”.
Arrependido por ter abraçado a profissão? “Não, apesar de verificar que outros rapazes da minha idade, que foram para a GNR e para a PSP, viveram sempre mais regalados, porque esta é uma profissão suja e muito dura”, afirma.
Em média, Manuel ‘Ferrador’, que tem a oficina num anexo da sua residência onde também fabrica artesanalmente as ferraduras que coloca nos animais, demora cerca de uma hora a ferrar um burro e uma hora e meia a ‘calçar’ um cavalo.
“Mas tudo depende se o animal se porta bem, se é mansinho, e do tamanho do casco, porque se o casco for muito alto, demora mais tempo a cortar”, esclarece.
Ferrar um burro custa 25 euros e um cavalo 30 euros. A colocação das ferraduras obedece a critérios rigorosos para evitar que as mesmas possam “magoar o animal”.
É por isso que o ferrador ainda fabrica as ferraduras à medida de cada animal. “As pessoas telefonam com antecedência e como eu já conheço o animal, faço as ferraduras à medida”.
“É mais fácil ferrar um burro do que um cavalo, porque o burro é mais pequeno e o cavalo tem mais força”. Em todo o caso, Manuel ‘Ferrador’, esclarece que alguns burros “também têm muita força e por vezes não nos facilitam o trabalho”, concluiu.
PATADA DE CAVALO DOLOROSA
Ao longo dos 63 anos do exercício de profissão, Manuel Rebelo, que conhece muito bem a ‘mania’ dos animais com que lida, só foi ferido uma vez por um cavalo. “Felizmente nestes anos todos tive muita sorte. De vez em quando lá apanhava com uma sacudidela ou outra dos burros ou dos cavalos, mas nada de anormal, só que numa ocasião, fiquei bem marcado”, refere.
“Foi um dia em que estava a ferrar um cavalo, uma grande animal. Nessa altura, um rapaz segurava a pata do cavalo, mas o animal em vez de estender a pata para trás, mandou-a para a frente e apanhou-me em cheio nas nádegas. Fiquei todo negro e cheio de dores. Foi a pior situação que vivi, mas mesmo assim, dorido e tudo, não deixei de trabalhar”, recorda.
BILHETE DE IDENTIDADE
Até meados do século passado, rara era a aldeia que não tinha um ferrador de animais. A realidade é agora bem diferente. Com a crise da lavoura e com a modernização agrícola, são poucos os animais que auxiliam os agricultores e os mestres ferradores praticamente desapareceram.
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