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Correio da Manhã

Portugal
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PEQUITO AMEAÇA PEQUITO

Parece uma peça de teatro, com características de tragicomédia, arquitectada, como tudo indica, pelo ex-delegado de informação médica da Bayer Alfredo Pequito, que terá desempenhado também o papel principal.
9 de Novembro de 2004 às 00:50
A polícia está convencida de que o autor material das ameaças e injúrias ao advogado Garcia Pereira e a Alfredo Pequito foi… o próprio Alfredo Pequito, apurou o CM junto de fonte ligada ao processo.
Depois de largos meses de investigação de eventuais crimes de ameaças e injúrias que terão sido proferidas através do telefone contra o advogado Garcia Pereira e o seu constituinte Alfredo Pequito, a Brigada de Investigação Criminal (BIC) da PSP reuniu provas materiais e testemunhais para indiciação de Pequito como autor material das ameaças que denunciou e alegou ter sido vítima. O relatório foi entregue ao Ministério Público.
O ex-delegado de propaganda médica pode incorrer em vários crimes, entre os quais o de perjúrio e o de tentativa de forçar provas em tribunal. Acresce que Pequito, dizendo-se vítima de ameaças contra a sua integridade física, fez com que fossem disponibilizados guarda-costas, tanto para si como para a sua família.
A história de Pequito começou em 1996 quando foi despedido da Bayer e denunciou práticas irregulares na mesma, a qual terá dado contrapartidas a médicos a troco de prescrição de medicamentos.
ATACADO POR DESCONHECIDOS
Na altura, Pequito contratou os serviços da sociedade de advogados ‘Garcia Pereira & Associados’ para sua defesa. Passado algum tempo, começou a denunciar ameaças à sua integridade física e a mostrar feridas resultantes de alegados ataques feitos por desconhecidos, com o objectivo de o silenciar. Queixou-se e as autoridades activaram dispositivos de segurança.
A partir de 2003, Garcia Pereira começou também a receber chamadas ameaçadoras no seu escritório. Curioso é que a grande maioria foi feita na véspera das audições judiciais de ambos.
A BIC chegou agora à conclusão de que a maioria das chamadas foi feita em cabinas públicas situadas nos Olivais Shop-ping Center e Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa. Foram detectadas também várias chamadas nas cabinas públicas situadas no cruzamento da Av. 5 de Outubro com a Av. Miguel Bombarda, em Lisboa (a curta distância do escritório de Garcia Pereira) e outra no cruzamento da Rua Cidade da Beira com a Rua Quelimane, no Olivais (também próxima da residência de Pequito).
A PSP recorreu ainda ao sistema de videovigilância dos referidos centro comerciais, verificando que Pequito se encontrava junto às cabinas telefónicas em causa nos dias e às horas das ameaças. A determinada altura, ao visionar as imagens, os investigadores observaram Pequito com o auscultador do telefone público na mão e o seu telemóvel pessoal na outra… a receber, alegadamente, uma chamada ameaçadora.
O relatório elaborado pela BIC descreve outras situações protagonizadas pelo ex-delegado de propaganda médica. Uma delas diz respeito à alegada intrusão de dois indivíduos no quintal da residência da sua mãe, tendo um deles apontado uma arma na direcção de Pequito e vandalizado a sua viatura. O SIS, que possui uma delegação junto ao local (na Rua Cidade da Beira) equipada com um sistema de videovigilância, incidindo directamente para a referida residência, não registou nada de anormal.
Pequito chegava ao ponto de dispensar os seus guarda-costas para, minutos depois, fazer os telefonemas. Outras vezes telefonava quando estes estavam presentes, mas, naturalmente, a uma distância suficiente para que não o ouvissem.
Na sequência da audição de mais de 2500 sessões relativas aos números de telefones usados, os investigadores garantem que se trata da voz de Alfredo Pequito a imitar, de forma grosseira, a pronúncia africana.
CRONOLOGIA
1996
Em Fevereiro deste ano Alfredo Pequito foi despedido da Bayer, empresa alemã. Desde então tem vindo a denunciar alegados casos de corrupção envolvendo uma lista de cerca de 2500 médicos que terão recebido bens em troca da prescrição.
1997
As primeiras denúncias tiveram início em Setembro e deram azo a uma série de processos contra médicos. Pequito queixa-se de receber, ele e a família, diversas ameaças de morte e de ter sido esfaqueado nas traseiras da casa da sua mãe.
1999
A 13 de Outubro dá entrada no Tribunal do Trabalho de Lisboa uma acção de impugnação do despedimento pela Bayer. A 1 de Junho de 2000, Pequito terá sido alegadamente esfaqueado com um golpe na cara. Mais agressões, no corpo em Setembro.
2001
A 3 de Maio começou a ser julgado no Tribunal de Oeiras. Assegura que tudo o que disse é baseado em documentos da própria empresa. Em Outubro apresentou uma queixa-crime contra a Bayer por “difamação caluniosa”.
2003
Em Outubro foi ao Tribunal do Trabalho tentar impugnar o despedimento da Bayer e reclamar uma indemnização de 65 mil euros por ter sido obrigado a sair da empresa “sob coacção”. Imputa à Bayer a prática de crimes de corrupção, que a empresa nega.
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