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Correio da Manhã

Portugal
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Portugueses deitam fora 750 toneladas de remédios

As farmácias portuguesas recolheram em 2004, no âmbito do programa ‘Valormed’, cerca de 150 toneladas de medicamentos e embalagens. No entanto, fonte da Associação Nacional de Farmácias disse ao CM que, “o que foi recolhido é menos de um quinto do total de medicamentos deitados fora”.
7 de Janeiro de 2005 às 00:00
Em 2004 as farmácias receberam 150 toneladas de medicamentos excedentes. Um quinto do total
Em 2004 as farmácias receberam 150 toneladas de medicamentos excedentes. Um quinto do total FOTO: Secundino Cunha
Ora, contas feitas, entre os que sobraram, os que as pessoas compraram a mais, os que os médicos receitaram em excesso e os que ultrapassaram a validade, os portugueses tiveram, ao longo do ano, de se desfazer de cerca de 750 toneladas de medicamentos, 500 das quais terão ido parar directamente ao lixo.
“As casas de algumas pessoas, sobretudo as de mais idade, parecem uma autêntica farmácias”, disse ao CM Hélder Spínola, da associação ambientalista Quercus, sublinhando que “é extremamente nocivo para o ambiente, colocar medicamentos directamente no lixo”.
A Associação Nacional de Farmácias (ANF) diz que “é impossível acabar com o desperdício”, mas sublinha que “só se consegue reduzir este exagero através da consciencialização das pessoas, do redobrar do cuidado de alguns médicos ao nível da prescrição e do redimensionamento das embalagens”.
Já Pedro Nunes, o novo bastonário da Ordem dos Médicos, recusa que, nesta matéria, possa ser atribuída qualquer culpa aos clínicos.
“Os médicos prescrevem o medicamento e as quantidades que entendem necessárias para cada caso. Agora, não têm culpa que as pessoas não tomem os medicamentos todos ou que as embalagens sejam maiores do que o necessário”, disse o bastonário, admitindo que estamos perante “um caso que exige medidas rápidas e eficazes”.
O Estado gasta anualmente cerca de mil milhões de euros em medicamentos (40 por cento do total das despesas da saúde) o que é considerado “um tremendo exagero”.
"UNIDOSES SÃO BEM-VINDAS"
O bastonário da Ordem dos Médicos diz que o motivo pelo qual o grosso dos medicamentos é lançado para o lixo se deve a dois factores: o facto de as pessoas não tomarem a medicação até ao fim e a sobredimensão de várias embalagens. Quanto ao primeiro, “só se resolve com o intensificar das campanhas de sensibilização, o que é, como se sabe, um processo lento”.
No que diz respeito ao segundo, diz Pedro Nunes, “é um problema que tem de ser debatido pelo Governo, com a indústria e com a ANF”. Aliás, o bastonário é peremptório ao afirmar que “as unidoses são bem-vindas”, lembrando, no entanto, que “quanto mais pequenas forem as embalagens, mais caros se tornam os medicamentos”. Pedro Nunes diz que “o importante é saber que ganhos é que isso trará, ou não, para o Estado”.
MILHARES DE VACINAS PARA O LIXO
O desperdício, ao nível dos medicamentos, não é exclusivo dos cidadãos. Carlos Moreira, director da Sub-região de Saúde de Braga, disse ontem ao CM que, quando chegou ao serviço, há pouco mais de dois anos, encontrou, em praticamente todos os centros de saúde do distrito, armazéns cheios de medicamentos e outro material fora de validade ou, por qualquer outra razão, impossível de ser utilizado.
“Resolver essa situação foi a primeira tarefa em que me empenhei, já que o desperdício era inacreditável”, disse. Referindo apenas um exemplo, Carlos Moreira disse que, “nessa altura foram para o lixo milhares de vacinas, num valor aproximado de 110 mil euros, porque não existia equipamento de frio em condições. Uma situação, a todos os títulos incompreensível”.
De resto, este responsável garante que “as vacinas não voltarão a faltar nos centros de saúde da sub-região, o que aconteceu muitas vezes num passado recente, precisamente devido a esse deficiente equipamento de frio”. Carlos Moreira afirma que “o que tem sido feito em Braga é a aplicação da política antidesperdício implementada pelo Ministério da Saúde.
OS PERIGOS DE DEITAR MEDICAMENTOS AO LIXO
BACTÉRIAS
Para além de ser nocivo para o ambiente, deitar remédios para o lixo pode ter efeitos nefastos em termos de saúde. É que, no caso dos antibióticos, por exemplo, as bactérias podem adquirir imunidades aos efeitos desses antibióticos.
BOM SINAL
Apesar de tudo, a Quercus considera animador o facto de terem ido parar às farmácias 150 toneladas de medicamentos excedentes. Dizem que é um bom sinal e revelador de que a campanha ‘Valormed’ devia ter começado mais cedo.
DECLÍNIO
Mesmo que os números sejam animadores, é útil sublinhar que já foi muito maior o volume de entrega de medicamentos excedentes nas farmácias. Fonte da ANF disse que “o decréscimo é notório. Devia voltar-se à campanha”.
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