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Correio da Manhã

Portugal
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Patos salvam caçada

Sete tiros, sete patos. A pontaria certeira é do caçador Fernando Cardoso, que há 22 anos caça na Zona Associativa de Caçadores do Rio Foja, em Montemor-o-Velho. Ontem, dia da abertura oficial da época de caça ao pato, coelho-bravo, lebre, codorniz, galeirão e galinha-de-água, não foi excepção.
3 de Setembro de 2007 às 00:00
Meia centena de caçadores reuniu-se ontem – na abertura da caça aos patos e coelhos – no Baixo Mondego. Os exemplares abatidos e o convívio garantiram um dia bem passado
Meia centena de caçadores reuniu-se ontem – na abertura da caça aos patos e coelhos – no Baixo Mondego. Os exemplares abatidos e o convívio garantiram um dia bem passado FOTO: Ricardo Graça
“Prefiro vir à caça do que ir de férias”, garante este empresário da construção civil, de 58 anos, que deve a pontaria ao treino de tiro aos pratos. “Adoro isto, dá-me prazer”, diz, contando que “nem é tanto pelas peças” mas “pelo convívio e bom almoço”.
Na Quinta de Foja o alvo de 50 caçadores, acompanhados pelos seus cães, foi o pato-real. “No Baixo Mondego há milhares de patos, esta é uma zona emblemática para esta prática”, explica Américo Guímaro, professor reformado de 65 anos, que pela primeira vez não caçou um único exemplar na abertura da época.
Alexandre Perpétuo, 32 anos, funcionário de uma farmácia, teve o mesmo azar. “Isto correu mal, não apanhei nada”, mas isso não é suficiente para perder o gosto que tem desde criança, quando contava os anos para chegar aos 18 e poder caçar. “Gosto das paisagens e dos animais, a quem às vezes faço mal”, diz.
Já o estreante Tiago Alves, 24 anos, tinha à cintura quatro patos. “É preciso é dinheiro, que isto é um vício muito caro”, comenta o jovem.
“Há muitos que descongelam e penduram, olhe este senhor é um desses!”, brinca um caçador enquanto trinca um pedaço de chouriço para enganar o estômago enquanto o porco assa no espeto.
Na Zona de Caça Municipal da Tocha, em Cantanhede, a poucos quilómetros da Quinta de Foja, o almoço é cozido à portuguesa. Ao mesmo tempo que Vítor Amaro, o cozinheiro de serviço, enche a panela com “tudo caseiro”, um grupo de 14 caçadores faz o balanço da caçada ao coelho-bravo, à volta da mesa e de copo na mão. “Foi fraca, só apanhámos seis”, diz Manuel Maria explicando que “as matas são muito fechadas e o tempo ainda está muito quente”.
“Se fosse caçar para comer, morria de fome, nem um tiro dei!”, assegura Mário Dias, 70 anos, caçador há 40. “Antigamente ao fim de duas horas já trazia uma trintena de coelhos, agora não é assim”, conta.
“Dei um tiro a um, mas foi outro que o matou”, diz Manuel Carrancho, 71 anos, afirmando que os seus cães “tiveram que apanhar os coelhos dos outros”. Fala sem lamentos porque o que conta “é o convívio e o almoço”. “Os coelhos ficaram lá, agora o que importa é o que vem no prato”, solta o homem que começou a disparar aos 24 anos, “no tempo em que se caçava todos os dias”.
MAIS RESPEITO PELA NATUREZA
Para Álvaro Amaro, ex-secretário de Estado da Agricultura e actual presidente da Câmara Municipal de Gouveia, “o ordenamento do território levou a uma organização dos próprios caçadores”. “Hoje o caçador é mais respeitador da natureza, e isso dá-lhe mais crédito”, diz, afirmando que “há 20 anos ninguém pensava apanhar os cartuchos, hoje todos o fazem”. Jacinto Amaro, presidente da Federação Portuguesa de Caça, assegura que neste momento a prioridade dos caçadores é garantir a “qualidade do ordenamento”.
SAIBA MAIS
170
Mil é o número de caçadores que estão licenciados em Portugal. O negócio da caça gera receitas na ordem dos 600 milhões de euros por ano.
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Mil zonas de caça existem no País, entre os regimes associativo, municipal, turístico e livre. Este último quase desapareceu depois da ordenação do território da actividade venatória.
FISCALIZAÇÃO
Jacinto Amaro apela a “uma fiscalização mais eficaz” nas zonas de caça. O reforço da segurança nocturna nestas áreas também é considerado necessário, sobretudo devido aos assaltos que se têm verificado.
REGIME LIVRE
No terreno livre, a caça ao coelho e à lebre só é permitida a partir do dia 5 de Outubro.
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