Uma forte explosão, na zona de queima de resíduos da fábrica de explosivos Moura Silva e Filhos, em Fontarcada, Póvoa de Lanhoso, ontem, a poucos minutos do meio-dia, causou a morte a dois trabalhadores.
Alice Maria Vieira Oliveira, de 47 anos, e Adelino António Rodrigues, de 55, procediam, como habitualmente, à queima de resíduos, quando algum elemento que não devia integrar o lote dos resíduos provocou a detonação da matéria a queimar.
"Ou foi um resto de pólvora ou um fulminante que passou despercebido", disse ao CM fonte ligada à investigação deste acidente, inclinando-se mais para a possibilidade da "existência de poeira de pólvora nalguma das embalagens".
Os resíduos que os funcionários queimam são, por norma, embalagens de transporte de explosivos para zonas de rebentamento de pedra e restos de gemolite ou outros materiais usados no fabrico de explosivos. A destruição é realizada num local criado para o efeito.
Para Carlos Macedo, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Pirotecnia e Explosivos (APIPE), tratou-se de "um acidente, cujas causas só a investigação pericial pode apurar".
"Estamos perante a maior fábrica de explosivos do País, uma unidade com dimensão internacional, que cumpre todas as regras de segurança e possui todos os certificados de qualidade", disse Carlos Macedo, admitindo que se tenha tratado de "um erro humano".
Alice Maria, residente em Oliveira, casada e mãe de três filhos, trabalhava na Moura Silva e Filhos há mais de 20 anos. Adelino Rodrigues, casado, dois filhos, residia em Moinhos Novos e, após uma vida de emigrante na Suíça, tinha entrado para a fábrica há menos de seis meses. Atendendo ao grau de destruição, os corpos só foram levantados cinco horas após a explosão.
Esta foi a segunda explosão naquela fábrica. Em Janeiro de 2002 um incidente semelhante provocou apenas danos materiais.
SAIBA MAIS
MAIOR FÁBRICA DO PAÍS
A Moura Silva e Filhos é a maior fábrica de explosivos de Portugal. Funciona como tal desde 1996, depois de deixar a pirotecnia.
50
é o número de funcionários da fábrica de Póvoa de Lanhoso, mas a empresa tem outra unidade em Moçambique.
333
quilos de material pirotécnico ou 20 quilos de explosivos obrigam a escolta de segurança.
"MEU DEUS, QUE DESGRAÇA, LÁ FOI O MEU MARIDO"
Ainda não tinha passado uma hora do fatídico rebentamento, que acabara com a vida de duas pessoas, e já Maria Vieira, esposa de Adelino Rodrigues gritava, banhada em lágrimas: "Meu Deus, que desgraça, lá foi o meu marido."
Consolada por familiares e amigos, andava, para a frente e para trás, como que à procura de alguém que lhe dissesse que não tinha havido tragédia. Pouco depois chegou aos portões da fábrica, amparado pela filha, António Oliveira, marido de Alice. Andava com o tractor nos campos quando recebeu a notícia.
O choque embargara-lhe a voz e apenas conseguia chorar. Os psicólogos do INEM prestaram ali algum apoio às famílias, mas a dor não diminuiu. Os apelos para irem para casa também não resultavam porque as pessoas queriam saber de que forma os entes queridos tinham morrido.
INVESTIGAÇÃO VAI DEMORAR VÁRIOS MESES
Apesar da área dos explosivos ser da competência da PSP, a existência de duas vítimas mortais obrigou, neste caso, à intervenção da Polícia Judiciária de Braga. Como a PJ concluiu tratar-se de um acidente, a investigação pericial será feita pela GNR, que ontem esteve no local, e pela Brigada de Armas e Explosivos da PSP. Os relatórios, tanto da GNR como da PSP vão ser analisados pelo Ministério Público da Póvoa de Lanhoso, que, por se tratar de um acidente mortal, com inerentes processos de indemnização, deve determinar um inquérito que apure as causas da explosão e que deve demorar vários meses.
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