As chamas provocaram ontem, em Oliveira de Frades, a primeira morte de um popular – a que acrescem as de oito bombeiros, cinco deles chilenos – durante este Verão. António Tavares, de 67 anos, integrava um grupo de pessoas que apoiava os bombeiros e uma máquina que abria aceiros para defender a aldeia de Reigoso quando foi apanhado pelo incêndio.
Uma mudança repentina do vento levou à evacuação de homens, carros e restante material usado no combate às chamas. António Tavares regressava a um sítio seguro em cima de um tractor, mas a determinada altura saiu do veículo e seguiu por um caminho que utilizava para ir às suas propriedades.
“Disse que conhecia o caminho e foi por ali fora”, contou Abílio Silva, vereador da Câmara de Oliveira de Frades. “Ficou todo carbonizado!”.
O reformado terá enfrentado sozinho as labaredas para proteger os terrenos que possuía, acabando por ser surpreendido pelo incêndio. Suspeita-se que o homem tenha morrido (intoxicado ou carbonizado, só a autópsia confirmará) quando procurava salvar um tubo de rega.
António Tavares, que vivia com a família em Reigoso, sucumbiu a escassos 50 metros da estrada por onde outros populares e bombeiros fugiram. O cadáver foi encontrado num caminho florestal de Reigoso e o óbito foi confirmado pelo delegado de Saúde de Oliveira de Frades, António Cabrita Grade, às 18h30.
O fogo que causou esta vítima mortal lavra desde as 13h00 de sábado – começou em Paredes e alastrou a Reigoso – e ontem à noite ainda era um dos três que ocupavam mais meios dos bombeiros. Envolvia 160 bombeiros e 40 veículos.
CRÍTICAS NO SOAJO
Outro dos piores fogos lavra há seis dias e atingiu a Serra do Soajo, onde os populares estão revoltados com a destruição de toda a área de pastoreio. O fogo pode ter provocado danos irreparáveis no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Os autarcas reclamam a declaração de calamidade pública.
Realçando que “a falta de pastoreio atira para a pobreza milhares de camponeses”, o director do Parque, Henrique Pereira, desvaloriza para já a avaliação ambiental. No entanto, promotores turísticos locais falam em perdas irreparáveis. Também os moradores não se conformam com a reacção das autoridades: “Estão a esconder o que se passa aqui.”
Lamentam que tenham sido “proibidos de ajudar a apagar o fogo, quando os bombeiros andam apenas nas estradas de alcatrão, longe das chamas, porque não conhecem os caminhos”. “Salvaram--se as casas porque o povo se uniu”, afirmou Barreira Enes.
Só na área do PNPG arderam três mil hectares de mata, pinhal e carvalhal. Na envolvente do concelho de Arcos de Valdevez, o fogo atingiu diversas freguesias num raio de 20 quilómetros.
'AJUDO DO GOVERNO CHEGA TARDE'
O presidente da Federação dos Produtores Florestais, Ricardo Machado, afirma que o Estado está a tentar “pôr as culpas em cima dos produtores nacionais” relativamente à falta de prevenção dos fogos. “Não se pode acusar assim alguém, como se faz normalmente em tempos de crise”, declara Ricardo Machado. Segundo o próprio, sempre foi do conhecimento do Estado que as florestas não estavam limpas. “Durante todo o ano, os ministros andaram pelo País e viam que as florestas não estavam limpas.” E afirma que a falta de apoios do Governo “não ajuda nada”. “As florestas não geram rendimento. E ter de esperar pelos apoios do Ministério do Ambiente, que chegam tarde e a más horas, não facilita”. O Presidente da Federação dos Produtores Florestais acredita que uma paridade parlamentar deve ser estabelecida, de modo a que isto não seja usado como “uma guerra política”. Ricardo Machado acrescenta que, em termos de prevenção de incêndios e limpeza dos terrenos, “as matas do Estado ainda estão piores” que as particulares.
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