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Correio da Manhã

Portugal
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POLÍCIAS PAGAM COLETES

O aumento dos casos de violência contra agentes da autoridade está a gerar um clima de insegurança cujo episódio mais recente é uma corrida à compra de coletes antibala por parte de polícias.
18 de Outubro de 2002 às 00:20
O insólito assume maior visibilidade nas esquadras da Divisão da PSP da Amadora e já provocou uma ruptura de ‘stock’ numa loja de artigos militares.

Os guardas daquele concelho sentem-se especialmente desprotegidos desde que, em Fevereiro, um agente foi assassinado com seis tiros à queima-roupa, na Damaia, e, mais recentemente, após um polícia ser baleado, do escuro, no interior do Alto da Cova da Moura. “É uma mensagem negativa que passamos para o exterior, mas trata-se da realidade: andamos com medo”, desabafa um informador policial ao CM.

Nas últimas semanas tornou-se usual os polícias da Amadora comprarem coletes à prova de bala, na maioria das vezes numa loja das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército, conhecidas por ‘Casão Militar’, em Lisboa.

Isso obriga a um investimento pessoal da ordem dos mil euros e, segundo apurámos, os modelos mais adquiridos são do nível 3A, capazes de suportar disparos de calibres até 44 Magnum, feitos a qualquer distância. Os coletes, em fibra e com um peso aproximado de 1,5 quilos, praticamente só excluem protecção contra armamento militar e carabinas de grosso calibre, como a usada pelo ‘atirador de Washington’, que já fez nove mortos.

“As pessoas estão a recorrer a créditos bancários e a passar cheques pré-datados para conseguirem comprar os coletes. E com o que ganham, só fazendo muitos serviços de gratificados, fora do horário de trabalho”, assinala a mesma fonte.

Modelos esgotados

Os agentes estão a adquirir os coletes no âmbito de um protocolo que existe entre os Serviços Sociais da PSP e o Casão Militar, que lhes permite comprar os coletes em 24 mensalidades sem juros, o que dá prestações de cerca de 40 euros.

Há também quem se socorra de outras lojas, mas se o pagamento não for a pronto sujeitam-se a juros, algo que, neste momento, se torna numa alternativa necessária, pois o artigo está praticamente esgotado no Casão Militar.

Uma primeira corrida aos coletes de protecção pessoal verificou-se após o assassinato de um agente, na Damaia, em Fevereiro, mas ela intensificou-se nas últimas semanas.

“Só havia coletes antimotim nas esquadras, que protegem contra pedras e paus, mas depois de um agente ter recebido tiros de caçadeira na Cova da Moura, há umas semanas, é que foram postos coletes à prova de bala nos carros-patrulha, que ninguém usa porque são de tamanho único e ou estão grandes ou pequenos. Para darem garantias de eficácia era preciso ficarem ajustados ao corpo”, relataram-nos.

A nossa fonte assegura que “dezenas” de agentes da Amadora já só saem com o seu colete antibala sob a farda. Como se fossem para uma acção perigosa e pertencessem a unidades especiais da PSP, cujos membros têm esses equipamentos garantidos pelas esquadras. “A Direcção Nacional forneceu o número de coletes considerado suficiente para o cumprimento da missão. No entanto, admite que, eventualmente, alguns agentes os tenham adquirido, por sua iniciativa”, responde a Polícia.

Mal-estar

Cadastrado

Um cadastrado de apelido ‘Cele’ está a ser procurado na zona da Amadora, após ter andado aos tiros, supostamente com uma metralhadora, em bairros do concelho, ao que se julga com vista a ajustar contas em casos de tráfico de droga. Este indivíduo, com mandado de detenção, é considerado altamente perigoso, o que faz aumentar a insegurança.

Fardamento

Além dos coletes à prova de bala, os polícias compram o seu fardamento, com ajuda de um subsídio mensal de cinco euros, o que perfaz 60 por ano, equivalente a um par de calças e duas camisas, enquanto umas botas custam um pouco menos de 40 euros. Ou seja, o valor do subsídio é muito ou pouco dependendo da necessidade que tiver em renovar o seu fardamento.

Punições

Enquanto Ministério da Administração Interna e comandos da PSP e GNR admitem analisar os últimos acontecimentos de violência contra polícias, associações e sindicatos ligados às forças de segurança reclamam penas mais duras contra os agressores e maior rapidez no julgamento destes processos. A disponibilização de armas não-letais é outro dos pedidos feitos pelos polícias.
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