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Correio da Manhã

Portugal
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População abandona nova aldeia da Luz

Os atrasos dos processos de expropriações das terras que foram alagadas pela albufeira de Alqueva estão a ter reflexos negativos no desenvolvimento da nova aldeia da Luz, no concelho de Mourão.
5 de Setembro de 2005 às 00:00
Transferida há cerca de três anos para a herdade da Juliôa devido à submersão da velha aldeia, a população está desde essa altura impossibilitada de montar negócios ou de construir uma nova casa por causa do litígio entre a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas de Alqueva (EDIA) e o proprietário da herdade expropriada, que não aceitou o valor da indemnização e recorreu aos tribunais.
Segundo o presidente da Junta local, Francisco Oliveira, apesar de haver na aldeia cerca de 40 lotes destinados à construção de novas habitações, oito casais de jovens foram obrigados a rumar para outras paragens. “A maioria das pessoas vai para Reguengos ou Évora. Há aqui mais de 40 lotes e as infra-estruturas estão diariamente a degradar-se porque não deixam construir”, frisou, lembrando que além dos jovens existem outros naturais da aldeia que vivem no estrangeiro – e noutras zonas do País – que gostavam de regressar. “Já que não fazem, deixem-nos fazer, pois só assim isto terá algum rumo.”
DESEMPREGO TAMBÉM CRESCE
Dos 380 habitantes que se mudaram no Verão de 2002 para a nova aldeia da Luz, mais de 20 partiram. A falta de trabalho foi outro dos motivos que obrigou a população a abandonar as suas origens. “Existe apenas alguns serviços e pequeno comércio. O turismo não deixa nada e cada vez será em menor número, porque isto não tem nada para mostrar. Depois, a actividade agrícola que existia quando estávamos na velha aldeia desapareceu e muitos postos de trabalho foram extintos”, lembrou Francisco Oliveira.
Este responsável culpa a EDIA pelo marasmo em que mergulhou a aldeia e lembra promessas por cumprir: “Falta o ancoradouro e muitas coisas que dinamizariam a aldeia.”
"ESTAMOS DESILUDIDOS"
Manuel Ramalho, juntamente com a sua mulher e os dois filhos menores, foi o primeiro habitante
a mudar da velha para a nova aldeia da Luz. Hoje é o rosto da desilusão. “Ao princípio era tudo muito bonito, muitas promessas. Mas, agora, o povo da aldeia está a ficar muito desiludido porque não podemos crescer nem ter ideias.” Desempregado desde o início de Agosto, este homem não acredita num grande futuro para a aldeia:
“A empresa onde trabalhava há 13 anos, situada em Mourão, transformava xisto, no entanto, com a construção da barragem, esta pedra deixou de existir. Como não há alternativas para trabalhar não sei muito bem como vai ser a minha vida nos próximos tempos.”
INFRA-ESTRUTURAS
LAVADOURO
Construído nas traseiras do pavilhão e da praça de touros, o lavadouro público da aldeia da Luz está transformado numa lixeira por nunca ter sido utilizado pelo povo.
PAVILHÃO
Apesar de ser um dos melhores pavilhões desportivos da região, o mesmo raramente é utilizado pelos locais porque as chaves deste equipamento estão na posse da EDIA.
ESGOTOS
Quase todos os moradores da aldeia da Luz se queixam de erros de construção nas suas moradias e dos maus cheiros provocados pelo deficiente escoamento dos esgotos.
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