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Correio da Manhã

Portugal
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Perdeu bebé depois da viagem para Portalegre

Uma mulher com uma gravidez de 24 semanas perdeu na madrugada de ontem o bebé depois de ter sido encaminhada das urgências do Hospital de Elvas para a maternidade de Portalegre. Este foi o primeiro caso que envolveu uma morte depois do fecho do bloco de partos e do serviço de obstetrícia da unidade materno-infantil Mariana Martins, em Elvas, por decisão do Ministério da Saúde.
14 de Junho de 2006 às 00:00
José Cardoso foi o bombeiro que transportou a grávida de Elvas para Portalegre
José Cardoso foi o bombeiro que transportou a grávida de Elvas para Portalegre FOTO: Alexandre M. Silva
A Administração Regional de Saúde do Alentejo deverá agora iniciar um processo de averiguações para apurar responsabilidades.
“Se não tivesse sido encerrado o serviço, esta morte podia ter sido evitada. Os 45 minutos da viagem entre Elvas e Portalegre podiam ser suficientes para salvar o bebé”, sublinhou Odete Alves, do Movimento Cívico Pró-Maternidade de Elvas, organização responsável pela providência cautelar aceite pelo Tribunal de Castelo Branco que suspende a decisão do fecho da unidade, mas que ainda não foi reconhecida pelo Ministério da Saúde. A Fundação Mariana Martins, gestora da maternidade, decidiu, mesmo assim, manter o serviço em funcionamento, apesar de as parturientes serem encaminhadas, em caso de parto ou assistência clínica, por ordens superiores, para as maternidades de Évora, Portalegre ou Badajoz (Espanha).
A mulher que perdeu o bebé, de 21 anos e nacionalidade cabo-verdiana, entrou nas urgências do Hospital de Elvas pelas 17h47, cerca de dez horas depois do fecho da maternidade. No momento da admissão apresentava dores moderadas na zona abdominal.
Por ter sido considerado um caso não urgente, foi transferida minutos depois numa ambulância medicalizada dos bombeiros de Elvas para a maternidade de Portalegre, situada a mais de 60 quilómetros, e não para a maternidade de Badajoz. Esta recebe apenas casos de risco.
“Perguntei se havia pessoal médico para acompanhar a grávida e responderam-me que não. Segui para Portalegre, tendo a rapariga, estudante em Elvas e a viver numa pensão, sido acompanhada apenas por uma amiga”, disse ao CM José Cardoso, bombeiro e motorista da ambulância.
Depois de 40 minutos de viagem e quando faltavam dez quilómetros para Portalegre, a parturiente começou a sentir fortes dores abdominais. Às 19h07 foi recebida nas urgências do hospital desta cidade com diagnóstico de gravidez em período expulsivo, tendo sido internada no serviço de obstetrícia. Pelas 20h15, os clínicos verificaram uma rotura prematura das membranas. A expulsão do bebé ocorreu pelas 02h00 de ontem.
Fonte da administração do Hospital de Elvas assegurou que a utente deverá ter alta hoje.
MINISTÉRIO REJEITA CULPA NO FECHO
Ouvido sobre o caso noticiado nesta página, o Ministério da Saúde disse ao CM que o fecho do bloco de partos da maternidade de Elvas “não tem nada a ver com o facto de esta mulher perder o feto, porque quando entrou na Urgência o processo de aborto já se tinha iniciado”.
Fonte do gabinete do ministro Correia de Campos, que se encontra em Moçambique, referiu que “os casos urgentes considerados de risco são sempre transferidos para as unidades de saúde de referência, uma decisão dos hospitais sem condições para assegurar a assistência, como é o caso do Hospital de Elvas, que transferiu a mulher e transferiu bem”. Contudo, a mesma fonte não soube explicar por que razão a mulher não foi acompanhada por um profissional de saúde na transferência para o Hospital de Portalegre, a mais de 60 quilómetros de distância.
Para investigar as circunstâncias em que decorreu o caso, o Ministério da Saúde, através da Administração Regional de Saúde do Alentejo, vai iniciar um “processo de averiguações para apurar as responsabilidades a assacar”.
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