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Correio da Manhã

Portugal
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PREGÕES NÃO APAGAM CRISE

Foram as grandes superfícies comerciais de antigamente e assumiram-se como o principal motor da economia. Mas as feiras são hoje encaradas, muitas vezes, como um parente pobre da actividade mercantil, mais conhecidas pelas pechinchas e oportunidades de negócio.
11 de Maio de 2003 às 02:09
"Aquilo a que nos supermercados chamam de promoção", comenta Lurdes Ferreira, uma feirante que reconhece que os tempos já foram bem melhores.
"Claro que as grandes superfícies ou as lojas das cidades têm outros confortos que nós não temos, mas não é pelo material de que dispõem que são diferentes ou melhores", assegura Lurdes Ferreira, sublinhando o relacionamento mais humano que se estabelece entre o feirante e os fregueses – nome com que sempre tratou os seus clientes. No entanto, a crise fala mais alto e, muitas vezes, de nada adianta os pregões amorosos a chamar por compradores.
Garante mesmo que há localidades onde só faz a feira por consideração pelas pessoas da zona, porque "o que se apura não dá para as despesas". É o caso de Rio Mau, uma freguesia rural do concelho de Vila Verde. Lurdes Ferreira faz ainda feiras nas vilas de Amares, Terras de Bouro, Vila Verde, Pico de Regalados e Póvoa de Lanhoso.
Habituada a andar de localidade em localidade, montando e desmontando todos os dias a tenda onde expõe as peças de roupa, enxoval e tecidos, adianta que o negócio só melhora na Páscoa, no Natal e no mês de Agosto. Fora disso, as feiras são cada vez mais fracas e até sobram lugares, porque os vendedores chegam a ser menos de metade.
"Ando nisto desde os 11 anos. Comecei com a minha avó, a 'Se-Laurinda dos lenços'", recorda Lurdes Ferreira, com 63 anos de idade e cansada de "uma vida sempre sujeita a tudo, ao vento, à chuva, ao sol". No início, ia a pé para as feiras, que chegam a distar 30 quilómetros da sua casa, em Sabariz, Vila Verde.
"Depois, o meu avô comprou dois cavalos, mas nós íamos grande parte do caminho a pé, porque, se não, o peso na carroça era demasiado", recorda, acrescentando que, só depois de ter casado – já lá vão 36 anos –, é que finalmente teve direito a ir numa carrinha para as feiras. Hoje anda na feira com o marido, José Malheiro, e com a filha Alzira.
Apesar das ajudas e das deslocações serem agora bem mais agradáveis, o trabalho "é duro, muito duro". Para ter a tenda composta quando chegam os primeiros fregueses, é preciso levantar-se às 05h00. Pelas 06h30 começam os trabalhos de montagem, com os ferros e os paus a serem erguidos e atados com cordas para suportarem o toldo de cobertura e todas as armações (incluindo mesas e varetas) que vão permitir estender as peças à venda – desde camisolas, camisas e casacos, a jogos de banho, lençóis, toalhas, cobertores e colchas. “Ter que montar e desmontar tudo todos os dias é o mais cansativo”, comenta.
Os primeiros clientes começam a chegar ainda antes da entrada nos seus empregos. São então brindadas pelos convites amigos da feirante: "Então, freguesinho, não vai nada hoje?"; "Escolha qualquer coisinha"; "Hoje, não me vai levar nadinha?". Muitas vezes, o 'freguesinho' é mesmo tratado por 'amorzinho'.
Outra das evoluções negativas da feira diz respeito ao tempo de duração. "Antigamente, trazíamos um fogão e cozinhávamos na tenda. Mas agora isso já não se usa. Trazemos qualquer coisa de casa ou vamos ao restaurante, quando não almoçamos em casa, porque as feiras acabam muito cedo", conta Lurdes Ferreira".
'HIPERS TROUXERAM CRISE'
"Houve tempos em que ainda se ganhou dinheiro e deu para pôr os filhos a estudar, mas, desde que abriram os hipermercados, isto está mesmo mau", frisou Lurdes Ferreira, acrescentando que, "agora, é quase trabalhar para se poder viver". Os “impostos de tudo e mais alguma coisa e a crise pioraram as coisas. Até os lugares das tendas nas feiras estão bem mais caros. "Mas parar é morrer". Por isso, mantém-se nas feiras, à volta das quais continuam a desenvolver-se centros urbanos. Com a pressão imobiliária, as autarquias acabam por mudar novamente a zona de mercado, provocando também a dinamização de outras áreas. Lurdes Ferreira é que não gosta muito, porque cada muda provoca grandes dores de cabeça e de coração.
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