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Correio da Manhã

Portugal
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PJ apanha espiões que piratearam a Justiça (ACTUALIZADA)

Os dois responsáveis da Trusted Technologies, a empresa de Lisboa que acedeu a dados confidenciais de vários ministérios através de uma rede de espionagem chinesa, foram constituídos arguidos pelos crimes de acesso ilegítimo, acesso indevido e dano informático. A PJ tem na sua posse milhares de documentos confidenciais, retirados do Ministério da Justiça, dos notários e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e está a avaliar a autenticidade dos mesmos e também a forma como foram obtidos.
24 de Outubro de 2009 às 21:00
PJ apanha espiões que  piratearam  a Justiça (ACTUALIZADA)
PJ apanha espiões que piratearam a Justiça (ACTUALIZADA)

As autoridades apreenderam na ‘Operação Ghostbuster’, que decorreu anteontem, todos os dispositivos electrónicos utilizados, dados informáticos e ainda software de cifra e encriptação.

A operação tinha por objectivo 'recolher elementos probatórios da eventual prática organizada de crimes informáticos de natureza transnacional, designadamente o acesso ilegítimo, acesso indevido e dano informático', anunciou ontem a Judiciária, dando conta de que os dois arguidos estão a colaborar com a Justiça.

A acção policial foi presidida pelo juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Investigação Criminal. A apreensão dos computadores visava impedir que a empresa continuasse a aceder aos dados.

O passo seguinte será agora complexo. As autoridades terão d verificar o sistema informático e confirmar a veracidade da história revelada pela Trusted Technologies. A empresa garante que os milhares de dados que tem na sua posse foram obtidos depois de entrarem no Ghostnet’ um sistema de espionagem digital com sede na China. E que o fizeram apenas para mostrar as fragilidades do nosso sistema e também revelar como era fácil outros países obterem informações confidenciais e classificadas de vários ministérios.

Os elementos ontem apreendidos pela PJ são vários. Há ficheiros para procedimentos internos no Ministério dos Negócios Estrangeiros, inclusivamente a passagem de vistos; documentos relacionados com o processo eleitoral; elementos da Direcção-Geral de Registos e Notários; ficheiros da própria Judiciária com procedimentos de trabalhos e documentos que podem ter sido acedidos pelos computadores de magistrados.

MINISTÉRIO AVANÇOU COM REFORMA APESAR DAS CRÍTICAS DOS USUÁRIOS

Alberto Costa, ex-ministro de Justiça, avançou para a reforma do sistema informático da Justiça mesmo com as vozes contrárias dos seus protagonistas. O Citius, usado nos tribunais, tem sido alvo de várias críticas, mas relatórios a que o CM teve acesso mostram também fragilidades da reforma tecnológica no Ministério, inicialmente assente no sistema operativo Linux, escolhido pelo Instituto das Tecnologias de Informação na Justiça em 2005.

Nessa data, o produto baseava--se num projecto de divulgação do Linux em língua portuguesa conhecido por Caixa Mágica. Este projecto, porém, foi sendo progressivamente abandonado quando o Governo de José Sócrates começou a celebrar protocolos com a Microsoft, em 2007. A partir daí,a intromissão tornou-se possívele dificilmente detectável.

PORMENORES

72 HORAS

Os portugueses só conseguiram entrar na Ghostnet durante 72 horas. Depois disso, a intromissão foi detectada e perderam acesso ao sistema.

COMETERAM CRIME

É considerado crime, punido com prisão, 'qualquer actode pretenso ou eventual teste de segurança sem consentimento expresso dos titularese proprietários dos sistemase das redes informáticasvisados'. O que significaque a Trusted Technologiescometeu uma infracção.

SEDE NA CHINA

A Ghostnet tem sede na China, mas desconhece-se a sua relação com o governo chinês. As autoridades vão agora verificar a autenticidade dos documentos e depois tentar perceber o envolvimento governamental.

OUTROS ESTADOS

Vários estados europeus, asiáticos e americanos, caíram nas malhas desta rede digital, cujos servidores estão na China.

DIAP NÃO UTILIZA CITIUS

O Citius, o programa informático que há dois anos o Ministério da Justiça implementou nos tribunais, não é utilizado no Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa. Maria José Morgado assume que não o faz devido às fragilidade do sistema, e recentemente disse ao CM que o DIAP não arrisca a sua utilização por não estar garantidaa inviolabilidade do mesmo.

'Não há perfis de segurança no programa. Pedimos uma auditoria de uma entidade externa e até agora não obtivemos resposta. Optámos por não o utilizar, até porque o DIAP é o maior organismo do Ministério Público em termos de inquérito. E a Procuradoria-Geral da República também não impôs a sua obrigatoriedade', disse Maria José Morgado, que defende a criação de perfis de segurança no sistema criado para a Justiça. 'O sistema tem de ter níveis de acesso de acordo com a responsabilidade dos utilizadores. E tem de ser possível verificar quem a ele acede. O utilizador tem de deixar a sua impressão digital, a marca, o rasto’', afirmou Maria José Morgado.

E se não há sistemas 100% seguros, a verdade é que os magistrados consideram que o que foi criado para a Justiça apresenta fragilidades inultrapassáveis.

NOTAS

JUÍZES: PEDIRAM AUDITORIA

Há dois anos que a Associação Portuguesa de Juízes, presidida por António Martins, aguarda que o Ministério da Justiça faça uma auditoria externa à segurança do sistema informático

PGR: CRIOU UNIDADE

A PGR criou a Unidade de Missão para a informatização dos tribunais que está a monitorizar os problemas. Todos os departamentos do Ministério Público lhe reportam as fragilidades

INFORMAÇÃO: DE OUTROS PAÍSES

A empresa agora alvo de buscas garante queo Ghostnet entrou em documentos confidenciais de outros países. Consegue inclusive aceder a diversos sistemas

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