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Correio da Manhã

Portugal
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PJ aperta cerco a correios

São homens e mulheres que vêem no transporte de droga uma forma fácil de ganhar dinheiro. Os ‘correios’ de droga são, maioritariamente, oriundos de classes mais baixas, têm dificuldades financeiras e não fazem parte das redes de tráfico de droga. Este é o perfil que as autoridades traçam das ‘mulas’. Só no primeiro trimestre deste ano, a PJ já apanhou 49 ‘correios’ de droga. Traziam um total de 3,7 quilos de heroína, 85 de cocaína e cerca de 296 quilos de haxixe.
26 de Setembro de 2005 às 00:00
No ano passado a PJ apreendeu 830 quilos de cocaína nos aeroportos portugueses. No primeiro semestre deste ano apreendeu 295 quilos
No ano passado a PJ apreendeu 830 quilos de cocaína nos aeroportos portugueses. No primeiro semestre deste ano apreendeu 295 quilos FOTO: Natália Ferraz
“O ‘correio’ normalmente não faz parte da organização criminosa, executa a parte mais difícil. É o que corre mais riscos e o que ganha menos dinheiro”, disse ao Correio da Manhã José Braz, responsável pela Direcção Central de Investigação do Tráfico de Estupefacientes (DCITE).
Portugal serve, sobretudo, como um ponto de passagem. A sua situação geográfica funciona como uma porta para a Europa. Segundo José Braz, “90 por cento da droga chega a Portugal via aérea para, posteriormente, seguir por via terrestre ou via aérea, para outro destino”.
Só no ano passado foram apreendidos nos aeroportos portugueses mais de 10 quilos de heroína, 830 de cocaína e cerca de 123 quilos de canábis. As autoridades apanharam ainda 2493 comprimidos de ecstasy trazidos pelos ‘correios’.
Relativamente ao ano anterior, a entrada de cocaína aumentou. Mas, segundo a estatística da PJ relativa ao primeiro semestre deste ano, a entrada de cocaína tende a diminuir. Até ao final de Junho tinham sido apreendidos cerca de 295 quilos de ‘coca’. Já a entrada de heroína, haxixe e ecstasy aumentou. A PJ apreendeu mais de onze quilos de heroína, 303 de haxixe e 22 mil comprimidos de ecstasy. Ou seja, no primeiro semestre deste ano entraram no País, via aérea, mais de 600 quilos de droga.
As redes de tráfico operam a nível internacional, mas a cooperação entre polícias de todos os países já permitiu estabelecer rotas (ver infografia). De acordo com o responsável da DCITE, quando as autoridades portuguesas suspeitam que há um ‘correio’ a bordo de um avião, deixam-no seguir até ao país de destino. Aqui as autoridades congéneres aguardam e seguem o suspeito para apurar outras ligações. Só depois são detidos.
“Em termos estratégicos interessa-nos neutralizar as redes criminosas. Os ‘correios’ são os elos mais fracos”, afirma José Braz.
TRAFICANTES CADA VEZ COM MAIS IMAGINAÇÃO
A PJ não consegue enumerar as técnicas utilizadas para transportar droga. A imaginação dos ‘correios’ já deu para tudo. No entanto é possível distinguir dois grupos de ‘mulas’: os ‘gulotões’, que trazem a droga escondida no organismo e aqueles que a trazem fora do corpo. Dentro do primeiro grupo, o dos ‘gulotões’, é comum encontrar as chamadas ‘bolotas’ dentro do aparelho digestivo.
Nas mulheres, já chegou a ser detectada droga escondida nos órgãos genitais. Mas transportar droga no interior do organismo poderá trazer complicações. No ano passado registaram-se, pelo menos, três mortes e não existem números relativos àqueles que se sentem mal e têm de receber tratamento hospitalar.
Já os ‘correios’ que transportam droga fora do corpo têm de dar mais asas à imaginação.
Fundos falsos em sacos de viagem, estruturas de pára-pente, nos sapatos, em cintas que tornam as ‘mulas’ mais gordas, estas são apenas algumas das situações com que a PJ já se deparou. Existem, ainda, as técnicas de dissimulação da cocaína em estado líquido. Assim, a droga pode passar por produtos cosméticos, pastas de dentes ou gel de banho. Uma outra forma já detectada, embora com menos frequência, é a da cocaína impregnada em calças de ganga.
E como é que, entre centenas de passageiros que utilizam o espaço aéreo para se deslocar, se distinguem as ‘mulas’? As autoridades recusam a desvendar os seus segredos, mas admitem que é necessária a cooperação de várias entidades. Por vezes as ‘mulas’ sentem-se mal antes de chegar ao destino e têm mesmo de ser assistidas no hospital. O facto de não poderem ingerir alimentos durante o voo ou sentirem-se mal dispostos também levanta suspeitas.
OS CASOS
ECSTASY
Uma mulher de 31 anos foi detida no aeroporto de Lisboa, a 14 de Abril, com 22 mil comprimidos de ecstasy numa mala. Vinha da Holanda.
COOPERAÇÃO
Uma operação internacional, registada em Abril culminou na detenção de seis pessoas com um total de 96 mil doses de cocaína. Um deles foi apanhado em Portugal.
AÇORES
Um homem foi detido em São Miguel, Açores, quando transportava no corpo 48 embalagens de cocaína. A droga, apreendida em Abril, daria para 3500 doses individuais.
PORTO
Um polaco foi detido, em Junho, no aeroporto Sá Carneiro, Porto, com cerca de meio quilo de cocaína no estômago. Vinha da Venezuela.
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