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Correio da Manhã

Portugal
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“Perdeu toda a família, está sozinho”

José já tinha tudo preparado para se juntar à família, que estava a terminar as férias no Algarve. Fez as malas e pensava partir ontem bem cedo para o Porto, onde iria passar o fim-de-semana com a filha e as netas.
23 de Agosto de 2009 às 00:30
Em Britiande, Lamego, tios de Anabela Mota da Fonseca choram morte dos familiares
Em Britiande, Lamego, tios de Anabela Mota da Fonseca choram morte dos familiares FOTO: José Rebelo

Pouco passava das 23h00 quando a tragédia bateu à porta da sua casa na pequena vila de Britiande, Lamego. Com a derrocada de uma rocha na praia Maria Luísa, Albufeira, o homem de 84 anos tinha perdido toda a família que lhe restava – a filha Anabela, as netas Rita e Mariana e o genro António Mota da Fonseca.

José entrou em choque e teve de ser medicado. Durante o dia de ontem esteve fechado em casa e não quis falar com ninguém. Só repetia que tinha perdido tudo. 'Ficou em choque, andou a vaguear aqui pela ruas e só falava em ir para o Algarve. Não queria acreditar no que se tinha passado. Perdeu toda a família, ficou sozinho', contou ao CM Joaquim Rodrigues, amigo de José.

Quando almoçou com um amigo, anteontem, José estava longe de imaginar a tragédia que tinha assolado a sua vida. Viu a notícia na televisão, mas nunca lhe passou pela cabeça que debaixo dos escombros estava a família. 'Estava a almoçar com ele e vimos a notícia na televisão. Comentámos a desgraça e a tristeza de aquelas pessoas morrerem assim. Ele sabia que a família estava no Algarve, mas nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ter morrido. Pensou que estavam a salvo noutro lugar', recorda Joaquim Rodrigues.

Na vila de Britiande, onde Anabela nasceu, a emoção era bem visível. Várias pessoas dirigiram-se à quinta onde o pai da vítima reside. 'É uma tragédia enorme. Ainda há quinze dias estiveram aqui nas festas da vila. Eram uma família muito unida. É uma grande perda', lamentou Francisco, um morador.

Anabela, António e as duas filhas viviam em Ramalde, Porto, há vários anos. A mulher e a filha mais velha, Rita, trabalhavam na junta da Freguesia de Ramalde, a primeira como auxiliar num infantário e Rita como psicóloga. Já António, foi dez anos director de marketing no Boavista. Mariana, a mais nova, era licenciada em Direito. O funeral da família realiza-se hoje às 11h00 na Capela de S. Sebastião, em Britiande. Às 17h00, em Tabuado, Marco de Canaveses, será o funeral da 5ª vítima, Maria Emília Freitas.

MINISTÉRIO PÚBLICO VAI INVESTIGAR

A Autoridade Marítima vai enviar segunda-feira para o Ministério Público de Albufeira o auto de notícia relativo à derrocada da falésia que vitimou mortalmente cinco pessoas e feriu três, ocorrida na praia Maria Luísa, apurou ontem o ‘CM’ junto do comandante Marques Pereira, da Capitania do Porto de Portimão, que coordenou todas as operações de resgate das vítimas no terreno.

Uma vez na posse formal do auto de notícia, caberá ao Ministério Público desencadear o processo de averiguações respectivo.

IRMÃOS DE EMÍLIA 

Os irmãos de Maria Emília Freitas (um deles na foto à direita) foram ontem de manhã à morgue do Hospital de Faro reconhecer o corpo. A autópsia foi realizada em seguida e, às 14h30, o grupo partiu rumo a Marco de Canaveses, a acompanhar o caixão.

PORMENORES

FÉRIAS COM AMIGO

A família Mota da Fonseca passava férias na casa de José Dantas, conhecido médico do Porto. E com eles estava Vítor Sousa, namorado de Mariana, que ficou ferido durante a derrocada. O jovem, que só ontem soube das mortes, ficou completamente transtornado.

RECONHECER CORPOS

Ontem de manhã, o presidente da Junta de Freguesia de Ramalde, Manuel Maio, de quem Anabela era considerado o braço-direito, rumou ao Algarve, onde fez o reconhecimento dos corpos.

AUTOPSIADOS

Quatro caixões com os corpos da família de Ramalde, Porto, saíram ao final da tarde de ontem do Gabinete de Medicina Legal de Portimão, onde foram autopsiados.

BOAVISTA DE LUTO CHORA MORTE DE EX-DIRIGENTE

O Boavista, clube onde António trabalhou entre 1992 a 2002, mostrou ontem o seu pesar pela morte do antigo dirigente. A bandeira foi colocada a meia haste e irá permanecer assim durante três dias, em homenagem não só a António como à sua mulher e filhas, adeptas do clube. Também no site do clube foi colocada uma mensagem a dar conta do falecimento do antigo director de relações públicas.

'A notícia chocou-me muito. É uma grande perda para o Boavista, mas, mais grave do que isso, é uma família que ficou destruída. Em poucos minutos perderam tudo', afirmou ao CM Álvaro Braga Júnior, presidente do Boavista.

Além da relação profissional, o dirigente mantinha uma relação de amizade com António. 'Dávamo--nos muito bem, ele era uma pessoa extraordinária. Ainda há duas semanas o encontrei num restaurante e ele disse-me que ia ter uma sorte que eu não tinha, que era ter férias. Mal ele sabia o que lhe ia acontecer', recorda ao CM o presidente dos axadrezados, visivelmente consternado com a notícia trágica.

GRITA 'FUGIR' E FICA SOTERRADA

Quando ouviu o barulho da falésia a ruir e percebeu a dimensão da tragédia que se iria seguir, Maria Emília Freitas só teve tempo para gritar uma palavra. ‘Fugir’. Com ela estavam o marido e as duas filhas, que escaparam à derrocada – mas Emília ficou soterrada pelos escombros.

'Ela fazia tudo pelos outros', conta ao CM Sérgio Freitas, irmão de Maria Emília. 'Era capaz de dar a camisa que tinha no corpo', acrescenta. Salvar o marido e as filhas terá sido a preocupação da mulher de 38 anos, há 12 anos emigrada em França.

Ontem, na morgue do Hospital de Faro, apenas Sérgio, um outro irmão de Maria Emília e um primo foram reconhecer o corpo. O marido, António Dias e as filhas, de apenas nove e 11 anos, foram protegidos da situação. 'Estão muito abalados', explica Sérgio Freitas. Também os pais ficaram em Marco de Canaveses, concelho de onde é originária a família.

A irmã 'queria muito conhecer Albufeira', continua. 'Era apenas a segunda vez que estava no Algarve com o marido e as filhas. No ano passado estiveram noutro sítio, agora estavam cá há uma semana e iam-se embora apenas no fim do mês.' As férias de sonho foram interrompidas pela tragédia.

Ontem à noite, centenas de pessoas reuniam-se junto à capela de Santo António de Tabuado, em Marco de Canaveses, onde o corpo da vítima era esperado. A opinião de quem a conhecia era unânime. 'Era muito boa pessoa, uma santa', garantiam todos. 'Era muito extrovertida, muito alegre', conta uma vizinha que, por respeito para com a família, pede o anonimato. 'Ia agora construir uma casa ao pé de onde vive a mãe', revela. Também esse sonho ficou por cumprir.

Quando soube da notícia da tragédia, a mãe de Maria Emília não aguentou. Sentiu-se mal e teve de ser transportada para o hospital. A consternação, de resto, estendia--se ontem a todos quantos conheciam Maria Emília Freitas antes de ela procurar a sorte em França. 'Trabalhava numa padaria e como empregada de limpeza', adianta ao CM Sérgio Freitas. O marido, António Dias, natural de Coimbra, é electricista.

O corpo chegou ontem à capela, pelas 22h00. O silêncio instalou-se entre todos os que aguardavam, só interrompido pelo choro, que se ouvia aqui e ali. Mas, mesmo assim, contido, numa tentativa de respeitar a família de Maria Emília. Começava a noite de velório. O funeral realiza-se hoje, às 17h00. Depois da cerimónia religiosa, na capela de Santo António de Tabuado, o cortejo fúnebre percorrerá os oito quilómetros que separam Marco de Canaveses do cemitério da Várzea da Ovelha, onde Maria Emília Freitas nasceu e, agora, irá a enterrar.

'CONSCIÊNCIA TRANQUILA'

A presidente da Administração da Região Hidrográfica do Algarve, Valentina Calixto, garantiu ontem ao CM estar de 'consciência tranquila' e frisou que 'perante os dados técnicos, recolhidos numa verificação feita na semana passada, em que foi entendido não haver risco iminente de derrocada da falésia, foi feito tudo o que era possível fazer'. 'Foi a Natureza', sustentou.

BANHEIRO CELESTINO 'FOI UM HERÓI'

Celestino é um dos banheiros mais antigos do País e figura carismática na praia Maria Luísa. Anteontem foi considerado 'um herói', ao ser o primeiro a retirar pedras caídas do pináculo que há muito estava em risco na praia. O banheiro não quis ontem falar aos jornalistas, mas 'foi um herói', garantem. Foi o primeiro a chegar e tirava pedras enormes', comentou o comandante Cabrita, oficial reformado da Marinha que há trinta anos frequenta aquela praia. Já esperava a derrocada, porque aquela estrutura rochosa – em tempos uma gruta – tem vindo a cair ao longo dos últimos 15 anos.

INVASÃO DE ZONA VEDADA NA NAZARÉ

A falésia da praia da Nazaré tem uma zona de restrição de 30 metros, por estar em perigo de derrocada, mas os banhistas continuam a ir para lá. 'As pessoas só saem dali quando são mandadas embora pela Polícia Marítima, mas, assim que os agentes viram costas, vão para lá outra vez', diz uma nazarena. Há dois anos foram colocadas uma vedação em madeira e placas de aviso e aberta uma vala com seis metros, para servir de barreira de contenção em caso de derrocada.

PORMENORES

DEMOLIÇÃO HOJE

A partir das 22h00 de hoje proceder-se-á à demolição, coordenada pela Administração da Região Hidrográfica do Algarve, da parte restante da rocha, de forma a garantir a segurança dos utentes da praia.

CASAL SALVOU-SE

Benjamim e Margarida Bravo, de Vila Nova de Gaia, salvaram-se de ser atingidos pela derrocada. 'Tínhamos as toalhas a dez metros e estávamos na água quando aquilo caiu. Vimos duas das senhoras que morreram serem apanhadas à nossa frente. Foi terrível.'

'PROFUNDA REFLEXÃO'

O presidente da Câmara de Albufeira, Desidério Silva, disse ontem que 'será necessária uma profunda reflexão acerca do sucedido'. A mensagem dirige-se às 'entidades que gerem as nossas praias'.

CÂMARAS EM ALERTAS

Os presidentes das Câmaras de Portimão e de Lagos pediram aos seus serviços uma vigilância mais apertada nos pontos críticos de praias naqueles concelhos. Esta é uma competência da Administração da Região Hidrográfica e da Autoridade Marítima.

PERIGO NÃO AFASTA BANHISTAS

Debaixo de uma falésia na praia da Cova Redonda, em Lagoa, precisamente onde está instalado um sinal de perigo de aluimento, Vítor Oliveira, 65 anos, de Lisboa, dormitava tranquilamente ontem à tarde, apesar de ter pleno conhecimento da derrocada que anteontem de manhã matou cinco pessoas e feriu três, uma das quais com gravidade, a escassos quilómetros dali, na praia Maria Luísa, Albufeira.

'Estou aqui para evitar o sol. É o que tem de ser. No carro também posso levar com outro em cima e morrer', justificou o banhista, que, contudo, depois de alertado pelo CM para o facto de aquele ser considerado, de acordo com fonte da Autoridade Marítima, um dos troços mais perigosos da costa algarvia em termos de instabilidade das arribas – sobre as quais está instalado um empreendimento turístico de luxo –, decidiu jogar pelo seguro e abandonou o local.

Na mesma praia, também instalada junto à falésia e a um sinal de perigo, a família de Gabriel Campo, da Ericeira, descansava. 'A minha filha mais nova, de 13 anos, disse que não queria ficar aqui assim que chegámos hoje à praia, mas eu pensava que a sinalética se referia só à queda de pedras e não da arriba. Se assim é, deveria haver interdição'. Já a família de Agostinho Neves, de Almada, instalou os chapéus de sol junto à falésia, mas aconselhou as filhas a saírem de baixo da rocha. 'Às vezes facilitamos', diz.

NOTAS

BANDEIRA: MEIA HASTE

Ao princípio da tarde de ontem, a bandeira do Boavista foi colocada a meia haste, em frente ao Estádio do Bessa. Álvaro Braga Júnior disse ao ‘CM’ que se manterá assim durante três dias.

FILHOS ÚNICOS: DOR EM VISEU

António e Anabela eram ambos filhos únicos. Os funerais de marido e mulher são hoje em Lamego, mas a família de António, também de luto, mora na freguesia de São Jorge, em Viseu.

CAIXÕES: CORPOS DESFIGURADOS

Os corpos ficaram bastante desfigurados durante a derrocada e os caixões não foram abertos. O pároco da freguesia, que casou Anabela e António, esteve todo o dia na casa da família.

BARREIRA: PRAIA SEPARADA

A Autoridade Marítima colocou uma barreira para separar a zona do desmoronamento do restante areal da praia Maria Luísa. Muitos curiosos não respeitaram a vedação.

FARO: FERIDO RECUPERADA

Vítor de Sousa, de 24 anos , que ficou com uma perna fracturada na derrocada, estava ontem a 'recuperar bem' no Hospital de Faro, depois de ter sido operado.

SISMO: POSSÍVEL LIGAÇÃO

O Instituto de Meteorologia diz que o sismo de terça-feira teve 'nível de vibração no local da derrocada de baixíssima intensidade'. No entanto, não nega uma relação.

FALÉSIA: INTERVENÇÃO EM 2007

Há dois anos foi feita uma intervenção de minimização de riscos em dois pontos da falésia da praia Maria Luísa, um dos quais na zona adjacente à zona onde ocorreu a derrocada.

RISCO: SAPA MUITO ERODIDA

A sapa – um corte horizontal na base da rocha que aluiu na praia Maria Luísa – era considerada desde há muito um sinal de risco, uma vez que já se estendia por cerca de metro e meio.

DISCURSO DIRECTO

"CÂMARAS E GOVERNO SÃO MUITO PERMISSIVOS": João Melo, Presidente da GEOTA

Correio da Manhã – Que factores poderão ter contribuído para a derrocada na praia Maria Luísa?

João Melo – Este fenómeno é natural, as derrocadas nas arribas ocorrem periodicamente, é assim que se formam e o seu recuo é inevitável. No entanto, se tivermos cuidado, esse recuo provocado pela erosão é lento. Mas se ocuparmos intensamente os topos dessas arribas, o processo é mais rápido.

– Como se permite então construir nestas zonas?

– As Câmaras – responsáveis pelos Planos Director Municipal – e o Governo – pelos Planos de Ordenamento da Orla Costeira – são extraordinariamente permissivos aos interesse económicos em áreas de alto risco.

– É o peso das construções que afecta a estabilidade das arribas?

– Sim, mas não só. A extracção ou deposição de águas, por exemplo quando se rega uma área verde no topo da falésia, também contribuem para uma erosão muito mais rápida.

– Que outras zonas do País poderão ser afectadas da mesma forma?

– Diferentes estudos apontam que a quase totalidade da costa portuguesa está ameaçada pela erosão.

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