Queixas apresentadas por portugueses e espanhóis sobre a alegada separação de familiares, desaparecimentos e apropriação de património levaram o Ministério Público português a colaborar com procuradores de Madrid sobre a actividade dos seguidores da vidente Luz Amparo Cuevas, em El Escorial, nos arredores da capital espanhola.
As supostas aparições da Virgem à vidente, entre 1981 e 2002, não são reconhecidas pela Igreja Católica, contudo Amparo Cuevas garante estar em linha de obediência à Igreja e, pelos 25 anos da primeira aparição, um padre celebrou missa perante os seguidores, segundo apurou o CM.
As denúncias de cerca de trinta casos partiram da Associação Vítimas das Supostas Aparições de El Escorial e foram entregues à Procuradoria do Tribunal Superior de Justiça de Madrid. Entre as alegadas vítimas encontra-se a portuguesa Carla Filipa Almeida, de 19 anos.
Juan Carlos Bueno, presidente da associação, disse ao CM que “o caso da família de Filipa envolve quatro membros, incluindo um menor de 13 anos e um casal, os seus tios”. O mesmo responsável confirmou o aumento das denúncias aos tribunais e acrescentou que “há pelo menos 25 pessoas que desapareceram, que se esfumaram, de quem as famílias nunca mais ouviram falar”.
Os apelos de Carla Filipa Almeida junto dos seus tios obrigaram, há cerca de um ano, à intervenção da Guarda Civil num dos lares da vidente para que a jovem, então com 18 anos, fosse libertada. Carla Filipa foi “obrigada à força” pelos seus pais (pertencentes ao grupo da vidente) a ingressar numa residência do grupo em Torralba del Moral (província de Soria), onde permaneceu mais de 15 dias sob forte pressão psicológica. Segundo a agência de notícias espanhola Efe, diziam-lhe que teria de permanecer no local para que a sua família não sofresse “uma terrível desgraça”.
Carla Filipa conta que durante o tempo que ali permaneceu sofreu tratamento humilhante, foi obrigada a vestir um hábito de religiosa e impedida de estabelecer contacto com o exterior.
A associação revelou que a Justiça espanhola emitiu duas sentenças judiciais em que os juízes classificam de fanática a organização de Amparo Cuevas, condenam por sequestro o presidente de uma das fundações e referem as actuações levadas a cabo pelo Ministério Público de Portugal “perante um caso de suspeita de rapto de uma jovem”.
MENSAGEM EM LISBOA E NO PORTO
Há já alguns anos que a vidente Luz Amparo Cuevas, de 76 anos, não aparece aos fiéis no local das supostas aparições, por guardar obediência à Igreja Católica. No entanto, as peregrinações demonstram que o local é um ponto de manifestação de fé, revelou ao CM fonte ligada ao movimento da vidente.
“Apesar de o seu estado de saúde ser débil, [Amparo] não está recolhida”, acrescentou a mesma fonte, que deu o exemplo das deslocações da vidente a Portugal – em 1998, quando falou no auditório do Colégio São João de Brito, no Porto, e, dois anos mais tarde, num encontro na Aula Magna, em Lisboa, onde estiveram 1200 pessoas. Todos os meses chegam ao Escorial autocarros de fiéis portugueses e cresce o número de jovens que frequentam os seminários da organização. Em Junho de 1994 a igreja espanhola reconheceu a Fundação Pía Virgen de los Dolores e e a Associação Reparadores de Nuestra Señora Virgen de los Dolores, ambas ligadas ao movimento.
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