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Correio da Manhã

Portugal
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Pensei que eram bons

Nunca pensei que os cogumelos não fossem bons para comer. Já os tinha apanhado antes e, desta vez, pensava que estes amarelos também eram comestíveis. Afinal, fizeram-nos mal e mandaram-nos a todos para o hospital”, desabafa ao CM Armindo Fernandes, que continua internado no Hospital de S. José, em Lisboa. Ele é um dos onze doentes da mesma família que foram hospitalizados depois de comerem cogumelos venenosos, E ainda não sabe que o tio José e o primo Luís – pai e filho – morreram quinta e sexta-feira.
26 de Novembro de 2006 às 00:00
Vários familiares deslocaram-se ontem ao Hospital de Vila Franca para visitar os doentes
Vários familiares deslocaram-se ontem ao Hospital de Vila Franca para visitar os doentes FOTO: Pedro Catarino
Armindo Fernandes conta que, há mais de uma semana, apanhou os cogumelos, por duas vezes, quando foi com o seu primo Carlos – que está internado no Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca – a um terreno de que é dono.
Quando os dois se aproximaram da localidade de Faias, entre o Poceirão e Pegões, viram o campo coberto com uns “cogumelos amarelos”.
Apreciadores do petisco, não hesitaram: encostaram o carro na berma da estrada. “Apanhámo-los por duas vezes. O primeiro saco foi para o meu primo Carlos, que os levou para casa dos pais. À volta, passei novamente por aquela estrada e fui apanhá-los para mim. Só no domingo [dia 19] é que a minha mulher os guisou no tacho, com molho. Comêmo-los depois de uma tigela de sopa”, recorda Armindo Fernandes. O filho Rui Miguel, de 16 anos, teve alta sexta-feira. Outro familiar recusou ser internado em S. José e teve de assinar um termo de responsabilidade.
COINCIDÊNCIA
Por coincidência, foi também no mesmo dia que José Rodrigues, tio de Armindo, comeu os cogumelos amarelos, com a mulher, os filhos e a nora, na sua casa de A-dos-Loucos, perto de Vila Franca de Xira. Pouco depois, também eles começaram a sentir os efeitos da intoxicação, com problemas gastro-intestinais, vómitos e diarreia.
José Rodrigues, a mulher, Ana, os filhos Luís e Carlos, e a nora, Rosário, foram imediatamente para o Hospital de Vila Franca, onde ficaram internados. José Rodrigues, de 66 anos, e o filho Luís, de 40, não resistiram ao veneno dos cogumelos.
Os restantes familiares estão “em situação clínica estável”, disse ontem ao CM o médico responsável pelo Serviço de Observações de Vila Franca, António Soares.
A reagir favoravelmente estão os internados no Hospital de S. José. O director clínico, Eduardo Gomes Silva, diz que “os doentes estão em permanente vigilância e não apresentam sintomas de falência hepática nem toxicidade do fígado”.
Nenhum tem, segundo os responsáveis clínicos, “indicação para transplante hepático”.
Os familiares das vítimas estão destroçados com a tragédia. Muitos deslocaram-se ontem ao Hospital de Vila Franca. Ao fim da visita de meia hora, Cecília Ferreira, cunhada e tia dos dois mortos, confessa: “Isto é terrível. Ainda não acreditamos que esta tragédia tão grande nos aconteceu.”
ALDEIA EM ESTADO DE CHOQUE
“Ninguém contava que isto ia acontecer”, desabafa Manuela Rodrigues, à porta da moradia da família, no Casal do Isidro, em A-dos-Loucos. Um dia depois da notícia da morte do sogro e de um dos cunhados, depois de terem comido cogumelos, a consternação apoderou-se da pequena aldeia do concelho de Vila Franca de Xira.
“Estes desastres servem para as pessoas ficarem atentas. O meu sogro é da zona de Viseu e conhece bem os cogumelos. Costuma apanhá-los. Isto foi um lanche. Estes cogumelos foi o meu cunhado Carlos, que está hospitalizado, que os apanhou e disse que eram bons”, explica Manuela, remetendo para o hospital a análise dos fungos. “Acho que estão a investigar isso”.
O marido, Manuel Rodrigues, filho do falecido José, apanhado de surpresa pela morte do pai e do irmão, prefere remeter-se ao silêncio. “Não sabia de nada. Cheguei hoje de Itália, soube da notícia pelo Correio da Manhã”, disse. Esperam agora pela alta dos familiares para tratar do funeral de José e Luís Rodrigues.
TRANSPLANTE DE FÍGADO
1- é retirada o fígado do doente, nas sua totalidade ou apenas parcialmente
2- Se o dador for vivo, é-lhe retirado cerca de 60 por cento do fígado; Quando o dador é cadáver, é retirada a totalidade
3- É retirado o fígado do doente, para ser colocado o novo órgão
4- Fazem-se as ligações entre os vasos e o canal biliar do doente e os do novo fígado. Os vasos de entrada são a veia porta e a artéria hepática. Os vasos de saída são as veias supra-hepáticas. O canal biliar é o colédoco ou o hepático comum.
5- As ligações exigem, por vezes, alongamentos ou plastias plastias, o que pode complicar um pouco mais a cirúrigia.
SALVAÇÃO
Para que o transplante seja viável, o órgão a colher tem de ser são e manter a circulação sanguínea normal. Sempre que um fígado fica disponível, são chamados três doentes com características distintas para que a compatibilidade possa estar garantida.
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